“Eles saíram apressadamente e encontraram Maria, José e o recém-nascido deitado na manjedoura”



Está diante de nós o tempo em que experimentamos o grande mistério da encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o Natal do Deus imenso vestido de menino, uma grande contradição que até os dias de hoje é capaz de causar escândalo aos incrédulos e admiração aos crentes.

O nascimento de Jesus é um evento histórico e como tal está inserido em uma realidade, um lugar e um momento da história universal. Também nós vivenciamos o Natal de Jesus em um dado momento da história e, especialmente neste ano, não poderíamos fazer vistas grossas à grande angústia causada pela pandemia do novo coronavírus. Neste ano, experimentaremos o Natal em meio à crise, o que nos leva a perguntar: como era o mundo quando Jesus nasceu?

O Menino Deus nasceu em um mundo em que o Imperador era considerado uma divindade, recaíam sobre ele os títulos de Salvador e de Adorável. Sob seu domínio estavam muitos territórios, entre eles a Palestina, que lhe prestava oferta de seus tributos, mas preservava a prática de sua tradição religiosa. Esta, porém, estava deteriorada, fechada em legalismos e corrompida pelo poder. Assim também, muitos dos homens e mulheres cerravam seus corações e tornavam a fé tão seca quanto o chão que pisavam.


Esse deserto, contudo, se iluminaria por uma torrente do amor divino. Santo Tarásio chamava a Virgem Maria de “nuvem luminosa, que derramas a chuva celestial”, invocação que nos lembra a grande nuvem a caminho do Egito, predita por Isaías (cf 19,1) e consumada por Maria e José, já com Jesus nos braços, conforme nos narra o evangelista Mateus (cf. 2,13-15).

Também nós vivemos tempos difíceis. Uma simples analogia nos ajudaria a nos localizarmos diante de governos opressores que, a pretexto de manter a paz e a segurança, caçam Jesus para cortar-lhe a cabeça, ao mesmo tempo em que os corações dos homens caminham a passos largos para se tornarem desertos sem vida.

Assim como Jesus nasceu lá, também aqui Ele precisará nascer. Deus não cessa de se valer da história para consumar seus propósitos. Assim como aconteceu com o recenseamento de Herodes que levou Jesus e Maria até Belém, cumprindo-se a profecia de Miqueias (cf. 5,1-3), também as dificuldades de nosso tempo podem e devem transformar-se em ocasião para a graça de Deus se manifestar.

O próprio nascimento de Jesus representa a superação das coisas que parecem ser contrárias. Vemos, pelo mistério celebrado no Natal, a grandiosidade de Deus encerrar-se no pequeno corpo de um homem, frágil e renegado pelos seus (Jo 1,11). O Verbo divino se confina em um corpo, a Palavra se faz carne, e um recém-nascido, como nos ensina Padre Vieira, torna-se o maior pregador do mundo pelo simples fato de existir.



Em meio a tantas dificuldades, celebrar o Natal também deve significar para nós a superação das coisas passageiras, dando a elas sentido a partir das experiências colhidas em Deus. Compreenderemos, então, que a contemplação do Natal neste ano poderá não acontecer nas grandes festas, como estamos acostumados, tampouco nas grandes reuniões, nos inúmeros presentes e nas ceias fartas.

Assim como devem ter ficado surpresos os reis do Oriente que encontraram o Grande Rei deitado em uma simples manjedoura, também não devemos perder nossas expectativas para contemplar que o Menino Deus que nasce no Natal não depende de nenhum desses artifícios para se fazer presente, também neste ano. A experiência do Natal é, mais do que um acontecimento material, uma atitude espiritual que depende de nossa capacidade de contemplar o mistério onde ele realmente se dá, mas não onde esperávamos que acontecesse. Não na ceia farta em uma casa apinhada de pessoas, mas talvez no coração solitário de nossos irmãos distantes.

Um Natal em meio ao isolamento social imposto pela pandemia do COVID-19 deve despertar em nós a mesma urgência que o anúncio do anjo despertou nos pastores, que saíram apressadamente para ver Jesus (cf. Lc 2,15-16). Para que também nós descubramos sem demoras o caminho para nos encontrarmos com Deus onde ele realmente pode ser encontrado: na Eucaristia celebrada, mesmo com tantos percalços; na pequena família reunida ao redor da mesa; na saudade de nossos amigos e familiares; na caridade junto a nossos irmãos que sofrem.


A crise imposta por uma praga não pode privar nenhum de nós da experiência do Natal, porque esse poder não lhe foi conferido. Ainda que em muitos locais de nosso país Augustos tentem privar o povo de viver sua fé, o mistério do Natal é a revelação de que, mesmo em meio ao caos, Ele se faz presente. Ainda que a COVID-19 nos prive da sala (cf Lc 2, 6-7; Mt 8,20), contemplaremos o nascimento de Jesus colocando-nos com Ele no estábulo.

Corramos apressadamente ao encontro do Menino Deus, recostado na manjedoura e aprendamos com Ele a transformar o mal em ocasião de bem e o isolamento dos homens em comunhão com Deus.


Welder Castro

seminarista

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