A Caminho da Assembleia Eclesial: entrevista com Prof. Robson Oliveira

Atualizado: Ago 2

Entrevista com Prof. Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves (ITF) concedida à Rita De Blasiis*



R.D.B.: Como o senhor compreende essa convocação do Papa Francisco para uma Assembleia Eclesial de caráter sinodal tão singular, com Leigos, Bispos e Presbíteros caminhando junto?


R.R.: Estamos nos preparando para a Primeira Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, que tem como lema “Somos todos discípulos missionários em saída”, que será realizada de 21 a 28 de novembro de 2021, presencialmente no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México, e de forma remota em outros lugares da América Latina e do Caribe.


A Assembleia Eclesial da América Latina e Caribe incentiva a organização de espaços de escuta. Espera-se que, a partir desse encontro, sejam delineados os caminhos pastorais para todo o povo de Deus latino-americano e caribenho tendo em vista dois eventos importantes: os 500 anos do Evento de Guadalupe em 2031 e os 2000 anos do Evento Redentor de Jesus Cristo em 2033.


Francisco reconhece que é necessário dar ouvido a todos os membros da Igreja e que é preciso observar a função do poder dentro da instituição e sua real condição de escuta frente aos desafios da realidade do povo.


A convocação do Papa Francisco é clara e direta. É o momento de caminharmos juntos, viver a Sinodalidade. É um desafio que a Igreja na América Latina e do Caribe deve aceitar, pois é um momento de planejar e refletir o futuro da Igreja. Diante desta questão, é urgente dar voz e vez às lideranças de leigos e leigas, fazer a Igreja viver a comunhão visível em sua plenitude.


Francisco convoca a participação de todos os homens e mulheres de boa vontade para que juntos possamos mostrar a face de uma Igreja que é viva e celebra em comunidade. Uma consulta ampla, a partir de baixo. Ele reconhece que é necessário e urgente dar ouvido a todos os membros da Igreja e escutar os desafios da realidade do povo.


Para tanto, uma Igreja que escuta e vive seu protagonismo passa, primeiramente, pela escuta do povo de Deus que, no prontificado de Francisco, tornou-se central. Ele deseja um protagonismo de toda a Igreja, sem se restringir à hierarquia.


Contudo, encontra ainda algumas barreiras e dificuldades que, aos poucos, vão sendo transpostas no desejo de transformar as consciências e as estruturas. Por isso, Francisco é enfático e, nesta Assembleia Eclesial, deseja-se resgatar o Documento de Aparecida que ficou adormecido, guardado e restrito a um grupo da Igreja. Para tanto, almeja-se observar alguns aspectos importantes, como a Sinodalidade, a Colegialidade e a Conversão Integral, de Aparecida à Laudato Si. Assim, a Igreja se torna mais atual quando escuta seu povo e coloca em prática as necessidades de cada um em seu contexto.


Em 2007, o horizonte da V Conferência Episcopal era claro: encorajar os cristãos, de qualquer estado ou condição, a crescer no seguimento de Jesus Cristo através de um caminho de formação integral que permita o desenvolvimento da sua dimensão missionária. Este impulso encontra as suas motivações na intenção de reforçar a identidade do discípulo num contexto plural de “confusão generalizada” (cf. DAp 10), em que cada cristão é confrontado diariamente para discernir e renovar a sua opção por Jesus Cristo. (cf. DAp 14).

Tenhamos plena confiança na audácia do Espírito que nos exorta a percorrer novos caminhos e nos tornarmos cada vez mais discípulos missionários. Caminhemos como Povo de Deus em direção à Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, encontrando formas e momentos para celebrar a presença de Deus nas nossas vidas. Assim, é preciso observar a realidade de uma escuta autêntica, sem preconceitos e livre do poder que corrompe.


R.D.B.: Do ponto de vista da participação das Paróquias e Comunidades e, sobretudo da própria sociedade, abrangendo organizações não governamentais e outros segmentos posto que o convite está sendo dirigido a todos que quiserem participar, não somente católicos, o que o senhor observa e constata nesse sentido?


