Dom Benedito: o bispo da ternura e do afeto


Lembro-me bem, foi numa manhã ensolarada de sexta-feira da paixão, era o ano de 1994, quando pela primeira vez estive diante de Dom Benedito e pude experimentar o seu terno e afetuoso acolhimento.

Faziam alguns meses que eu havia deixado o Seminário do Rio de Janeiro e por meio de alguns padres amigos cheguei até o então Arcebispo de Uberaba. Sua modesta residência ficava no bairro Abadia. Para a minha surpresa ele mesmo abriu a porta e com um sorriso me abriu os braços e disse: “Filho, eu estava a sua espera e enquanto aguardava rezava por nossa conversa.” Me abraçou e me beijou como um pai que acolhe o filho.


Eu estava muito confuso, os Bispos com quem convivi eram distantes. Nunca imaginei receber um beijo de um Bispo, afinal, somos nós que beijamos as suas mãos, ou melhor, o seu anel!

Primeiro me levou a Capela e em silêncio rezamos. Com uma Ave Maria concluímos a oração e seguimos para o seu escritório. Pediu-me primeiro que eu falasse de minha família e da minha vocação. Por várias vezes me interrompeu e me contou as histórias de sua vocação. Ele falava de forma vibrante e emocionada sobre a sua história. Me pedia detalhes sobre a minha vida no Seminário do Rio e queria entender bem os motivos pelo qual eu havia deixado o Seminário.

Ao final ele me disse: “Quero te ver domingo a noite, na Missa de Páscoa, na Catedral, lá estarão todos os seminaristas. Após a Missa voltamos a conversar”. Quando eu já estava para deixar a sua casa, ele me segurou as mãos e olhando fundo nos meus olhos me disse o que nunca esquecerei: “Eu vi sinceridade nas tuas palavras e creio na sua vocação. Nosso Senhor te chamou, a mim só cabe te ajudar a concretizar um sonho que nem seu é, é de Deus!”

E assim se concretizou. Dom Benedito foi um verdadeiro pai que me ensinou a arte de ser bom, acolhedor e ter sempre um sorriso afetuoso para com todos. Com ele aprendi a pregar com poesia, ser firme nas minhas decisões e não temer os desafios. Quando por alguns desencontros eu tive que me afastar da Arquidiocese, mesmo não sendo ele mais o Arcebispo, me disse quando fui agradecer a acolhida e me despedir: “Filhão, não se esqueça, a cruz é parte do caminho dos escolhidos de Deus. Sê forte e a graça virá no tempo Dele”.

Era impressionante, a cada três meses chegava uma carta de Dom Benedito. Vinha sempre repleta da ternura do pastor e do afeto de um pai amoroso. Sempre enviava algum dinheiro para me ajudar.

Ele me ajudou muito a regressar à Arquidiocese de Uberaba. Quando o Conselho de Presbíteros me acolheu, fez questão que eu fosse almoçar em sua residência para comemorar. Foi ele quem colocou sobre o meu ombro a estola diaconal. Ele estava tão emocionado e feliz. Suas palavras coroaram aquela noite: “Eu nunca duvidei que você chegaria!”

Como se esquecer da prova de confissão! Ele me apresentou cada situação e exigia que eu tivesse firmeza em minhas respostas. No final da prova veio a grande lição: “Filho, é preciso ter firmeza na doutrina e no Direito para saber orientar, advertir e aconselhar, mas se o penitente não experimentar em você um coração misericordioso, de nada adiantará o conhecimento. Tenha compaixão dos pecadores!”

Desenvolvendo o tema: ”O Homem que desenhará no coração dos irmãos as realidades do céu”, Dom Benedito pregou para mim o retiro que me preparava para a Ordenação Presbiteral. Que dias maravilhosos passamos juntos! O seu jeito apaixonado de falar do ministério sacerdotal só confirmava no meu coração a certeza de que eu estava no caminho certo. Suas palavras faziam o meu coração arder, tal qual os discípulos de Emaús diante das palavras do Ressuscitado. Na verdade, o retiro foi concluído com a sua homilia na minha primeira Missa, celebrada em minha Paróquia de origem, no Rio de Janeiro!

Dom Benedito era a minha referência. As conquistas eram sempre celebradas com um almoço em sua residência. Ele gostava de saber dos detalhes! As lágrimas partilhávamos na sua Capela particular. Dom Benedito era um porto seguro pra quem experimentava de sua paternidade. Tinha sempre a palavra acertada para as horas incertas e o dom de devolver a esperança quando a cruz parecia ameaça-la. Tudo isso só era possível porque os seus gestos e palavras estavam sempre repletos de ternura e afeto que traduziam Deus à nós. À Dom Benedito a minha eterna gratidão!

Pe Márcio André Ferreira Soares

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