Compromisso com a vida à luz do Evangelho

Atualizado: Set 8


Estamos vivendo um momento complexo e repleto de indagações. A realidade atual, fruto de uma história de exclusão e aprofundada no atual contexto, nos remete a inúmeras incertezas, levando-nos à tentativa de sobreviver em um mundo tão desconhecido e inusitado – fruto da pandemia do COVID-19.

É sabido que toda mudança instiga novas visões de mundo ou mesmo retrocessos e nos chama para o enfrentamento de uma nova realidade. Se para nós as questões que estão sendo postas por este novo contexto histórico geram sofrimentos e indagações, imaginemos a realidade das pessoas que estão, neste exato momento, tentando buscar a duras penas condições limítrofes da própria sobrevivência.

Infelizmente nem sempre conseguimos visualizar respostas mais urgentes que nos possibilitem direcionar nossos caminhos e nossa história. Frente a este contexto, é notório que procuremos, de uma maneira menos dolorida, reconstruir nossas caminhadas e apontar novos horizontes. Para tanto, a única certeza que podemos apresentar nesse momento é que não conseguiremos superar nossas inquietações a não ser por meio da solidariedade. É ela que, de fato, nos arranca do imobilismo.


Na passagem evangélica sobre a multiplicação dos pães, Jesus Cristo sente profundamente a fome do povo. Ele bem sabia que não era apenas a fome do corpo, mas também e sobretudo, a fome do Espírito e, por isso, se solidarizou com o povo. A multiplicação dos pães não é apenas um milagre. É, na realidade, um sinal direcionado, com o objetivo de mostrar a importância da partilha e do olhar humanizador a favor dos pobres.

O sinal do milagre dos pães é, em sua plenitude, o renascer para uma nova realidade que não implica apenas seguir, sem compromisso e entrega, os passos de Jesus Cristo. Afinal, Ele nos deixa livres para escolhermos qual caminho tomar, como fez com Moisés quando este, ao ouvir, seguiu o “sinal dos tempos” (sua época), estendeu a mão sobre o mar, e Deus, o Senhor, com um vento leste muito forte, fez com que o mar recuasse (Ex 14, 21). A grande experiência do povo foi conclusiva: Deus nos libertou! Somos o povo de Deus (Ex 19,4-6). Se somos povo de Deus e por Ele fomos libertados, seguir a Deus é assumir a libertação de nossos irmãos que carecem do direito à vida.

A escolha pelo caminho da partilha, do acolhimento, da solidariedade é, com certeza, o mais difícil de se trilhar, pois exige a reconstrução de nossa vida em comunhão com a vida de tantos sofredores. É deixar transparecer em nossas ações a não neutralidade frente aos problemas referentes ao abandono e à miséria. O sinal de acolhimento à dor do outro é, de fato, o mote inicial de sua e de nossa própria libertação. Fazer o exercício conjunto de retirar, de dentro dos sofredores, a marca dos que oprimem, é discernir entre o que há de injusto e justo à Luz do Evangelho.


Fechar os olhos diante de uma realidade sofrida de nossos irmãos e irmãs é nos afastar do projeto de Deus e nos aproximar do projeto (opressor) dos que não aceitaram a humildade e o senso de justiça proposto por Ele. Diante deste contexto, fica claro para nós, cristãos e cristãs, que comprometer-se com os pobres no combate à indiferença gerada pela miséria e pela injustiça é assumir com firmeza uma difícil, mas irrecusável e concreta proposta de libertação ao fazermos a mesma caminhada que Jesus Cristo se propôs a fazer.


Maria Rita Nascimento Pereira

Coordenadora da Pastoral da Educação da Arquidiocese de Uberaba

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