Dom Benedito: 1985

Sim, inicio este “text-emunho” com um título um pouco a modo de pescador! Lançar uma data assim, após o nome de alguém que deixou tantas marcas na Igreja de Uberaba, é uma tentativa mais ou menos esperta para motivar leitores que não tiveram a ventura de conhecê-lo. Tomara lograr êxito neste expediente! E se fosse para dispensar a quem não possa despender alguns minutos para ler os parágrafos que seguem, resumo numa palavra o que será dito a seguir: Gratidão! E a confissão de que não é fácil pinçar entre tantos traços da memória o que seja a “marca das marcas”...


Em 07 de dezembro de 1985 eu já tinha pelo menos sete anos de convivência com “nosso pai”, o dinâmico bispo que chegara com a pressa dos homens vindos da agitadíssima metrópole paulista. Tanto ele fizera nesta (e por esta) Igreja mineira e, para mim, como para outros acolhidos no Seminário São José, um de seus selos indeléveis foi o sincero, terno e equilibrado senso de paternidade espiritual. Naquela inesquecível data, junto a três jovens que estariam recebendo a ordem do presbiterato, recebi de suas mãos o diaconato. Mas, recebi algo bem palpável, bem visível: um envelope com uma determinada quantia e um cartão, por ele assinado, com esses dizeres que me acompanham vida afora: “Para o Washington adquirir a Liturgia das Horas, o livro de sua vida íntima com Deus”.


Para contextualizar um pouco – além de evidenciar, pela narração de histórias, que há um momento em que se busca com avidez pelo que ficou In illo tempore, chamo atenção para o fato de que os momentos orantes feitos no quotidiano do Seminário eram realizados no livreto “Oração do Tempo Presente”. Livro mais abreviado, já continha os momentos de oração “da Manhã, do Meio Dia e da Tarde”. Com ele, nós tínhamos uma iniciação à oração bíblica mais constante, sobretudo a oração cantada dos Salmos. Com imensa ternura recordo-me das vezes em que éramos chamados a participar da missa no “Palácio Episcopal”, ocasião em que rezávamos com ele a “Liturgia das Horas”. Pois bem, qual a “novidade” contida no honroso presente recebido do bispo que me fizera clérigo, para além da generosidade de propiciar a aquisição de um “tijolão” de quase duas mil páginas? (Era assim a que carinhosamente nos referíamos ao Livro do Ofício Divino, depois editado em quatro volumes!) Poderia alguém responder a esta questão dizendo que, sem dúvida, o bispo estava viabilizando a que de uma maneira bem concreta o neo-ordenado, ingressante pelo diaconato na vida clerical, pudesse cumprir com o dever canônico de, em nome da Igreja, “santificar o Tempo”. Não só, porém! Eis a razão última desta página, pela qual quero assinalar um traço profundo na vida e na missão episcopal de Dom Benedito: para ele as leis da Igreja, como todas as orientações que dela emanam, são expressão de sua missão de ensinar e santificar, e possuem a especialíssima Graça de fazer de nós participantes da vida divina. Hoje se procura resgatar e tornar prática frequente a oração da “Liturgia das Horas” por todos os membros da Igreja, clérigos, religiosos e leigos. Com razão ainda maior se deve afirmar isto a respeito de quem cumpre esta norma ex officio.

Cada vez mais, tantos anos após este dia marcante, sinto claro como o sol do meio-dia que o amor que hoje tenho pela oração e canto dos Salmos e, particularmente, no gosto por rezar ao menos as principais “Horas do Dia”, vem do testemunho recebido do “meu” bispo. Que da eternidade feliz, no louvor que se ergue aos Céus no Dia que não tem ocaso, Dom Benedito interceda por todos nós, para que nosso canto e nossa vida sejam perfume de agradável odor! Washington Abadio da Silva

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