Entre incêndios, fome e festas. A vida de Frei Gabriel de Frazzanò em Uberaba


Caro leitor: paz e bem!


Continuamos nossa caminhada conhecendo a vida do servo de Deus Frei Gabriel de Frazzanò, Frade Menor Capuchinho. Estamos no período em que exercia sua missão em Uberaba, a partir do ano de 1951, que indicam nossas fontes. No último artigo, refletimos sobre os trabalhos de Frei Gabriel e, neste novo encontro, vamos conhecer um pouco mais da vida e de seus feitos em Uberaba.

Em 1955, na ausência de Frei Felipe, que na época era o vigário da Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus e estava em um retiro na cidade de Belo Horizonte, Frei Gabriel organizou o tríduo e a festa de São Francisco de Assis. A missa foi celebrada pelo frade dominicano Frei Raimundo Cintra, mantendo um antigo costume entre os Franciscanos e Dominicanos de celebrarem juntos o Apostólico Pai São Domingos e o Seráfico Pai São Francisco. Também a Terceira Ordem Franciscana (atualmente conhecida como Ordem Franciscana Secular) foi convocada por Frei Gabriel para ajudar na realização do acontecimento. O humilde “Irmão de todo” tinha liderança e jeito suficientes para os desempenhos da pastoral e o auxílio do culto divino.


Também por interesse e zelo de Frei Gabriel, foi organizado um coral na Igreja de São Judas Tadeu. O sargento Miguel Braga dirigia a parte dos ensaios e por muito tempo as vozes se fizeram ouvir, abrilhantando assim as cerimônias litúrgicas e outras. Frei Gabriel empenhou-se em ensinar o povo a cantar. E conseguiu! Tanto que no Livro de Tombo da Paróquia (na página 51), Frei Felipe escreveu: “Aliás, cantar e com entusiasmo é uma característica daquela nossa capela, a de São Judas”.

Os pobres, contudo, nunca foram deixados de lado no coração do Capuchinho. Ele refletia o espírito da Igreja. Lembremo-nos das palavras do grande Bossuet: “Na Igreja, o primeiro lugar pertence aos pobres, porque são os principais membros de Jesus Cristo e os primogênitos da Igreja”. Frei Gabriel de Frazzanò foi assim; desempenhando várias atividades na comunidade, jamais se esquecia de se colocar a serviço dos pobres. Durante o ano todo visitava as famílias carentes no bairro e as acolhia na Igreja.

Havia, porém, algo especial para seus pobres naquilo que ele chamava “Natal dos pobres”. Ainda hoje muitos paroquianos se lembram daqueles dias em que o frade trabalhava e fazia trabalhar. É considerado, por isso, o precursor da Assistência Social “Santa Teresinha” (ASST).


Três meses antes do Natal, Frei Gabriel já começava a ação entre os grupos, as famílias e as casas comerciais. Ele subia com seu austero hábito capuchinho e calçado com suas humildes sandálias pela escadaria dos ricos a fim de pedir para seus pobres. No dia marcado para a distribuição, eis que ele estava presente, desde a madrugada, preparando e cuidando até dos menores detalhes. Tudo deveria ser arrumado com esmero e zelo, pois era a celebração com os pobres do nascimento de um Deus que se fez pobre.

No Natal de 1955, graças ao gênio caritativo de Frei Gabriel, foram distribuídas entre outras coisas 12 sacas de arroz, 3 sacas de feijão, 3 sacas de farinha e cerca de 125 quilos de macarrão. Fazia as sacolas de papel de jornal e entregava-as às famílias. Recolhia todas as doações e fazia, ele mesmo, as sindicâncias e só dava aos mais necessitados.

O poeta Célio Grünewald, de Juiz de Fora, escreveu uma trova que pode ser lembrada e associada à recordação do programa assistencial e pastoral de Frei Gabriel:


“Pensemos na eternidade

e ajudemos nosso irmão,

que fora da caridade

não existe salvação.”


Ao Frei Gabriel coube, inclusive, a organização, juntamente com outras pessoas, da festividade paroquial da celebração da Primeira Missa Solene do novo sacerdote Capuchinho, Frei Francisco Maria de Uberaba, (autor do livro: Frei Gabriel “o Irmão de todos”). A ordenação sacerdotal tinha sido em Belo Horizonte, no dia 8 de dezembro de 1956. A festividade em Uberaba, terra natal do sacerdote, ocorreu no dia 16 de dezembro de 1956. Era um dia chuvoso. E como a Igreja Matriz era pequena, então se resolveu celebrar a festividade na Igreja de São Judas.

