Critérios para a vocação

Atualizado: Ago 9


Deus enviara o velho Samuel à casa de Jessé, em Belém, para ungir um novo rei, depois da grande decepção do reinado de Saul. Quando o profeta-juiz chega a seu destino, leva consigo seus critérios humanos e aparentes. Logo que o primeiro filho de Jessé chega, Samuel pensa que ele é o escolhido de Deus, mas o Senhor lhe replica: “Não olhes seu aspecto, nem sua grande estatura, pois eu o recusei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, o Senhor vê o coração” (1Sam 16,7). Tendo sido apresentados os sete filhos de Jessé, ali presentes, todos foram recusados.

Essa narrativa de vocação nos intriga, como intrigou a Samuel. Por que Deus não escolhera nenhum daqueles filhos de Jessé? Pareciam fortes e prontos para armar exércitos e lutar pelo povo de Deus. A nenhum deles o Senhor escolhera. Samuel pergunta a Jessé se todos seus filhos ali estavam. O anfitrião lhe respondeu que havia ainda o mais novo, que estava cuidando do rebanho. Samuel lhe respondeu: “Manda buscá-lo, pois não iremos à mesa enquanto ele não chegar” (1Sam 16,11). O pai mandou buscar o filho mais novo e o texto bíblico descreve o menino como sendo “ruivo, de belos olhos e de aspecto formoso” (1Sam 16,12b). Atento aos desígnios de Deus, Samuel ouviu o discernimento: “Levanta-te, unge-o, é este!” (1Sam 16,10c).


Sabemos da grandiosidade que foi esse homem na história do povo de Deus. Do tronco de Jessé brotou a rama, da rama nasceu a flor... A genealogia de Jesus de Nazaré passa pela história de Jessé e do grande rei Davi. “Dos oito filhos, o mais novo; o menino que nem mesmo o profeta sabia que podia ser rei”. Por que Deus escolhera Davi e não outro de seus irmãos? Outro talvez fosse menos resistente aos desígnios de Deus, menos pecador, menos indigno, mais robusto...

O Evangelho de Marcos nos conta que “Jesus subiu à montanha e chamou os que ele mesmo quis; e foram até ele. Então, constituiu doze para estarem com ele e para enviá-los a anunciar, com a autoridade de expulsar demônios” (Mc 3,13-15). Daí passa a descrever cada um, com características muito simples: a um dos pescadores deu o nome de Pedro, a outros dois deu o nome de “filhos do trovão”. Sabemos ainda que havia um cananeu, um cobrador de impostos e, por fim, um que o traiu. Será que não havia gente mais bem preparada naquela região? Por que Jesus quis esses e não outros? Que critérios Jesus usou para eleger esses doze homens que assumiriam uma enorme missão? O que Jesus viu nos olhos e no coração desses pobres homens?

Em minha história de vida, conheci muitas pessoas bem mais preparadas do que eu. Nos meus tempos de juventude, tinha colegas com muito mais condições do que eu. Nos anos de seminário, conheci jovens mais inteligentes, mais santos e bem mais capazes do que eu. Por que Deus me escolheu e não escolheu a esses outros? Por que Deus quis servir-se de minha humildade, de minhas incapacidades e de minhas misérias? O Senhor chama “aqueles que ele quis”. E por que ele quis esses e não outros? Estamos diante do mistério da vocação de Deus. Desconhecemos os critérios de que o Senhor se serve para olhar nos olhos das pessoas e lançar o chamado a seus corações.


Deus se serve da vocação para ter misericórdia de todos nós. Foi meditando esse mistério que o Padre Bergoglio escolheu o lema de sua missão episcopal: “Olhou-o com misericórdia e o escolheu”. Tal lema foi tirado das Homilias de São Beda, o Venerável. Comentando o episódio evangélico da vocação de São Mateus, o sacerdote Beda escreve: “Viu Jesus um publicano e, dado que olhou para ele com sentimento de amor e o escolheu, disse-lhe: Segue-me”. A citada homilia é uma homenagem à misericórdia divina e se reveste de um significado especial na vida e no itinerário espiritual do Papa Francisco. Com 17 anos, de modo totalmente particular, a presença amorosa de Deus tocou a vida pessoal do jovem argentino. Depois de uma confissão, Bergoglio sentiu seu coração ser tocado, sentiu a descida da misericórdia de Deus que, com o olhar de amor terno, o chamava à vida religiosa, a exemplo de Santo Inácio de Loyola.

Jesus continua a chamar pessoas para seu seguimento, assim como chamou os Doze, assim como Samuel atendeu o chamado de Deus e se fez instrumento para a unção do grande rei Davi. No hoje de nossa história, diante dos desafios do tempo presente, a voz do Senhor continua a ressoar: “Segue-me!” (Jo 1,43b). O Senhor continua a querer precisar de nós para o anúncio da alegria do Evangelho, da presença do Reino em nosso meio. De nossa parte, deixemo-nos ser “misericordiados” e respondamos com a mesma humildade e confiança daquela que se fez serva e discípula do próprio Filho: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38).


Padre Geraldo Maia

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