Corpus Christi: história, significado e celebração

Corpus Christi é certamente uma das solenidades mais populares. Quer pelo seu significado, que evoca a presença real de Cristo na Eucaristia, quer pelo estilo da celebração. Na verdade, em quase todas as dioceses, é acompanhado por procissões, uma representação visual de Jesus percorrendo os caminhos do homem. Por causa da Covid-19, na Arquidiocese de Uberaba as procissões estão suspensas enquanto durar a pandemia.

A história da origem da festa remete-nos ao século XIII, na Bélgica, para ser mais preciso em Liège. Nela, o bispo atendeu ao pedido de uma priora que queria celebrar o sacramento do corpo e sangue de Cristo fora da Semana Santa. Mais precisamente, as raízes da festa encontram-se na região da Gália belga e nas revelações da beata Juliana de Liège (1193-1258). Ela era priora do mosteiro de Mont-Cornillon, perto de Liège e teve em 1208 uma visão mística em que uma lua branca apareceu na sombra de um lado. Uma imagem que representou a Igreja de seu tempo, que ainda carecia de uma solenidade em honra ao Santíssimo Sacramento. Foi assim que o diretor espiritual da beata, o cônego João de Lausanne, apoiado pelo juízo positivo de numerosos teólogos, apresentou ao bispo Roberto de Thourotte o pedido de introduzir uma festa diocesana em honra a Corpus Christi. A autorização veio em 1246 com a data da festa marcada para a quinta-feira após a oitava da solenidade da Santíssima Trindade. Também foi uma resposta à heresia de Berengário de Tours (1000-1088) que, no século XI, negava a presença real de Cristo no sacramento da Eucaristia.



A extensão da solenidade a toda a Igreja, no entanto, deve remontar ao Papa Urbano IV (1261-1264), com a bula Transiturus de hoc mundo, de 11 de agosto de 1264. Na cidade italiana de Bolsena aconteceu um “milagre eucarístico”. Um padre teutônico (de Praga), segundo a tradição, conforme as informações da Basílica de Santa Cristina, passava pela cidade em peregrinação a Roma. Enquanto celebrava a Santa Missa, foi invadido pela dúvida se estava diante da presença real de Cristo no momento que partiu a Hóstia consagrada. Em resposta às suas perplexidades, saíram algumas gotas de sangue da Hóstia que manchou o corporal de linho (conservado na Catedral de Orvieto) e algumas gotas nas pedras do altar, conservadas ainda hoje na Basílica de Santa Cristina. Ao estender a solenidade a toda a Igreja Católica, Urbano IV escolheu a quinta-feira seguinte ao primeiro domingo após o Pentecostes (60 dias após a Páscoa). Neste ano de 2021, a Solenidade acontecerá no dia 03 de junho – ano de São José.

O Papa Urbano IV encarregou o teólogo dominicano Tomás de Aquino (1225-1274) de compor o ofício da solenidade e missa de Corpus et Sanguis Christi. Nessa época, São Tomás residia, como o Papa, na cidade rochosa etrusca de Orvieto, no convento de São Domingos. O doutor Angelicus ensinava teologia em Orvieto studium (universidade da época) e ainda hoje a cadeira de São Tomás de Aquino e o crucifixo de madeira, que falou com ele, estão preservados no convento de São Domingos. Na verdade, a tradição diz que pela profundidade teológica e completude do ofício composto para Corpus Christi Jesus - por meio do Crucifixo - disse ao seu amado teólogo: Bene scripsisti de me, Thoma, conforme Il piccolo Tommaso (vatican.va). O hino principal de Corpus Christi cantado na procissão e nas vésperas é Pange língua, escrito e pensado por São Tomás de Aquino.


Com a reforma litúrgica, após o Concílio Vaticano II (1962-1965), a festa de Corpus Christi recebeu o título de Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Com esta celebração, a Igreja Católica destaca o sentido da Eucaristia que é memória viva do sacrifício de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “se fez carne” (Jo 1,14), uma manifestação de fé. O papa São João Paulo II (1978-2005) escreveu em sua carta encíclica Ecclesia de Eucharistia, 62: “Nos sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados em seu Corpo e Sangue, Cristo caminha conosco como nossa força e nosso viático, e nos torna testemunhas de esperança para todos. Se a razão experimenta seus limites diante desse mistério, o coração iluminado pela graça do Espírito Santo intui bem como comportar-se, entranhando-se na adoração e num amor sem limite”.


Padre José Rinaldo da S. Trajano

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