Do Cruzeiro à Capela, da Capela ao Santuário, do Santuário à Basílica

Atualizado: Ago 9

OS PASSOS DE UMA HISTÓRIA DE FÉ E DEVOÇÃO


- Centenário de criação da Paróquia Nossa Senhora D’Abadia -

1921-2021


Após a missa dominical de um dos últimos domingos do mês de maio de 1881, celebrada na Igreja Matriz pelo Cônego Carlos José dos Santos, Vigário da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba, Minas Gerais, o Capitão Eduardo José de Alvarenga Formiga, que a ouvira, de regresso a sua casa, ao passar pela porta do Major Ananias Ferreira de Andrade, deteve o passo e disse àquele Major, que tinha ao lado sua esposa: “Compadre Ananias, nós precisamos ter também nossa igreja neste alto. Há tempo imaginei por ombros à construção de uma capelinha dedicada a Nossa Senhora D’Abadia no Alto da Misericórdia. Antes desejo saber se vocês concordam comigo. “Magnífica ideia; mãos à obra”, responderam ambos, ao mesmo tempo, e o Major Ananias, satisfeito concluiu: “contem comigo para isto”. A seguir, o Capitão Formiga, se fazendo, daí por diante, provedor das obras da Capela, conseguiu que a Câmara Municipal se reunisse em sessão extraordinária, no dia 04 de junho daquele ano, para tomar conhecimento de seu pedido de licença para construir a referida capela.





Aos 11 de agosto, a Câmara, em ordem do dia da respectiva sessão, por “parecer da comissão fiscal, concede a Eduardo José de Alvarenga Formiga, como procurador das obras da capela de Nossa Senhora D’Abadia de Uberaba, licença para construir a mesma no Alto da Misericórdia, num terreno devoluto de 500 palmos de frente por 600 de fundo e mais 100 contíguos para uma casa que sirva de depósito de materiais, devendo se proceder a demarcação com a assistência do fiscal e armadores”.

Na manhã seguinte, o Sr. Capitão Formiga, o Major Ananias Ferreira de Andrade e outras pessoas, com os encarregados da Câmara, marcaram o terreno concedido ao primeiro, para o objetivo em vista. Quatro dias depois – precisamente a 15 de agosto, consagrado a Nossa Senhora D’Abadia – o Cônego Santos celebrou a primeira missa no local da futura capela, benzendo, então, o Cruzeiro que aí se levantou, por voto feito pelos senhores João Raimundo, João Bernardes, Francisco Ferreira de Oliveira e José Francisco de Oliveira. Estiveram presentes no ato os Padres Francisco e Mariano Inácio de Souza. As obras iniciaram-se na semana imediata à do requerimento do Capitão Formiga.


No ano seguinte, no dia 15 de agosto, realizava-se a primeira festa em honra a Nossa Senhora D’Abadia, cuja imagem fora benta às 4 horas da tarde de domingo, 9 de abril, na capela de Nossa Senhora das Dores da Santa Casa de Misericórdia de onde, em procissão, foi conduzida à Igreja Matriz, aí ficando depositada até agosto próximo, quando a nova capela estaria já em condição de prestar-se, como se prestou, à realização da primeira festa em homenagem à Padroeira.

Antes mesmo que a imagem de Nossa Senhora D’Abadia chegasse a sua capela, longe já corria a notícia de um fato singular atribuído à milagrosa intervenção da Virgem Maria. A nova capela, edificando-se numa das colinas mais elevadas, foi surpreendida pela falta d’água da cidade, colocando em foco a necessidade de se prover o local do indispensável líquido. E como consegui-lo, naquele alto onde tudo indicava um extenso trato de terra sangrada? Não foi, por isso, pequeno o receio do Capitão Formiga, mandando abrir, a menos de 10 palmos, ao lado esquerdo do Cruzeiro, em frente à futura Capela uma cisterna de boca larga. Ao se aprofundar pouco, começou a jorrar água em quantidade tal, que dava até para tocar monjolo. Foi necessário, para não se esparramarem as águas pelos lados do poço, que se fizesse uma vala do lado de baixo, por onde as mesmas se encaminharam. A notícia desta singular ocorrência, circulando célere por todas as partes, trazia, de remotas regiões, numerosas pessoas, de todas as classes sociais, que vinham para colher daquela água, cujas virtudes medicinais se atribuíram a um milagre operado por Nossa Senhora.

A fama da “água milagrosa” passou a ser o assunto de toda gente e a prova da asserção está em um documento, firmado em 24 de fevereiro de 1882 pelo Dr. Manoel Clemente Pereira, publicado na “Gazeta de Uberaba” com o título: “Cura de reumatismo”. Mas se uns usavam as águas com respeito, outros abusavam com desrespeito, pois um indivíduo, atacado de moléstia venérea, foi, certa alta madrugada, tomar banho dentro daquela cisterna. E, coisa singular, a partir daquele dia as águas secaram completamente. O poço lá ficou, por muito tempo ainda, com a boca escancarada, sem um pingo de água sendo, depois de certo tempo, entupido com terra. O estranho fato repercutiu longe, atraindo a Uberaba, naquele ano, por ocasião da festa celebrada em honra da gloriosa Virgem, extraordinária peregrinação de fiéis, em número superior a três vezes a população da cidade que então contava com cerca de quatro mil pessoas.


