Cicatrizar feridas

O ser humano faz um percurso histórico mergulhado em uma tremenda falta de autêntica e verdadeira paz. São muitos os desencontros e falta de fraternidade, que chegam a ferir a intimidade do coração humano. É um clima de conflitos, não só ideológicos e de convivência, mas também de insatisfação comunitária e pessoal. Isso é consequência de atitudes sem sustentação apoiada na verdade.


As cicatrizes são fortes, exigindo uma profunda mudança no formato dos relacionamentos, porque não basta fazer acordos de paz no papel e em escritórios bem montados. O momento é de olhar para os erros do passado, passar pela via da misericórdia e colocar em prática a verdade e a justiça e projetar um novo estilo de sociedade. A verdade não pode causar vinganças, mas reconciliação e perdão.


As agressões ao ser humano no mundo são verdadeiras feridas. A vingança não é a solução, porque violência gera violência, ódio gera mais ódio e morte gera mais mortes. É uma prática que precisa ser quebrada para construir uma cultura de paz, que permita a todos trabalhar juntos para o bem comum. Problemas sempre existem, mas podem ser superados, mesmo na diversidade.


No entender do Papa Francisco, há sempre possibilidade de se encontrar algo bom nas pessoas, porque ali existe um “lampejo de esperança”. Ninguém pode ser descartado do compromisso de ajudar na construção da paz na comunidade. Basta trabalhar a consciência da partilha, da justiça e do diálogo fraterno como formas essenciais para a superação de uma prática interesseira e egoísta.


As pessoas não podem ser algo anônimo no mundo, porque nele todas têm sentimentos de pertença. Mesmo com as divergências e as feridas cicatrizadas, cada indivíduo e cada grupo social, pode ser fermento de transformação na construção da casa comum, formando uma grande família. Não é uma realidade tão fácil, pois depende de serenidade, tempo e de um caminho formativo de consciência.


A construção da unidade de uma nação supõe convivência pacífica entre as pessoas, dentro de um contexto que privilegie a cultura do encontro. Diante das insatisfações presentes na vida da população, as manifestações públicas de forma violenta não ajudam no processo. O caminho da negociação e do diálogo consegue dar claridade para os objetivos que devem ser atingidos.


Dom Paulo Mendes Peixoto

Arcebispo de Uberaba

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