Frei Gabriel preparou o templo, dos bancos ao altar, com flores e luzes. E não ficou nisso. Dirigiu-se à praça e ruas adjacentes, por onde passaria o séquito de convidados. Ornou as ruas com bambus e folhagens, saudações e alegria popular. A Banda Musical do 4º Batalhão de Polícia Militar esteve presente e, juntamente com os foguetes e vivas populares, abrilhantou o fato religioso. Durante a missa, que foi celebrada pelo sacerdote recém-ordenado e coadjuvado por seu primo, Padre Hélio Grande Pousa, Frei Gabriel esteve em constante oração de ação de graças, dada a grande amizade que ele tinha para com Frei Francisco de Uberaba. A convite, também de Frei Gabriel, esteve presente na missa o coro da Igreja Nossa Senhora da Abadia, sob orientação e regência de seu vigário Padre Ângelo Pozzani. A missa foi celebrada com grande solenidade e alegria.


Ainda em 1956, houve, pelas oito horas da noite, impetuosamente um terrível incêndio numa residência da Avenida Presidente Vargas. Naquele tempo não havia corpo de bombeiros na cidade. A notícia chegou logo aos ouvidos de Frei Gabriel na praça Santa Teresinha, perto do local do incêndio. Não esperou mais nada. Correu muito apressado para ajudar no que fosse preciso. Certa multidão estava lá, mas sem fazer nada de útil, pois o medo ao fogo era grande. Frei Gabriel não conseguiu assistir passivamente ao espetáculo medonho em fogo e destruição. Convocou alguns populares, entre eles os motoristas do ponto de táxi do Hotel Modelo, e foi à luta. Também Frei Odorico participou da ação salvadora.

A ação decisiva e corajosa de Frei Gabriel salvou da destruição muitos móveis da residência e demais objetos menores, mas escondidos já na fumaça que foi aumentando gradativamente. O irmão era visto entrando pela fumaceira negra e saindo, carregando ou arrastando peças da sala de visitas ou do quarto. Sua força física ajudava-o nessa empreitada. Além de ter salvado objetos e móveis, Frei Gabriel salvou o prédio da total destruição. Tinha chefiado um serviço de extinção do incêndio, buscando e atirando água a todo fôlego. A água era retirada da residência de Dona Ibrantina Pena, ali perto. No outro dia, o jornal diário uberabense Lavoura e Comércio publicou uma nota elogiosa à ação decisivamente salvadora do corajoso Irmão Capuchinho. Os moradores da casa incendiada foram depois agradecer. Frei Gabriel abrindo os braços, indicando que não era nada, saindo com seu andar pesado, não quis mais conversa... Missão cumprida!

Frei Gabriel ajudou a combater, também, outro incêndio, este na rua João Pinheiro, numa casa de móveis, chamada “Móveis Progresso”. Também, nessa ocorrência, ele conseguiu salvar diversas peças de madeira e até máquinas pesadas.

Frei Gabriel não dava ouvidos aos elogios. Ele simplesmente ajudava. Queria estar sempre presente a um acontecimento triste, sempre para ajudar. Bastava que se lhe comunicassem. Deixava tudo e ia estender a mão a alguém em apuros. E sua melhor recompensa ou elogio era o bem feito, e tão só.


Frei Gabriel sabia ter suas horas de lazer e para descansar. Fazer um passeio com ele era um privilégio maravilhoso, dado seu gênio aberto e simples, e ainda seu tipo italiano, ardente. Antônio Garcia Grande contou que ele, a esposa, Adelaide, fizeram uma vez um passeio com Frei Gabriel e Frei Felipe, o Vigário da Paróquia de Santa Teresinha. O passeio foi ao rio Araguari. Lugar muito repousante com bonitas paisagens a cinco quilômetros de Sacramento. Conheceu-se mais uma vez o espírito franciscano alegre de Frei Gabriel que, além de animar a todos com sua bondade, ainda deleitava a todos cantando músicas italianas, como “Santa Luzia”, e outras.

Ao pôr-do-sol, quando a irmã natureza se quedava em silêncio, era mais sublime a oração franciscana das criaturas. Nessa hora, todos rezavam o Santo Rosário, puxado pelo Capuchinho que sabia entreter a todos pelo canto e, mais ainda, edificar pela prece. Frei Felipe, usando da palavra, teceu o elogio de São Francisco, o amigo dos pássaros e da natureza e ainda o grande devoto de Nossa Senhora. Então, começaram a rezar o terço.

Com o terminar do dia, terminamos também nosso encontro. Ficamos por aqui, mas em breve retornamos trazendo um pouco mais da vida e missão de Frei Gabriel. Paz e bem!


Frei Vicente da S. Pereira, OFMCap.

Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap.



Obs. Pedimos às pessoas de Uberaba que, se tiverem lembrança de algum fato, alguma história, alguma foto de Frei Gabriel, entrem em contato conosco por e-mail: freigabriel@capuchinhosmg.org.br.

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