A 58ª Assembleia do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Atualizado: Mai 10



Os Bispos do Brasil se reuniram este ano pela 58ª. vez em assembleia, como fazem todos os anos. Entretanto, por conta da pandemia da Covid-19, o ano passado não foi possível realizar este encontro. A reunião deste ano de 2021 tornou-se um evento muito esperado, tanto pelos próprios Bispos como por toda a Igreja. Tivemos duas novidades: a primeira é que foi virtual, o que exigiu várias adaptações ao modo pedagógico da Assembleia, a principal delas é que não se pode votar um documento como normalmente se faz nestes encontros. A segunda novidade é que foi empregado um tempo menor. Normalmente utilizavam dez dias, mas a 58ª. Assembleia ocorreu em apenas cinco dias de 12 a 16 de abril. É um evento da Igreja do Brasil que entra para a história.

O modelo virtual e com tempo reduzido não diminuiu em nada as amplas reflexões sobre os temas propostos. Como sempre, foram abertas e participativas. Um dos desafios que destacamos foi realizar as reuniões privativas dos bispos, o que acabou não acontecendo por ser virtual. O tema central foi “O Pilar da Palavra”, proposto pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2019-2023). Mesmo sem a possibilidade da votação de um documento, refletiram sobre o tema “Casas da Palavra – Animação bíblica da vida e da pastoral nas comunidades eclesiais missionárias”. O Documento, em forma de estudos da CNBB, buscará responder à questão dos problemas enfrentados hoje quando se lida com a Palavra de Deus; como a Leitura Orante pode ser utilizada na vida pessoal e comunitária. “Nossa proposta é que seja um material pequeno, de linguagem, conteúdo e custo acessível”, afirma dom Joel.


Além do tema da “Palavra”, foram apresentados outros temas que permeiam de forma integral o tema central. O primeiro gesto dos Bispos foi utilizar o espaço para que em conjunto manifestassem a comunhão com o Papa Francisco em seus esforços para conduzir o Povo de Deus, no fortalecimento da esperança e do amor. “Expressamos e renovamos nossa fidelidade e nossa comunhão com Vossa Santidade, Bispo de Roma e Sucessor de Pedro. Reconhecemos seus inúmeros esforços para construir a unidade na Igreja e com os demais cristãos e favorecer o diálogo com outras religiões não cristãs e com a pluralidade das culturas” (carta ao Papa Francisco). O Papa respondeu por meio de um vídeo. Em sua fala, expressou a preocupação e a necessidade de que os bispos vivam a unidade. Convocou os bispos a serem instrumentos de reconciliação, para isso, deixando de lado as divisões e em Cristo descobrindo a unidade do Espírito. Disse ainda para trabalharem juntos para superar todos os desafios gerados pelos vírus, não só o coronavírus. “Manter os olhos em Jesus para viverem a unidade que não é uniformidade, mas é harmonia, e o Espírito nos confirma nesta harmonia”.

A reflexão a partir das falas dos Bispos ao Papa e do Papa Francisco aos Bispos foi que devem trabalhar para superar as polarizações. Este é o grande mal que está nas mídias e que acaba atingindo a Igreja, não só o povo em geral, mas também os líderes eclesiásticos e civis. O Papa Francisco aponta que o olhar deve ser mantido em Cristo para que o olhar de Cristo guie a todos no serviço ao povo de Deus. As polarizações são sempre de cunho político e é a política, sem o olhar de Cristo, grande causa das divisões.

Nesta reflexão, há a necessidade de compreender que, quando a CNBB diz algo é com seu olhar profético, a partir do olhar de Jesus Cristo para a necessidade do povo. E se precisa atingir o ponto fraco dos governantes, faz sem medo, porque foi isso que os profetas fizeram. A Igreja fala sobre política, mas é para trazer a seu centro a justiça, a vida e caridade na promoção da pessoa em seu sentido pleno, ou seja, humana e ecológica: “o cuidado com a casa comum”.


Com esta explanação podemos compreender por que a CNBB faz profundas e sérias reflexões durante seu encontro. A Assembleia reunida tratou de diversos outros temas: o primeiro deles foi a análise de conjuntura: é um olhar sobra a realidade atual do Brasil. Nesta análise refletiu profundamente sobre a crise da pandemia e suas consequências no campo econômico, político, sociocultural e o desrespeito a vida, pelo número altíssimo de mortos e a precariedade dos pobres. Outro assunto foi a campanha da Fraternidade do ano de 2022 que será sobre “Fraternidade e Educação”, sobre os diversos desafios que se enfrentam neste campo e se propõe a trabalhar junto ao pacto global pela educação proposto pelo Papa Francisco, olhando para a perspectiva de uma ação solidária e integral entre família, governo e Igreja. Por conta da pandemia, reforçaram e ampliaram o “Pacto pela vida e pelo Brasil”, assinado no dia 07 de abril em 2020, numa ação profética e evangélica diante da dignidade da vida. Foi aprovada a 6ª. Semana Social Brasileira com o tema: “Mutirão pela Vida: terra, teto e trabalho”. São ações da CNBB que apontam para as situações que se encontram na sociedade e devemos refletir sobre elas e apontar caminhos de solidariedade. “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo”. A Igreja não está anestesiada diante dos sofrimentos de seu povo.

Por fim, foram encaminhados também outros temas, tais como as aprovações do ano vocacional para 2023 e a apresentação e aprovação do regional Leste 3. E foram aprovados. Momento de festa e expectativas para novas ações de evangelização junto ao povo. Outros ainda: os anos temáticos de São José e Família Amoris Laetitia, convocados pelo Papa Francisco; o Colégio Pio Brasileiro, das Comissões, organismos e Regionais; as Edições CNBB, o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS). Isso demonstra que a Assembleia, embora tenha sido de cinco dias e virtual, não deixou de ser ampla e profunda em sua ação. Dom Walmor, Arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB, destacou que terminavam este encontro com sentimento de gratidão e uma enorme responsabilidade porque: Foi um encontro de pastores e servidores do Povo de Deus [...] A pauta foi extensa e nós a cumprimos com partilhas, discussões, debates e decisões importantes tomadas”.


A Assembleia foi concluída num clima de esperança diante de uma luta que está em curso no combate à pandemia do coronavírus e suas consequências. A carta ao povo brasileiro expressa a comunhão e solidariedade dos bispos às famílias enlutadas e às famílias que sofrem os males e consequências que se agravam por conta da Covid-19. E diz ainda: “O Brasil experimenta o aprofundamento de uma grave crise sanitária, econômica, ética, social e política, intensificada pela pandemia, que nos desafia, expondo a desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira. Embora todos sofram com a pandemia, suas consequências são mais devastadoras na vida dos pobres e fragilizados”. A defesa da vida deve ser forte e incisiva. A Igreja está fazendo sua ação de solidariedade junto ao povo.

Aqui está de maneira clara a ação profética da Igreja expressa visivelmente na CNBB.


Padre Vanderlei Izaumi da Silva

Reitor do Seminário São José e Nossa Senhora da Abadia da Arquidiocese de Uberaba

12 visualizações

Posts recentes

Ver tudo