A jornada missionária de Frei Gabriel e sua chegada em Frutal

Atualizado: Fev 16

Caro leitor: paz e bem!


Na edição do mês de dezembro, iniciamos nossa caminhada para conhecer melhor o Frei Gabriel de Frazzanò, frade que foi um dos primeiros missionários Capuchinhos aqui em Minas Gerais. Foi em 1936 que a Província de Messina, na Itália, abriu a missão aqui em Minas Gerais e que o Ministro Provincial pedia aos frades para rezar pela nascente missão, mas também pedia frades que se dispusessem a esse trabalho missionário. Como vimos, Frei Gabriel de Frazzanò sentiu-se tocado pelo chamado do Ministro Provincial e começou a rezar para discernir qual seria sua resposta à convocação. Em sua oração, pedia a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia que intercedesse por ele para ter clareza se Deus o chamava para esse trabalho apostólico no Brasil, aqui em Minas Gerais. Sabemos que é preciso ter espírito missionário e extremo desapego, inclusive de si mesmo, para lançar-se numa missão em terras desconhecidas.

Frei Gabriel partilhou suas inquietações com seu confessor, que o incentivou a aceitar o desafio e lançar-se nessa aventura da missão ad gentes. Não demorou muito, procurou o Ministro Provincial comunicando que estava disponível para a missão e que gostaria de partir com seus confrades para levar Jesus Cristo e seu Evangelho ao povo mineiro. Logo a nascente missão de Minas Gerais receberia mais um grupo de missionários, entre eles Frei Gabriel, frade humilde que, no escondimento, iria ser um dos principais homens de Deus na nascente missão, destacando-se por não recusar nenhum tipo de serviço e por seu zelo para com os pobres, os doentes, os idosos e as crianças carentes. Frei Gabriel deixou-nos o legado de que precisamos ser solidários com os pequenos deste mundo. Foi um homem virtuoso a serviço do bem comum.



O primeiro grupo de missionários havia chegado aqui em Minas Gerais em fevereiro de 1936. Eram sete frades. Atendendo o pedido de Dom Frei Luiz Maria Santana, OFMCap, bispo de Uberaba, foram para Carmo do Paranaíba e Frutal, as duas paróquias dedicadas a Nossa Senhora do Carmo. Aqui é preciso lembrar a todos que naquela época a diocese de Uberaba abrangia o território em que hoje estão a arquidiocese de Uberaba e as dioceses de Patos de Minas, Uberlândia e Ituiutaba. Em seguida, no dia 24 de setembro de 1936, o segundo grupo de missionários saía da Itália em direção a Minas Gerais. Eram os freis Antônio de Gangi, José de Gangi, João Azzolina e Gabriel de Frazzanò, dois frades padres e dois frades irmãos. Receberam do Ministro Provincial o crucifixo dos missionários, pois este era o sinal de que vinham como enviados pela Igreja para propagar a fé cristã por estas terras e implantar a Ordem Capuchinha. Frei João Azzolina, companheiro de Frei Gabriel nesta turma de missionários, comentou certa vez que trouxeram muitos objetos sacros, alfaias, imagens, crucifixos e livros: apenas o essencial para o trabalho evangelizador. Testemunhou também as dificuldades da viagem naquele imenso oceano. Todos sentiram enjoo, sendo Frei Gabriel o que mais sofreu na viagem. No navio havia uma capela onde os frades faziam suas orações e era celebrada a Missa diária. Todos os passageiros ficaram edificados com a austeridade e simplicidade dos frades e com o modo como rezavam. Foram muitos os dias que só se via o oceano, só água! Frei Gabriel havia sido informado de que Minas Gerais era uma terra montanhosa e que ficava mais para o interior do país. Ele era um homem agradecido a Deus por lhe ter dado saúde e vocação para a sonhada missão. Tinham deixado a pátria, mas não estava triste, pois na alegria espiritual todo lugar é pátria, Deus se faz presente em tudo e em todos.


