Doutrina Social da Igreja


A Doutrina Social é uma rica herança do pensamento social da Igreja. Essa herança tem início com a Revelação de Deus, já no Primeiro Testamento e encontra seu dinamismo no Segundo Testamento, com a pregação de Jesus Cristo, fonte de toda inspiração cristã. A atuação dos Santos Padres (os “Pais” da Igreja) fez desenvolver a semente do Evangelho. Vários pensadores do período da Escolástica contribuíram para o aprofundamento dessa herança. Tudo isso foi enriquecido por uma série de documentos que tratam da questão social, formulados pela Igreja Católica durante sua história, especialmente a partir do final do século XIX.

O divisor de águas dessa rica herança foi marcado pelo Papa Leão XIII, que inaugurou nova fase do pensamento social da Igreja, em 1891, com sua Carta Encíclica Rerum Novarum (Sobre as coisas novas). Os papas que se seguiram procuraram contribuir com novas reflexões, posicionando a Igreja diante de novos desafios, na perspectiva socioeconômico-política. O Concílio Vaticano II (1962-1965) abordou também a questão social, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a atuação da Igreja no mundo de hoje, intensificando o diálogo da Igreja com o mundo atual. A intenção do Concílio não foi mudar a doutrina da Igreja, mas apresentar essa rica doutrina ao coração do ser humano nos tempos modernos.


Os papas que vieram depois do Concílio continuaram a publicar documentos abordando a questão social. Paulo VI publicou a Populorum Progressio (1967) sobre o desenvolvimento dos povos, e a Octogesima Adveniens (1971) sobre as necessidades novas de um mundo em transformação, dentre outros. João Paulo II lançou uma trilogia: Laborem Exercens (1981), sobre a questão do trabalho humano; Sollicitudo Rei Socialis (1987), sobre a solicitude social da Igreja; Centesimus Annus (1991), no centenário da Rerum Novarum e queda do comunismo. O principal documento de Bento XVI, nessa linha, foi Caritas in Veritate (2009), sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Todos os documentos do Papa Francisco têm uma abordagem social, devido a sua alta sensibilidade latino-americana. Dele podemos destacar: Evangelii Gaudium (2013), sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual; Laudato Sì (2015), sobre o cuidado da casa comum; Fratelli Tutti (2020), sobre a fraternidade e a amizade social.

A Igreja da América Latina colaborou com o conjunto da Doutrina Social, através de importantes documentos que marcaram nossa história latino-americana: Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou importantes documentos, abordando questões sociais à luz dos princípios do Evangelho e do ensinamento da Igreja. Esses documentos vêm sinalizando sobre a urgência de se construir uma sociedade solidária, respeitando a dignidade da pessoa humana, com mais justiça, igualdade e partilha.


Nesses tantos documentos, a Doutrina Social da Igreja sistematizou princípios permanentes que se referem à realidade social em seu conjunto. Esses princípios são indicados como o primeiro e fundamental ponto de referência para a interpretação e o exame das questões sociais. Indicam critérios de discernimento e de orientação do agir social em todos os sentidos. Os principais princípios da Doutrina Social são: bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, participação e solidariedade. Existe uma profunda ligação entre esses vários princípios. Há também os valores fundamentais da vida social: a verdade, a liberdade, a justiça e a caridade.

Fundamentada nos valores éticos e evangélicos, servindo-se do instrumental das ciências sociais, a Igreja tem uma palavra profética para iluminar o cenário da história. Não basta só promover atividades assistenciais para prover as necessidades imediatas das pessoas. É preciso articular políticas públicas para transformar a realidade. A Igreja realiza essa ação por força do Evangelho, sem precisar acionar certas políticas mesquinhas e aquelas ideologias que contradizem a Palavra de Deus. O Papa Francisco nos faz enxergar que existe uma ação política mais nobre, que é a mais alta expressão da caridade. E essa ação nos é iluminada pelo Evangelho de Jesus Cristo, unindo fé e vida, desafios e esperanças para o povo de Deus a caminho do Reino definitivo.


Padre Geraldo Maia

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