Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021: Diálogo para a Paz e Unidade


Neste ano, a Campanha da Fraternidade Ecumênica traz uma temática de reflexão muito oportuna: o diálogo. Não se trata apenas do ecumenismo entre nós cristãos, mas da capacidade de estabelecer relacionamentos pautados no respeito mútuo e na percepção do outro. Estabelecer diálogo não é concentrar nossas energias em uma aceitação aparente, mas unir-se em comunhão com o que nos é comum no outro. O texto-base da Campanha pode ser compreendido a partir desse pensamento. E tal pensamento foi dividido neste subsídio em quatro paradas de meditação e interiorização de tudo o que nos faz seres humanos, criados à imagem e semelhança do Deus único.

A primeira parada troca impressões sobre os acontecimentos mais recentes em nosso país, como a pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2 ou Covid-19) e seu enfrentamento, as políticas realizadas e não realizadas em seu contingenciamento. Algo extremamente importante, pois milhares de vidas estão sendo perdidas todos os dias. Por mais que já parece que estamos esgotados de ouvir falar sobre a pandemia, ela ainda não acabou, e existem pessoas que agem como se ela já não estivesse fazendo mais nenhuma vítima.

É preciso contemplar essa realidade que ainda é real com o coração, assim como nos pede a Campanha. Isso também é capacidade de diálogo: diálogo com a realidade. Não podemos nos prender em um universo imaginário centrado no ‘‘eu’’, a exemplo: ‘‘eu sou forte, não morrerei de gripe’’. A realidade do ‘‘eu’’ é a marca bíblica do pecado original: a soberba (Gn 3). Diálogo é, como a própria palavra grega diz (dia + logos = diferentes discursos): troca entre duas pessoas, com o outro, com o não-eu. Sempre que nos centrarmos no ‘‘eu’’, estamos incorrendo no mesmo pecado original que comprometeu toda a criação. Não estaremos seguindo Jesus, que venceu este pecado, inclusive no isolamento do deserto (Mt 4).


A marca do pecado (o ‘‘eu’’) é resultado de todas as abominações que acompanhamos nos noticiários, nos feeds do Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e afins. A violência desmedida contra o outro; o racismo, que em nosso século já não deveria existir por ser algo extremamente ultrapassado, desumano e cientificamente considerado sem fundamento. Existe sempre uma marca do ego em nossas relações que nos impedem de colocar em prática o diálogo, de estar em plena comunhão com o outro, porque o diferente nos assusta. A Campanha nos chama atenção para não nos preocuparmos tanto com as coisas que nos diferem, mas com as que nos unem. Este é o sentido do ecumenismo, este é o sentido de ser humano, membros da mesma e única espécie criada à imagem do Deus Todo-Poderoso (aqui leia-se como sinônimo Todo-Misericordioso). A primeira parada que a Campanha faz em seu texto-base é esta: refletir em espírito de abertura e diálogo sobre as realidades recentes, meditando no coração, como Maria, no que nosso ego nos tem atrapalhado em nossas relações com nossos semelhantes.

A segunda parada é uma carta direcionada a todos os que possuem boa vontade de estar abertos ao diálogo em um mundo cheio de barreiras e divisões. A inspiração bíblica marcante de todo este percurso de diálogo rumo à paz e à unidade é a do caminho de Emaús (Lc 24), em que Jesus interpela dois de seus seguidores que estavam indo embora de Jerusalém, após sua crucificação. A principal impressão que pode ser extraída dessa passagem neste nosso itinerário ecumênico de diálogo é, claro, primeiro o diálogo que Jesus estabelece com eles: um se dá a conhecer ao outro (com o adendo de que eles reconhecem Jesus no partir do pão) e, depois, o pedido que um deles faz: ‘‘Fica conosco, Senhor, pois já anoitece’’ (Lc 24, 13-35).