A chegada ao Brasil ocorreu no dia 10 de outubro de 1936. Quanta expectativa! Chegar a uma nova terra, um novo país; como seria a adaptação a essa nova realidade? Sabiam que não estavam sozinhos, já havia um grupo de irmãos que os precedera. Os missionários se prepararam para fazer da terra de missão sua terra. Já estavam quase chegando ao destino e certamente já o amavam, pois ninguém se aventuraria numa missão se não fosse por amor a Jesus Cristo, por amor à Igreja e à Ordem. E o Capuchinho ainda mais: a partir de sua espiritualidade, logo se identifica com o povo e se sente em casa. Lembro-me de uma vez que perguntei para um frade missionário italiano há quanto tempo ele estava no Brasil. Sua resposta foi primeiro perguntar minha idade; depois com um sorriso, disse: “sou mais brasileiro que você!” Ele tinha chagado ao Brasil antes de meu nascimento.

Frei Gabriel de Frazzanò e seus companheiros acabavam de chegar. Vieram para se fazerem servos e irmãos de todos e assim é que começa a caminhada desses novos missionários. Desembarcaram no porto de Santos à tardinha e já foram percebendo que ainda teriam um longo caminho para chegar ao destino, Minas Gerais, diocese de Uberaba, Frutal. Já no porto foram percebendo as diferenças: língua, costumes, distâncias. Ficaram poucos dias em São Paulo e partiram para Minas Gerais, para Frutal onde seus companheiros de missão os aguardavam. A chegada a Frutal foi no dia 19 de outubro de 1936, com uma bonita recepção preparada pelos irmãos Capuchinhos e pelos membros da comunidade. A calorosa recepção e o encontro com os confrades certamente trouxeram alegria àqueles que chegavam. Já se sentiam em casa, com pessoas que já conheciam. Os missionários são enviados por Deus, são seguidores de Jesus Cristo no caminho proposto por São Francisco de Assis. De agora em diante, deveriam ser portadores da paz e do bem.



E eis que chegaram ao Brasil os novos missionários capuchinhos! Já estão instalados em Frutal e começam seus trabalhos. A aventura era de se fazerem irmãos de novas pessoas. Ainda que a dificuldade de compreensão da língua e da cultura fosse um grande desafio, isto não os tornou menos corajosos e menos dispostos a trabalhar e servir. Pouco a pouco ia sendo construída a relação com os frades e, a intensa aproximação do povo, foi tornando-se fecunda. O testemunho daqueles missionários em Frutal despertou admiração e curiosidade. Tomemos por exemplo a intrepidez de Frei Teodósio de Castelbuono: após o término da derrubada da antiga matriz, já aos cacos, foi capaz de animar o povo a construir uma nova igreja a partir de um projeto totalmente desconhecido pelos pedreiros. O modelo de construção de Frei Teodósio foi neogótico, com arcos ogivais; janelas predominantes - vitrais; rosáceas, paredes mais leves e finas; torres ornadas por rosáceas; consolidação dos arcos feita por abóbadas de arcos cruzados ou de ogivas; abóbada de nervuras... Tudo isso novo e estranho, mas com a ajuda do frei tudo dará certo. O resultado que vemos é a atual Matriz de Nossa Senhora do Carmo em Frutal. Também nela Frei Gabriel fez o serviço braçal e, como religioso Capuchinho, segundo testemunho de quem o conheceu, era um homem de grande estatura física, forte e trabalhador. Mas o que o distinguia era a grande envergadura moral, espiritual e, em todos os aspectos, de uma vida consagrada a Deus e a serviço do próximo, principalmente do pobre. “Sempre dava o exemplo. Nunca falava sem ter dado antes o exemplo”.

Contudo, antes de continuarmos sobre os primeiros feitos de Frei Gabriel e de sua passagem por outras cidades, precisamos trazer à memória com gratidão os freis Teodósio de Castelbuono e João Azzolina. Também eles se doaram na construção do Reino de Deus e merecem o devido reconhecimento.

Em nosso próximo encontro, vamos percorrer com Frei Gabriel seus caminhos missionários em Minas Gerais.

Até lá e que Deus nos abençoe a todos.

Paz e Bem!


Frei Vicente da S. Pereira, OFMCap

Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap

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