Dízimo em tempo de pandemia

Queremos fazer esta reflexão em dois momentos. Primeiro dizer alguma coisa sobre o dízimo como sinal de pertença e lançar uma reflexão sobre a nossa compreensão sobre a devolução do dízimo. E segundo dizer algo sobre o dízimo no tempo da pandemia.


Acreditamos que estamos vivendo em um tempo que pode nos ajudar muito na compreensão de nossa fé e na vivência desta fé. Podemos questionar quais os sentimentos que brotam em nós diante de tudo: medo, angústia, agitação, desespero, ansiedade... ou confiança, esperança, paz, solidariedade, Temor a Deus, discernimento... estes e muitos outros. Estes sentimentos estão relacionados com um certo grau da experiência da fé. Pensemos nos discípulos no tempo que conviveram com Jesus Cristo antes da paixão, morte e Ressurreição e depois da Ressurreição. Antes eram pessoas que não compreendiam nada do que Jesus dizia. Depois, com o Espírito Santo, passaram a compreender e realizaram tudo o que Jesus Cristo lhes mandou. “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado”(Mt 28, 19-20). Assim podemos marcar este tempo de pandemia como um momento divisor de nossa experiência da fé.


Este primeiro paragrafo é para destacar o que pretendemos apresentar a certo do dízimo neste tempo de pandemia. E ao mesmo tempo queremos recordar a todos que não se devolve o dízimo quem não tem experiência de fé marcante na vida da comunidade. Queremos deixar claro inicialmente que se compreendermos o dízimo como uma ação de responsabilidade diante do acreditar verdadeiramente na obra continuada de Deus na terra, então o gesto da devolução é verdadeiro. Do contrário pode ser qualquer outra coisa menos devolução do dízimo. Por isso que o dízimo não pode ser outra situação que não seja uma atitude concreta de quem fez uma experiência de fé.


Não vamos entrar no mérito das dimensões do dízimo: Religiosa, Missionária, eclesial e caridade porque já possui muito material para isso, o que aconselho procurar na internet sobre as dimensões do dízimo ou sobre os fundamentos do dízimo para um aprofundamento da compreensão. A CNBB tem um documento de número 106, que apresenta as propostas de como trabalhar e viver o dízimo nas paróquias. O que é recomendável o estudo por todos nós batizados cristãos. O que importa é que compreendamos melhor e profundamente o dízimo em sua ação de comunhão com a comunidade paroquial por meio da qual também manifestamos a nossa comunhão com o corpo místico de Jesus Cristo que é a cabeça de toda a Igreja.


A Sagrada Escritura é o fundamento do que podemos dizer sobre o dízimo. O que nos ajuda a não cair nos estremos e exageradas cobranças. Ao procurar os fundamentos bíblicos compreendemos que a ação do dízimo não é uma cobrança dos líderes religiosos, mas também não é algo livre da consciência de quem apresenta. O dízimo é uma atitude de quem faz a experiência de fé e reconhece que em Deus encontra todos os frutos de sua vida e nos faz ser participantes da graça e do mistério salvífico em Jesus Cristo.


O dízimo é fruto de quem é convertido e que pela conversão reconhece a sua comunhão como batizado na obra redentora de Deus. Por isso, deixar de devolver o dízimo significa não estar em comunhão, ou seja, não devolver o dízimo é incorrer no pecado e precisa de conversão e confissão. Neste caso o dízimo é fruto de reconciliação com a obra de salvação e de comunhão com o que é implicado ao dízimo, isto é, as dimensões: Religiosa, missionária, eclesial e caridade. Portanto podemos ainda dizer que o dízimo é o fruto da responsabilidade que a experiência de fé nos exige.


Percebe-se que a experiência de fé e diferente de uma experiência religiosa. Pois existe muitas pessoas que tem uma bonita vivência religiosa na vida da comunidade, até com muito entusiasmo no início e quer ajudar em tudo, estas pessoas estão em todas as pastorais. Porém não suporta um desafio ou uma exigência de aprofundamento, porque não se encontra preparada para entender, como os discípulos antes da Ressurreição de Jesus Cristo. Os que fazem só uma experiência religiosa precisa avançar para uma experiência de fé. Pois sem esta experiência nossas raízes são superficiais e facilmente somos mudados de um lado para o outro, portanto, não pertencemos a lugar nenhum. É a experiência verdadeira de Deus e da fé que nos faz ser maduros, consistentes e profundos com sentimento de pertença intransferível. Assim podemos dizer que aqueles que fazem a experiência de fé devolve com alegria o seu dízimo porque tem consciência que faz parte de sua vida este gesto. Mas os que só tem uma experiência religiosa, sem profundidade, paga o dízimo e, muitas vezes, sem compromisso e reclamando da atuação da paróquia.