Este pedido é a marca do querer estar enraizados no Mestre, enraizados em seu amor misericordioso, pois puderam sentir pelo diálogo a comunhão verdadeira. A noite, na Bíblia, é o símbolo do obscuro, da presença do mal, neste caso, da divisão. A Campanha deste ano chama a todos os de boa vontade para ficarem com o Senhor, para assim nos livrarmos das noites que nos impossibilitam de praticar o bem ao próximo, não importando quem este próximo seja, assim como Jesus mesmo fez quando se encontrou com a pecadora caída (Jo 8). Estando enraizados no Mestre e em seu amor, caminhamos para a comunhão verdadeira. Jesus não agiu preconceituosamente contra aqueles que estavam ‘fugindo’ de Jerusalém, mas antes abriu-se ao diálogo para com eles. Ali, a salvação fora realizada. O muro da dúvida, da angústia e do medo daqueles homens no caminho foi superado pelo encontro com o amor misericordioso de Deus.


É preciosa a passagem da carta de São Paulo aos Efésios que diz que o muro da divisão foi superado em Cristo (2,12-22). Com efeito, mais do que um sinal, é um fato concreto de que no Templo dos judeus havia um muro que separava os judeus dos não judeus. Este muro caiu factualmente com a destruição do Templo em 70 d.C., e espiritualmente para cada crente que professa verdadeiramente sua fé no Filho de Deus feito Homem. Entre nós não deve haver gentio ou judeu, mas quem crê verdadeiramente em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, assim como São Paulo sempre afirmou em suas cartas. Para que o muro de nossos corações caia de verdade, precisamos esforçar-nos para crer mais profundamente em Cristo, sem nenhuma espécie de orgulho religioso. A Campanha nos alerta contra os perigos do orgulho religioso, fundamentado apenas nas particularidades e diferenças de cada grupo e religião. É preciso criar uma consciência de uma nova humanidade, edificada sobre a rocha angular que é nossa salvação: Cristo Senhor, o Deus conosco e seu divino mandamento do amor.

A terceira parada evoca um pouco do que falamos na segunda, mas com maior ênfase no fato de que só encontraremos a paz quando estivermos juntos de Cristo, pois Ele é o promotor da verdadeira paz. Do que era dividido ele fez unidade. É preciso superar: esta é a palavra-chave desta parada. Superar a violência, a divisão, o medo das diferenças, o medo do outro, a insegurança de ser um com o outro. Esta é a garantia de uma manutenção saudável de nossa Casa Comum, como muito nos tem alertado o Santo Padre, o Papa Francisco. Jesus mesmo nos relata no Evangelho que uma casa dividida não subsiste (cf. Lc 11,14-23). É preciso unidade e esta unidade garantidora da autêntica paz se origina no respeito e no diálogo, sinais divinos do Mestre entre nós, homens e mulheres.

A urgência de sabermos cultivar um espaço de convivência sadia com quem não pensa como nós é algo sempre motivado pelo Papa Francisco e no texto-base da Campanha deste ano também. Isso nos faz refletir sobre sua real necessidade em nossas vidas como cristãos e membros de comunidades de fé. Dentre as iniciativas concretas para tudo isso que até agora foi ressaltado, existem ações incentivadoras do diálogo, como a Semana de Oração pela Unidade Cristã, que é a integração de várias denominações cristãs por um propósito maior: levar a humanidade a Cristo, Senhor da Vida e da Salvação. Essa semana, geralmente celebrada no mês de janeiro, é um marco extremamente positivo na luta contra a intolerância entre os cristãos e, mais ainda, entre aqueles que são diferentes de nós, seguidores do Nazareno.


Por fim, a quarta parada do texto-base da Campanha nos leva para a parte celebrativa da unidade. Toda ação que for planejada para o trabalho ecumênico deve ser sustentada pela oração, pelo diálogo com o Supremo Outro: Deus. A Campanha provê subsídios litúrgicos para a oração da Santa Missa, círculos bíblicos e a via-sacra, dentro do ambiente forte da espiritualidade quaresmal. Tais subsídios são muito ricos e bem compostos no sentido de permitir a reflexão adequada com relação ao tema-trabalho no ano respectivo. Por isso, é importante que saibamos apreciá-los e praticá-los em nossas comunidades, em espírito de comunhão e diálogo com toda a Igreja de Cristo, aqueles que portam as vestes brancas do batismo e que foram alvejadas por seu testemunho no Sangue do Cordeiro (Ap 7,9-17).


Seminarista Pablo Borges

Síntese Vocacional

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