O Sr. Capitão Domingos continuou zelando pelo Santuário Nossa Senhora D’Abadia enquanto o número de romeiros ia aumentando sempre mais e, com os devotos, também aumentavam as ofertas e os donativos. Ele chamava ora este, ora aquele sacerdote para o serviço religioso, mas da administração do Santuário não queria dar contas a ninguém. Por isso, depois de vários convites e ameaças, o Bispo, por meio do Vigário, lançava o interdito sobre a Igreja de Nossa Senhora D’Abadia. O Sr. Formiga, tendo levado para sua casa a imagem da Virgem Maria, continuava as novenas e procissões dos devotos. Então, tratou-se de liquidar o caso em forma judicial e o tribunal, no dia 20 de novembro de 1898, deu sentença favorável à Cúria com a intimação do Sr. Formiga de entregar tudo ao bispo. Este, consternado também pelos desastres acontecidos em família, como a morte de filhos e da mulher, acabou por entregar nas mãos do Revmo. Vigário as chaves do Santuário.

Em 1889, a igreja foi entregue aos Padres Agostinianos Recoletos, vindos das Filipinas. Estes trabalharam para a construção de uma igreja maior e, atrás, levantaram uma pequena casa para moradia. Em 1915, foram retirados, pelos Superiores da Ordem, de Uberaba e da Diocese, e a igreja passou a ter como Capelão o Cônego Cesar Borges que construiu, perto da casa dos Agostinianos, outra maior e mais conveniente para si e para a família. Com provisão de 14 de agosto de 1921, o mesmo foi nomeado pároco da Freguesia de Nossa Senhora D’Abadia, desmembrada da Paróquia de São Sebastião e Santo Antônio, com Decreto de Dom Eduardo Duarte e Silva, bispo de Uberaba, no dia 16 de julho de 1921, dia de Nossa Senhora do Carmo.

O Cônego Cesar Borges foi transferido para Araguari, Minas Gerais, em 1º de julho de 1928, sucedendo-lhe o Padre Henrique Isquierdo Oliver. No dia 15 de dezembro de 1929, volta o Cônego Cesar Borges que, depois de ter trabalhado com muita dedicação ao lado dos fiéis, morre no dia 3 de janeiro de 1933.


Após uma breve interrupção, na qual vários sacerdotes e especialmente o Cônego Joaquim Thiago vinham celebrar missas e exercer outras funções paroquiais, no dia 2 de julho de 1933 voltou o bom e amável Padre Henrique Oliver, que exerceu a função de pároco até o dia 24 de março de 1935.

O Exmo. Sr. Bispo Dom Frei Luiz Maria de Sant’Ana, desejando colocar sobre o Alto da Abadia um Instituto Religioso para melhor assistência da Paróquia e o bem da cidade, convidou os padres dos sagrados estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais, aceitando o convite, vieram para Uberaba. O Senhor Bispo confiou a Paróquia pleno jure à Congregação dos mesmos e, no dia 24 de março de 1935, pessoalmente, dava a posse da Paróquia e do Santuário aos Padres Albino Sella e João Consolaro, missionários estigmatinos que ficaram, o primeiro com a provisão e o cargo de vigário e o segundo com aquela de coadjutor.

A partir daí, com o crescente aumento da população, foram elaborados projetos para melhoria da construção e acolhida dos fiéis e romeiros. Verificadas muitas falhas nas estruturas e até nos alicerces, a antiga igreja foi totalmente demolida e passou-se à construção do atual modelo, romano cisterciense, a partir de 1937. Padre Ângelo Pozzani, missionário estigmatino, foi o grande batalhador, com a contribuição do perito em construções, Padre José Tondin, também estigmatino, da edificação do atual Santuário Basílica, em forma de cruz e com três naves.

Desde 1921, durante cem anos, o povo de Deus, homens e mulheres de boa vontade, ao lado de bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas continuaram colaborando com a construção, seja das paredes que compõem o belíssimo conjunto arquitetônico do Santuário Basílica, seja da Comunidade de Fé, cuja vida se expressa através da incansável atuação de diversas pastorais, grupos e movimentos. No dia 14 de abril de 1987, a Paróquia Nossa Senhora D’Abadia era transformada em Santuário Arquidiocesano pelo saudoso Dom Benedito de Ulhoa Vieira, Arcebispo Metropolitano de Uberaba. No dia 15 de agosto de 2008, conforme o decreto municipal número 10.196, Nossa Senhora D’Abadia foi instituída Padroeira Oficial da cidade de Uberaba. E no dia 27 de janeiro de 2020, o Santuário recebia da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos o Decreto de concessão do título de Basílica Menor, com missa de instalação no dia 16 de julho de 2021, presidida pelo Arcebispo Dom Paulo Mendes Peixoto.



