A Santíssima Trindade

Atualizado: Jun 9


A maior novidade do cristianismo não está em só crer que Deus existe - todas as religiões acreditam nisso - nem só que Deus é único - esta é a fé de todas as religiões monoteístas -, mas sim que “Deus é Amor” (1Jo. 4,8.16). Entretanto, o amor supõe uma dinâmica intersubjetiva, feita de relações: um Eu que se dá e um Tu que recebe. Em outras palavras, podemos dizer que o maior dogma cristão é a afirmação de que “Só Deus é Deus, mas Ele não é só. Deus não é solitário, concentrado ciosamente na própria existência”. A fé na Trindade é a afirmação desse Amor de Deus, desse Deus que se doa e se recebe, esse Deus que é essencialmente Amor, constituído em si mesmo, desde toda eternidade como Pai, Filho e Espírito Santo.

De fato, na plenificação da autorrevelação de sua Pessoa, Jesus afirmou “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10,30) e, na sequência, foi mais explicito, dizendo que faz o que faz “para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele(Jo 10,38). A Felipe que lhe pedia que mostrasse o Pai, ele disse : "Aquele que me viu viu também o Pai" ( Jo 14,9). Mais tarde, em sua Oração sacerdotal, enfatiza : "Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu" (Jo 17,10); "Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17,21).


Nessas palavras, ele afirma a nítida distinção de pessoas e a profunda Unidade de Ser que o une ao Pai. Observa-se também que, na vida intratrinitária:

ü Cada Pessoa é ela mesma ao dar-se às outras, é ela mesma por meio das outras;

ü Cada Pessoa é ela mesma, no amor trinitário, ao fazer que as outras sejam;

ü A plenitude de Deus encontra-se totalmente em cada Pessoa e totalmente na Unidade das Três;

ü As Pessoas vivem uma com as outras, uma para as outras, uma nas outras e uma graças às outras;

ü Não pode existir unidade trinitária, sem o mútuo esvaziamento, sem o perder-se um no outro, por amor, que faz com que cada um seja plenamente ele mesmo.

A própria lógica do amor também exige que na vida intradivina haja pluralidade, alteridade, comunicação, reciprocidade, não apenas dom de si, mas também dom em si, como indicam a Escritura e a fé da Igreja, de modo que se evite a fé de que as Três Pessoas sejam três deuses (triteísmo), nem como simples “modos” do mesmo Deus (modalismo), nem hierarquizadas - nenhum anterior/posterior, superior/inferior, maior/menor - (subordinacionismo).

Por fim, em Deus Uno e Trino, há uma mútua inclusão, o recíproco estar-um-dentro-do-outro, a presença ou compenetração que se dá reciprocamente entre as Pessoas divinas, que se unem, distinguindo-se e se distinguem, unindo-se. São João Damasceno assim expressava essa realidade: as Três Pessoas da Trindade “estão unidas, mas sem confusão, estão uma nas outras sem fusão e sem mistura”[1]. “Cada uma das Pessoas habita, tem sua sede na outra”[2]. Trata-se da unidade entre Pessoas que não são a mesma Pessoa, mas são Um.


Resumindo nossa fé na Santíssima Trindade e suas implicações, os Bispos de Navarra e do País Basco afirmaram:

“Quando nós, cristãos, confessamos a Trindade de Deus, queremos afirmar que Deus não é alguém solitário, fechado em si mesmo, mas um ser solidário.

Deus é comunidade, vida compartilhada, dedicação, doação recíproca, feliz comunhão de vida.

Deus é, ao mesmo tempo, o amante, o amado e o amor (...).

Confessar a Trindade não quer dizer, apenas, reconhecê-la como princípio, mas também aceitá-la como modelo último de nossa vida. Quando afirmamos e respeitamos as diversidades e o pluralismo entre os seres humanos, na prática confessamos a distinção trinitária das pessoas.

Quando eliminamos as distâncias e trabalhamos para realizar a efetiva igualdade entre homem e mulher, entre afortunados e despossuídos, entre próximos e distantes, afirmamos na prática a igualdade das pessoas da Trindade.

Quando nos esforçamos por ter “um só coração e uma só alma” e aprendemos a colocar tudo em comum, para que ninguém tenha de passar pela indigência, estamos confessando o único Deus e acolhendo em nós sua vida trinitária.”[3]

[1] JOÃO DAMASCENO, De Fide Ortodoxa, I,8 - MG 94,829 [2] Ibid, 1,14 [3] Bispos de Navarra e do País Basco, Creer hoy en el Diós de Jesuscristo, Páscoa de 1986, nos 47.49

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