CARTA DE TIAGO

Atualizado: Jun 9

Continuando nossos passos pela Carta de Tiago, o capítulo 3 mostra o autor iniciando uma nova temática sobre a questão da língua e da busca da verdadeira sabedoria.

O perigoso poder da língua – Tg 3, 1-12

Este trecho aborda o tema já mencionado em Tiago 1, 19.26: a potência demoníaca da língua. O texto fala que aos mestres é reservado um juízo mais severo, pois eles têm a missão de ensinar e nunca devem ensinar o mal, o erro. Tiago diz que todos são ameaçados com o perigo da língua. Não apenas se deve fazer atenção no ato de ensinar (nas assembleias cultuais), mas no uso da fala, seja pública ou privada.


O texto atual se liga ao precedente, mostrando que a língua é um sujeito ativo nas obras que revelam a fé. É necessário autocontrole no falar. Tiago usa vários exemplos para explicar o poder da língua em relação ao homem, a sua vontade: freio-cavalo, timão-navio, faísca-bosque em chamas. A língua tem o poder de corromper o homem e a sociedade. Para Tiago, é impossível que de uma mesma boca possam sair bênçãos e maldições, louvores e condenações.


O texto inicia falando do ministério de ser mestre, de ensinar. Para Tiago, mestre é aquele que dá um ensinamento ético, como uma introdução ao agir segundo a vontade de Deus. O mestre recebe a graça de ensinar e, portanto, é mais responsável e será julgado com mais rigor no juízo final (recordar a polêmica de Jesus contra os escribas em Mc 12,38-40; Lc 20, 45-47 e Mt 23, 1ss). Tiago recorda que todo homem é pecador, mas a responsabilidade de um mestre é maior quando ele cai em tentação.


O instrumento de trabalho de um mestre é a palavra, é o uso da língua. Portanto, a possibilidade de pecar é ainda maior e mais revestida de gravidade. O mestre tem a missão de servir à palavra, de frear a língua e ensinar o bem (prática da obediência por inteiro, sem divisão). O tema da língua é muito abordado nos escritos sapienciais. Jó a chama de “flagelo da língua” (Jó 5,21); o Eclesiástico fala dos efeitos da corrupção (Eclo 18,14; 22,27); Provérbios diz que é salvo quem consegue dominá-la (Pr 18,21). Tiago mostra que a língua tem seu aspecto positivo, como o freio do cavalo e o timão de um barco. Assim como o homem os governa, deve governar seu corpo e sua língua.


No entanto, Tiago tem uma interpretação pessimista, mostrando que o homem não consegue fazer nada contra a língua. Embora seja tão pequena, o poder da língua é muito grande. Provérbios, Eclesiástico e Salmos comparam o poder demoníaco da língua com o fogo que consegue incendiar e destruir toda uma floresta. Para Tiago, a língua é a porta do “mundo das injustiças”, pois seus efeitos maléficos não se estendem ao corpo humano, mas a toda a vida humana. O fogo maléfico da língua é ainda comparado ao fogo do inferno.

O texto termina recordando que os problemas da língua não são apenas da ordem humana, do relacionamento humano, mas também em relação a Deus, pois com a mesma boca se louva e se ofende aquele que é imagem de Deus. Toda pessoa humana, por mais desprezada ou amaldiçoada que seja, continua sendo uma criatura, ou seja, imagem de Deus. A epístola de Tiago exorta a evitar mesmo este mal, de falar/profanar a imagem de Deus presente em qualquer pessoa que seja.



Assim como uma nascente não pode dar água doce e salgada ao mesmo tempo, uma figueira não produz azeitona e uma videira não produz figos, da mesma forma não pode sair louvor e maldição de uma mesma boca.

Na próxima edição do Jornal Metropolitano, estaremos refletindo sobre a sabedoria celeste e a sabedoria terrena, para as quais o homem deve voltar seu coração.

Padre Marcelo Lázaro

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