Padre Alexsandro Ribeiro Nunes, CSS

Reitor do Santuário Basílica Nossa Senhora D’Abadia



DE PORTUGAL À BAHIA, DA BAHIA A GOIÁS, DE GOIÁS AO TRIÂNGULO MINEIRO:

140 ANOS DE DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA D’ABADIA EM UBERABA





Desde tempos antigos, no território de Algarve, Portugal, em um pequeno vilarejo, onde existia uma abadia de monges solitários, era venerada com muito fervor uma imagem de Nossa Senhora. O povo a intitulara Nossa Senhora da Abadia.

Pouco depois da metade do século XVIII, um cidadão português que viera para o Brasil, como acontecia com muitos outros, se dedicara à busca de minas de ouro, penetrando até o coração de Goiás, um dos Estados mais centrais e ricos em metais preciosos.

Fixou sua moradia próxima a um local intitulado São Tomé do Muquém. As areias de um pequeno riacho, dali vizinho, não lhe foram avaras e logo começou a enriquecer. Naqueles tempos, quem encontrasse locais ricos em ouro, devia comunicar ao governo português que, imediatamente, lançava taxas muito pesadas. O velho português foi logo denunciado por não haver comunicado ao juiz a existência de terras auríferas em sua propriedade. O pobre homem veio a saber, um dia, que uma comissão do governo estaria se deslocando para surpreender o clandestino catador de ouro.

Conhecedor dos costumes da época e o rigor das leis, julgou-se perdido e já se preparava para a morte. Naquele momento de desespero, recordou-se da Nossa Senhora venerada na igreja abacial de sua terra que não deixava de atender a ninguém que a ela recorresse com fé. Rezou e cheio de confiança prometeu construir, na pequena igreja de São Tomé do Muquém, um altar onde colocaria uma imagem, cópia daquela de Nossa Senhora da Abadia de sua cidadezinha, se conseguisse escapar das malhas da justiça.

Poucas horas depois, via chegar uma comitiva de homens a cavalo que apearam diante de sua casa. Intimado imediatamente a indicar o local onde, contrariando às leis, extraía ouro, ele os levou ao lugar de seu trabalho. Examinaram bem o riacho, as pedras, as areias, mas não encontraram mais que simples indícios, nenhuma prova suficiente para condená-lo. Após tal exame, a comissão foi-se embora, e o português pôde permanecer em paz. Ele não se ocupou mais de exploração. Livre do processo e das terríveis penas ameaçadas, cumprindo o prometido, encomendou de Portugal uma imagem de Nossa Senhora D’Abadia, enquanto se preparava um belo altar que devia acolhê-la, na igreja de São Tomé.

Iniciaram-se, então, as peregrinações de todas as partes de Goiás e das regiões próximas, superando as dificuldades das enormes distâncias e da escassez de meios de transporte. Por ocasião da festa anual (15 de agosto), milhares e milhares de carros, puxados por 4, 6, 8 juntas de bois, transportavam inteiras famílias, com utensílios, chegando a Muquém, após semanas de viagem. Ali, a céu aberto, armavam barracas, faziam cabanas com folhas de coqueiros e permaneciam dias para cumprirem as promessas feitas a Nossa Senhora D’Abadia. Para muitos, era a única vez ao ano que viam um sacerdote e participavam da Santa Missa. Não eram raros os casos em que, após cumprirem as promessas, doavam tudo ao Santuário: carro, bois, utensílios e voltavam a pé, levando consigo só um saco, com alguma roupa.

Pela metade do século XIX, os peregrinos de Minas e particularmente do assim chamado Triângulo Mineiro, para cumprir seus deveres devocionais com menor incômodo, julgaram por bem honrar a imagem milagrosa construindo igrejas a ela dedicadas em várias cidades, como: Água Suja-Romaria, Dourados, Sacramento, Uberaba, Uberlândia, entre outras.

O Santuário Basílica Nossa Senhora D’Abadia de Uberaba, há 86 anos conduzido pelos Missionários Estigmatinos da Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Província São José, recentemente foi transformado pelo Santo Padre, o Papa Francisco, em Basílica Menor, mantendo viva e cada vez maior e mais profunda a devoção à Mãe do Salvador. A festa, celebrada no dia 15 de agosto, Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, confirma na história até o presente a grande devoção do povo a Nossa Senhora D’Abadia, iniciada no século XIX. Homens e mulheres de fé sobem anualmente o Alto da Misericórdia para agradecer as graças alcançadas e suplicar por seus pedidos e preces pela intercessão da Virgem Maria.



Padre Alexsandro Ribeiro Nunes, CSS

Reitor do Santuário Basílica Nossa Senhora D’Abadia

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