A pobreza e a austeridade na vida de Frei Gabriel de Frazzanò

Atualizado: Mai 10


Caro leitor: paz e bem!


Em nosso último encontro, vimos um pouco da história de Frei Gabriel de Frazzanò em Carmo do Paranaíba e conhecemos um pouco do estilo de vida desse homem de Deus. Hoje, vamos continuar a conhecê-lo através de sua história.

Segundo a identidade e as tradições da Reforma Capuchinha, os frades levavam uma vida de grande austeridade. Deveriam ser pobres e simples, e isso transparecia no modo de vestir, na alimentação e no modo como andavam pelo mundo. No tempo de Frei Gabriel de Frazzanò, essa austeridade era amplamente conhecida graças ao estilo de vida dos frades. Outro aspecto notório na vida de Frei Gabriel é o espírito de sacrifício, seja em suas atitudes simples, ingênuas e corajosas, seja em suas atividades práticas, nas viagens, na alimentação e no vestuário. Na doença, ele dava a lição do sacrifício e da penitência, comum ao espírito da Ordem Franciscana Capuchinha. Esse mesmo espírito tem sua origem em São Francisco de Assis, que trilhou um caminho penitencial na busca do seguimento do Cristo pobre e crucificado. Em São Francisco, tal caminho o levou a receber a graça da impressão dos estigmas de Cristo em seu corpo. Com Frei Gabriel, a vivência de sua enfermidade o fez associar seus sofrimentos aos de Cristo, conforme diz São Paulo na Carta aos Colossenses 1, 24.

Assim narra o testemunho de uma pessoa que conviveu com Frei Gabriel acerca do espírito de penitência: “Ah! Frei Gabriel! Como ele se atirava ao trabalho braçal e ao sacrifício espiritual! Parece que ele preparava qualquer futura ação com seu sacrifício pessoal escondido. Tinha antes que sofrer para que sua obra fosse certa e boa a seus olhos e aos de Deus. Acreditava na expressão: ‘não há benefício sem sacrifício’”. Outra pessoa ainda conta que Frei Gabriel era muitas vezes visto deitado ou sentado nas pedras, em pleno descampado, sob soalheira terrível. Se alguém perguntasse, respondia simplesmente que estava fazendo sacrifício. Dormia no chão, ficava sem comer, tudo isso para não incomodar as pessoas e fazer penitência. Às vezes até passava frio no inverno sem um agasalho. Conta-se também que sua cela (o quarto do frade) era muito simples e que não tinha conforto algum, sendo apenas um local do descanso depois de um dia de trabalho. Sua vida, cremos que assim podemos dizer, foi uma vida de sacrifício e de intensa vida de penitência. Era, portanto, a vida de um homem que buscava discernir os caminhos de Deus para melhor servir a todos.

Vejamos outro caso: Frei Gabriel pediu para um fazendeiro a madeira para a obra do madeiramento da Igreja São Francisco de Assis, em Carmo do Paranaíba. O fazendeiro, assim, lhe deu a madeira. O frade dirigiu-se à fazenda sem demora e começou, ele mesmo, a derrubar enormes árvores. A notícia, com um certo exagero, chegou aos ouvidos do fazendeiro que achou que Frei Gabriel estava exorbitando na retirada do material. Foi, então, verificar, pessoalmente, e conversar com o frade. Entretanto, ficou espantado e admirado ao ver Frei Gabriel trabalhando sozinho e pediu a seus funcionários que o ajudassem. Ficou abismado ao ver Frei Gabriel trabalhando daquela forma e com tal força. Com o machado, derrubava as árvores, cortava os galhos e depois arrastava os troncos com cordas que ele prendia em seus ombros, protegidos por pedaços de couro. Um trabalho primitivo, mas heroico! Assim, conseguiu arrastar diversos troncos pesados até a estrada, sob sol forte, além dos mosquitos que não lhe davam sossego. A vida de Frei Gabriel foi uma vida de total serviço.



Nos casos em que conhecia algum fazendeiro e sua situação econômica, ele mesmo escolhia o porco, o bezerro, o frango, o feijão ou o arroz e sempre a pessoa acabava dando. Era impossível negar alguma coisa a Frei Gabriel, pois ele nunca pedia para si mesmo, mas sempre para suas obras; era uma Igreja em construção, os pobres que precisavam, o Seminário Seráfico dos Capuchinhos que necessitava de ajuda. Nesta época estava em Carmo do Paranaíba. Ele tinha um jeito especial para convencer as pessoas que não estivessem dispostas a ajudá-lo. O convencimento dava-se por seu testemunho de trabalho, de força de vontade e por sua vida austera. O que importava não era ele, mas suas obras que, no final eram de todos, pois, na realidade, eram da comunidade.

