Educação, pandemia, futuro...

Atualizado: Out 13


Vivemos um tempo em que as grandes narrativas sociais estão postas em discussão, num saudável conflito de interpretações marcado pela revolução comunicacional. A saber, mundos do trabalho, do mercado, da tecnologia, da política (e de políticas públicas), da ética, do direito, da família, das gerações. Neste cenário, com um olhar focado na educação, que impactos ela sofreu – por exemplo, na pressão por uma experiência de ensino totalmente remoto – e ainda poderá sofrer, tendo de, doravante, reinventar seus caminhos? O que há de realmente novo no campo da educação?

A educação não poderá continuar respondendo às necessidades de apenas um lado, a do mercado de trabalho, num perfil ainda marcadamente instrucional e adaptativo às circunstâncias, se é que a entendemos como um conjunto integrado de ações de sujeitos sociais e a escola como espaço colegiado que a pensa de modo horizontal.

Dentre todas as políticas sociais, não é de hoje que a educação convive com a necessidade de ser repensada, uma vez que traz um volume enorme de campos que a envolvem e a pressionam: o ensino, as tecnologias, as relações humanas, o espaço escolar e seu entorno, a sociedade como um todo, os valores, etc.

Se antes da pandemia uma parte significativa da escola se pautava no individualismo, na competência técnica, na exclusão e no desafeto, hoje torna-se necessário que ela inclua em seus currículos e programas, além dos conhecimentos técnicos, conteúdos que promovam a formação integral que agreguem conceitos fundamentais como: cidadania, ética, moral na relação escolar, familiar, social e na preservação consciente do meio ambiente.

Sendo assim, torna-se necessário repensar com seriedade e compromisso os modelos até então presentes em nossas práticas pedagógicas cotidianas, o sentido da própria rotina escolar, para a construção de um novo projeto de educação e de sociedade. A educação não poderá continuar respondendo às necessidades de apenas um lado, a do mercado de trabalho, mas agregar novos valores que torne a escola democrática e para todos.

Sendo assim, acredito que se torna fundamental uma discussão entre todos os envolvidos, de maneira direta ou indireta, para que os erros sejam superados e que a mesma se solidifique sobre dois pilares de formação: mercado de trabalho (como negá-lo?) e visão humana integral (como aprimorá-la?).

Para que a formação integral aconteça é imprescindível que se acrescente, na prática educativa, duas ações fundamentais: diálogo e escuta. Não estamos falando de qualquer diálogo, mas sim do que propaga a esperança e que acolhe, com compromisso, a dor do outro.

O duplo desafio para a educação hoje é, por um lado, fazer face à construção de uma cultura voltada para o diálogo do homem com a natureza, com os outros homens e com o transcendente e, por outro lado, a miséria de nosso tempo, fazer face ao horror, à violência, à barbárie e à brutalidade presentes no mundo atual. Ou seja, a tarefa árdua de construir em meio a destruição e partir dos destroços e do caos. (MENDONÇA, p.50, 2009.).


O que sustenta a educação integral é o diálogo que travamos com os diferentes, principalmente os excluídos da sociedade. Incluindo, é claro, novos valores, tais como: a valorização humana, princípios éticos, consciência crítica, tecnologia, ciência, conhecimento significativo, aprendizado horizontalizado entre professor e alunos, humanização do mercado de trabalho e, principalmente a solidariedade.

Falar em solidariedade em meio ao atual cenário nos leva a levantar uma bandeira de luta em prol da dor do outro, num gesto de profundo compromisso, trazendo para a realidade atual a verdadeira aliança de Jesus Cristo com os sofredores. Fazer da ação solidária o arcabouço da práxis cristã possibilita a quebra de uma caminhada solitária ausente à uma percepção mais radical para a própria dor, que o próprio Cristo manifestou no seu calvário: “Pai, afasta de mim esse cálice” (Lc 22:42).

A Campanha da Fraternidade de 2022, que traz como tema “Fala com sabedoria, e ensina com amor”, nos alerta sobre a importância de se investir numa relação educativa integral que eleve o homem na sua relação com o outro e com o meio ambiente, fundamentada por uma fé inabalável como Ele nos ensina em Coríntios (16:13): Estejam vigilantes, mantenham-se firmes na fé, sejam homens de coragem, sejam fortes.


Maria Rita Nascimento Pereira

Coordenadora da Pastoral da Educação

da Arquidiocese de Uberaba

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