R.R.: A Primeira Assembleia Eclesial deseja ser uma expressão genuína de uma presença que abrace as esperanças e anseios de todos os que fazem a Igreja, Povo de Deus. Contudo, esse processo de escuta, de forma sinodal, será a base para guiar os passos futuros de uma Igreja mais nazarena e simples.


É preciso conscientizar cada um da sua importância na sociedade e nos aspectos mais importantes da sua vida. Todos são convocados a participar! Como disse anteriormente, Francisco reconhece a necessidade de que todo o povo de Deus participe e também se atente para não deixar ninguém de lado.


Em 2018 a Igreja Católica lançou no Brasil o Ano do Laicato, seria mais uma oportunidade de retomar o papel de leigos e leigas na Igreja “em saída”, como nos apresenta Francisco e sua preocupação com a realidade da Igreja (instituição) e o conceito e vivência do Povo de Deus. Naquele momento voltou-se o olhar para falar do protagonismo dos leigos, dentro do modelo de Igreja que surgiu no Concílio Vaticano II.


Leigos e leigas são também da comunidade cristã. Devem exercer sua atividade dentro da Igreja, na qual vivenciam a própria fé e animam a fé da comunidade. Organizam atividades, como também diversos serviços e grupos pastorais dentro da Igreja, dedicando se também a variados trabalhos de evangelização fora dela.


Sendo assim, conscientes de que a atuação de leigos e leigas é imprescindível para compreender a sua condição de protagonistas no mundo. Por isso é necessário crescer, dentro de cada um o desejo por um protagonismo e um comprometimento, como nos apresenta o Documento de Aparecida, número 215: “A construção da cidadania, no sentido mais amplo, e a construção da eclesialidade nos leigos, são um só e único movimento” Assim leigos e leigas atuam na Igreja e no mundo, atentos ao clamor dos sinais dos tempos, como nos pedia o Concílio Vaticano II.


Por esta razão e pela consciência atuante e bem desenvolvida é que leigos e leigas devem viver a sua práxis na busca da construção de um mundo novo, sem divisões e exclusões; um mundo onde as oportunidades sejam frequentes a todos e a responsabilidade transpareça em cada agir. Imbuído deste espírito criativo o cristão-leigo parte em busca da realização da proposta de Deus, pois acolheu o seu pedido e pela fé decide fazer a sua parte.


Por isso, é preciso agir com responsabilidade e ser verdadeiros sujeitos eclesiais. Pois, ser sujeito eclesial, hoje, (como no Documento de Aparecida) significa ser autêntico e coerente com a fé que professa, significa testemunhar com a própria vida em todas as realidades, buscando o encontro e o diálogo. Ser sujeito eclesial é ser testemunha do Ressuscitado.


Para tanto, no que concerne à responsabilidade do cristão em meio às diversas situações e realidades, é preciso fazer um alerto aos leigos e leigas de todo o mundo: devemos observar nossa ação, sempre atentos à prevalência do bem comum. Leigos e leigas não devem atirar pedras nos demais. É preciso dar acolhimento a todos e a partir daquilo que cada um recebeu de sua comunidade de fé, se dispor a partilhar a Boa Nova de Jesus, mediante gestos concretos que fecundem com amor, o terreno onde a Palavra será semeada.


Em suma, o discípulo de Jesus Cristo mostra-se autenticamente como tal quando assume a missão e o destino do Mestre, comunicando a sua Vida e colocando-se ao seu serviço na plenitude do que ela significa.


Por isso, diante desta realidade, agora é a nossa vez! Vamos juntos participar e seguir em frente como verdadeiros discípulos do Cristo. Não tenhamos medo de fazer a diferença, devemos ter coragem de aceitar os desafios e assumir a verdadeira conversão integral que nos propõe o Documento de Aparecida. Por isso, não deixe de participar, somos convocados e chamados a ser discípulos missionários em saída.


Prof. Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves


Mestre em Teologia, professor de Teologia do Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis e membro do conselho de formação do CNLB LESTE II


Rita De Blasiis, Pedagoga, mestre em Educação.

157 visualizações