Frei Gabriel era próximo de Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, Bispo de Uberaba, e de sua mãe Dona Lilia. Sempre que os visitava, levava algum agrado. Eram ofertas singelas, mas que fazia de coração. O gesto agradava mais pelo aspecto afetivo e humano do que pelo valor material do presente. Eram coisas que Frei Gabriel ganhava em suas andanças pelas fazendas e casas: um frango, um queijo ou requeijão, alguma planta ornamental ou alguma fruta. Assim, o presente marcava sua visita e era sinal de sua amizade e profunda reverência.

Atentemo-nos a mais este caso que mostra a força física de Frei Gabriel e também a sua disposição em ajudar as pessoas. Muitas vezes em suas andanças Frei Gabriel foi visto ajudando em situações que eram necessárias. As estradas, naquela época, eram no tempo de chuva muito lamacentas. Havia muitos mata-burros e muitas vezes quebrados ou mal conservados. Se Frei Gabriel visse alguém parado, ele logo parava também e ia se informar sobre o que estava acontecendo. Estava sempre pronto para ajudar! Se dependesse de força física ou qualquer outro expediente dentro de sua capacidade, o problema já estava resolvido. Certa vez, encontrou um caminhão parado na estrada, três homens suavam para tirar o caminhão do atoleiro e continuar a viagem. Frei Gabriel chegou e colocou mãos à obra. Arregaçou as mangas de seu hábito surrado e sozinho realizou a tarefa que três não davam conta, empurrando o caminhão. Todos ficavam boquiabertos com tanta força. Limpando as mãos no hábito capuchinho e desdobrando as mangas, prosseguia seu caminho para fazer o bem. Estava satisfeito, pois ajudara alguém. Tinha sido alguém para alguém e isso era motivo de sua felicidade. Isso mesmo: sua felicidade era fazer o bem! O bem que fazia na humildade e na pequenez, sem alarde, revelava sua vida profunda vivência da espiritualidade de frade menor.


Frei Gabriel de Frazzanò tinha o costume de andar de carona quando devia fazer alguma viagem. Não tinha carro nem fazia questão de ter. Então, recorria aos amigos ou mesmo aos desconhecidos. Dessa forma, ele estava agindo de acordo com o entendimento da pobreza franciscana e seu desprendimento das coisas materiais, como era o entendimento de sua época. Ninguém negava carona para ele, mesmo que precisasse algumas vezes desviar da rota e do destino final de viagem. No tempo em que esteve no Carmo do Paranaíba, trabalhando na construção da Igreja Santo Antônio e, depois, na construção da Igreja São Francisco de Assis, sempre se via o frade pegando carona para comprar material de construção em Catiara. Qualquer condução que conseguisse estava boa. A carona ainda servia para que, durante a viagem, desenvolvesse seu apostolado. Sua conversa animada com o motorista era também para evangelizar. Entretanto, o que falava mesmo era sua simplicidade e sua austeridade. Dessa maneira, ainda seguia um mandato de São Francisco de Assis que dizia que a vida do frade deveria ser sua primeira maneira de pregar. Muitos dos que davam carona ao Frei Gabriel, saudosos, contam sobre essas experiências.

Já relatamos que ele era acelerado no ritmo de trabalho e estava sempre com pressa, sempre com alguma tarefa a ser empreendida e chamava seus colaboradores com gestos e palavras para acelerarem o serviço e realizá-lo logo. A pressa, na verdade, era pensando no benefício que a obra traria às pessoas. Por isso, estava sempre convocando, chamando, incentivando e, com seu entusiasmo, animando a todos.

Dos anos 1948 a 1951, o seminário menor, conhecido como Seminário Seráfico, da então Custódia dos Capuchinhos em Minas Gerais, funcionou na cidade de Carmo do Paranaíba. Os frades moravam num prédio anexo ao Seminário, entre eles Frei Gabriel que sempre teve um bom relacionamento com os adolescentes que desejavam estudar e se tornar frades. Era muito querido pelos estudantes, pois arranjava bons passeios nas fazendas, além de participar, brincar e se integrar com jovens. Além disso, sempre trabalhava para a manutenção do Seminário Seráfico e, quando conseguia frutas nas fazendas, as levava para os jovens.

Pois bem, irmãos e irmãs que nos acompanham nesse itinerário sobre a vida de Frei Gabriel: nesse encontro, percebemos outro aspecto que marca a vida do “Irmão de todos”: sua austeridade capuchinha. Tal característica marcou todos os outros aspectos de sua vida e, por meio dela, conseguiu aproximar-se de todos. Ouvimos recentemente um relato sobre Frei Gabriel que nos chamou a atenção e que exemplifica muito bem esse elemento da vida e da espiritualidade. Assim diz um senhor que o conheceu: “Ele era pobre e se misturava com os pobres”. A pobreza e a austeridade franciscano-capuchinhas são elementos basilares para compreendermos a vida e o testemunho de santidade desse nosso irmão.

Por hora, ficamos por aqui. Em breve continuaremos. Até lá, paz e bem!


Frei Vicente da S. Pereira, OFMCap

Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap

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