O tempo da pandemia laça sobre toda a Igreja muitos desafios. Nos fez e faz repensar os meios de evangelização e os procedimentos a ser direcionados. Diante do dízimo não temos diferença de preocupação e nos obriga a repensar os métodos, o como e os meios. A dificuldade maior está sendo por não poder acomodar todas as pessoas na igreja. Pois o acolhimento sempre foi motor de animação do dízimo. O desafio então é continuar levando uma experiência religiosa que possa conduzir plenamente a uma experiência de fé consistente e madura capaz de conferir pertença a uma comunidade corpo místico de Jesus Cristo.


A pandemia trouxe várias consequências para a vida do povo, sobretudo, o agravamento da crise econômica junto com a crise da saúde e social. Estas crises sempre atingiu os métodos de devolução do dízimo. Porém, como foi apresentado acima, o dízimo é uma experiência de fé. Como isso, não é a quantidade da devolução, mas o gesto de devolver como uma ação de agradecimento. A consciência é o que nos conduz pela honestidade na presença de Deus. O Evangelista Lucas nos recorda “Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também será injusto nas grandes” (Lc. 16, 10). Aqui recordamos que a Igreja católica não foi exigente em valores de devolução, nem mesmo aplica o termo bíblico dos 10%. Porque sempre acreditou na liberdade e da consciência de cada fiel. Então não vai ser neste tempo de pandemia que ira se preocupar. O nos preocupamos sempre é dar uma clareza de que pelo dízimo demonstramos nossa comunhão e pertença a comunidade paroquia. Somos parte de uma única família que ajuda no seu sustento de todos.


A ação do dízimo no tempo da pandemia reforça o que compreendemos nas dimensões: religiosa que é a minha comunhão com Deus, seguindo, com fidelidade os ensinamentos de Jesus Cristo; eclesial que é aminha pertença, pelo batismo, a família de Deus, somos igreja; caritativa que é a partilha dos dons e dos bens, inclusive no auxílio dos necessitados; e a missionária que é a participação de todo cristão na ação evangelizadora da igreja. Confirmamos que a evangelização é dever de todo cristão e a contribuição do dízimo ajuda a igreja a realizar a sua missão. Estas dimensões ficaram evidenciadas neste tempo de pandemia porque a Igreja não é de pedra, vimos que a Igreja é humana e que por isso cuida de pessoas. Nesta pandemia percebemos que a Igreja se apresentou verdadeiramente como a mãe que cuida porque ama e age com misericórdia.


Por fim, destacamos ainda que o dízimo é a força da evangelização ou do projeto de Evangelização de todas as paróquias e comunidades. Embora a Igreja seja compreendida como uma empresa ela não é. É uma estrutura que se mantém com os frutos ou produtos dos fiéis físicos ou jurídicos. Estes frutos é o motor para toda a ação de Evangelização da Igreja. Pois tudo que tem na Igreja é para a evangelização desde a estrutura e sua manutenção como todas as ações pastorais. Tudo é para a evangelização. Todo o dízimo devolvido é para manter a obra do anúncio de Jesus Cristo, no cumprimento do seu mandato imperativo “Ide pelo mundo inteiro...”


Os padre e agentes de pastoral estão se desdobrando para inovar na evangelização e manter as pessoas na experiência religiosa e conduzi-las para uma experiência de fé em Deus e em sua obra. Com isso a reflexão sobre o dízimo é uma responsabilidade de todos os agentes de pastoral e uma reflexão permanente. Pois todos os esforços é para manter as pessoas na experiência de fé. Assim o grande convite, neste tempo de pandemia, é para que acreditemos que o gesto de devolução do dízimo é sagrado e santificador, de si mesmo e de outros tantos que ainda não creem. Queremos estar de braços abertos para acolher a todos e acreditar no potencial de cada um no amor e na doação com alegria como gesto de fé, como nos pede o próprio Jesus Cristo. A palavra que conduz é “no mundo tereis muitas aflições, mas coragem eu venci o mundo” (Jo 16,33) .



Pe. Vanderlei Izaumi da Silva

Reitor do Seminário Arquidiocesano de Uberaba

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