A experiência do dízimo na Sagrada Escritura

A realidade do dízimo se encontra presente dentro da Sagrada Escritura, com uma concepção no Primeiro Testamento e uma realidade apresentada pelo Segundo.


No Primeiro Testamento o dízimo se apresenta como um costume antigo presente já em Gênesis. Temos a figura de Abraão que em Gn 14,20 entrega o dízimo a Melquisedec como sinal de agradecimento por sua vitória contra Codorlaomor e também o dízimo se tornando uma instituição pela lei de Moisés, já com a libertação do Egito. Em Levítico 27,30 temos a ordenação de que ao Senhor pertence parte do fruto do trabalho. Em Deuteronômio 14, 22-23 é sinal de gratidão a Deus pelos bens que o homem possui, oferecer seu dízimo uma parte do que possui ao Templo. Mesma concepção apresentada em Números 18, 21 e em outras passagens que reforçam a entrega do dízimo como obrigação legal ao povo de Israel em agradecimento ao Senhor.


A entrega do dízimo é uma ação prática da confissão de fé do povo e o reconhecimento da presença de Deus nos momentos conturbados. Inicialmente como sinal de gratidão a Deus pela vitória ou graça alcançada, o dízimo passa a ocupar um papel importante na sustentação do Templo. Totalmente ligada à prática religiosa onde esta confissão de fé leva a uma ética do cuidado e da prática da solidariedade.


No Segundo Testamento Jesus não despreza a prática do dízimo como vemos em Mateus 23,23, mas acrescenta que essa prática deve estar caminhando em conjunto com o preceito mais importante que é o amor, a justiça e a misericórdia. É uma forma de agradecimento a Deus (nunca uma espécie de troca), mas agora também associada a relação com o próximo, com aquele que necessita.


Ele deve ser observado e relacionado à situação de partilha, onde o discípulo é convidado a compartilhar fraternalmente o que possui para o benefício de todos. Tal situação percebemos em Lucas 9, 10-17, onde a multiplicação dos pães e peixes se tornam sinal de compartilhamento pelo bem comum.


Esse conceito de partilha é bem apresentado em Lucas que não concebe aqueles que possuem bens como homens ricos, mas sim administradores do que Deus confiou. Tudo é de Deus, o criador de todas as coisas, e se ele concebe a alguém a “posse” de algum bem material é para que esse bem seja utilizado para o benefício de todos.


Essa prática de justiça e amor vem acompanhada da consciência de cada um. Na graça é que devemos ofertar, livremente, como cada um propõe no coração, sem que a sua mão esquerda saiba o que ofertou a sua direita. Não nos esqueçamos do exemplo deixado pela viúva em Lucas 21, 1-4 que não oferta grandes quantias, mas aquilo que ela pode. Não oferta o que lhe sobra, mas conscientemente oferece tudo o que possui de melhor. Sempre com alegria no coração e confiança no Senhor, na certeza de estar fazendo o bem e estar semeando o bem, como nos afirma São Paulo em 2Cor, 6-12.


Justamente baseado no amor é que devemos nos abrir a essa experiência da partilha. De nada adianta acumularmos algo que pode estar em falta na casa de nosso irmão, pois o apego às coisas materiais podem ser a causa de nossa própria ruína. Na carta de São Tiago é procurado suscitar essa experiência entre os fiéis e também em nosso meio. Ao observamos Tg 2, 14 –22 e também Tg 5, 1-6 percebemos que o verdadeiro cristão é aquele que coloca em prática a fé que possui, sem o apego aos bens que passam, mas voltados àquilo que não passa: o amor gerador de boas obras.


Somos chamados a realizar essa experiência por meio do dízimo para que com a Igreja, sejamos participantes e corresponsáveis em suas dimensões caritativa, eclesial-religiosa e missionária, pelo bem do mundo e evangelização dos povos.


Sem. Rodrigo Teodoro Mendonça

Seminarista da Etapa da Configuração

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