Esplendor da Luz Eterna

Candor Lucis Aeternae” (CLAe) é o título da Carta Apostólica do Papa Francisco, escrita por ocasião do VII centenário da morte de Dante Alighieri, o grande escritor que deu vigor à língua italiana, conhecido especialmente por sua obra prima “A Divina Comédia”.

Publicada no dia 25 de março do ano de 2021, a Carta Apostólica inicia com referência ao Verbo de Deus, que se encarnou no seio da Virgem Maria. Francisco sinaliza para a ocorrência providencial desses dois acontecimentos: um histórico-litúrgico – a encarnação do Verbo – e outro biográfico – a morte do escritor. Francisco apresenta Dante como “profeta de esperança e testemunha da sede de infinito presente no coração do homem”. E continua: “Melhor do que muitos outros, soube exprimir, com a beleza da poesia, a profundidade do mistério de Deus e do amor. Seu poema, expressão sublime do gênio humano, é fruto duma nova e profunda inspiração, de que o Poeta aliás tem consciência quando fala dele como ‘poema santo que consagro, / em que puseram mão o céu e a terra’ (Par. XXV, 1-2)”.


Na esteira de vários papas Francisco se refere ao autor da Divina Comédia. “Há um século, em 1921, por ocasião do VI centenário da morte do Poeta, Bento XV, recolhendo as ideias que surgiram nos pontificados anteriores, particularmente de Leão XIII e São Pio X, comemorou o aniversário de Dante, quer com uma Encíclica (In praeclara summorum, de 30.04.1921), quer promovendo obras de restauro em Ravena na igreja de São Pedro Maior, chamada popularmente de São Francisco, onde se celebrou o funeral de Alighieri, tendo sido sepultado na respetiva área tumular”. O Papa, vendo com apreço as numerosas iniciativas para aquelas comemorações, reivindicava o direito da Igreja, “que foi sua mãe”, de ser protagonista de tais comemorações.

Francisco recorda que São Paulo VI realizou gestos que sinalizaram a importância de Dante na vida da Igreja. Um deles foi o desejo do Papa de entregar uma cópia da edição artística da Divina Comédia a cada participante do Concílio Vaticano II, por ocasião de seu encerramento. São Paulo VI honrou o Poeta com a Carta Apostólica Altissimi cantus, na qual reiterava a forte ligação entre a Igreja e Dante Alighieri: “Se alguém quisesse perguntar por que motivo a Igreja Católica, por vontade de seu Chefe visível, tenha a peito cultivar a memória e celebrar a glória do poeta florentino, é fácil nossa resposta: porque, por um direito particular, Dante é nosso! Nosso, queremos dizer da fé católica, porque tudo nele respira amor a Cristo; nosso, porque muito amou a Igreja, cujas glórias ele cantou; e nosso, porque no Romano Pontífice reconheceu e venerou o Vigário de Cristo”, sem, porém, deixar de lançar sua voz profética diante de desmandos e desvios de ministros da Igreja de sua época.


Papa Francisco recorda que São João Paulo II se serviu de várias citações de Dante Alighieri em seus inúmeros pronunciamentos e documentos em geral, mas cita sua intervenção de 30 de maio de 1985, na inauguração da Exposição Dante, no Vaticano. O Papa polonês destacou a genialidade artística de Dante, cuja obra é interpretada como “uma realidade visualizada, que fala da vida do além-túmulo e do mistério de Deus com a força própria do pensamento teológico, transfigurado pelo esplendor da arte e da poesia, simultaneamente conjuntas”. Deteve-se em examinar um termo-chave da obra de Dante: “‘transumanar’, ultrapassar o humano. Foi este o esforço supremo de Dante: fazer que o peso do humano não destruísse o divino que existe em nós, nem a grandeza do divino anulasse o valor do humano. Por esta razão, o Poeta leu justamente a própria vicissitude pessoal e a da inteira humanidade em chave teológica”.

Em sua Carta Apostólica, o Papa Francisco recorda que Bento XVI falou frequentemente do itinerário de Dante, tirando de suas obras tópicos de reflexão e meditação. Um exemplo apresentado foi da primeira Encíclica do papa alemão – Deus caritas est –, na qual Bento XVI partiu precisamente da visão de Deus que tinha Dante e na qual “luz e amor são uma coisa só”. E assim se referiu sobre a novidade da obra de Dante: “O olhar de Dante vislumbra uma coisa totalmente nova (…). A Luz eterna apresenta-se em três círculos aos quais se dirige com estes versos densos que conhecemos: ‘Luz eterna que só tens sede em ti, / e a ti entendes, e por ti intelecta / e entendente, te amas, ris assi!’ (Par. XXXIII, 124-126). Na realidade, ainda mais impressionante que esta revelação de Deus como círculo trinitário de conhecimento e amor é a percepção dum rosto humano – o rosto de Jesus Cristo – que aparece a Dante no círculo central da Luz. (…) Este Deus tem um rosto humano e – podemos acrescentar – um coração humano”. Bento XVI destacou a originalidade da visão de Dante na qual se comunica poeticamente a novidade da experiência cristã, decorrente do mistério da Encarnação: “A novidade dum amor que impeliu Deus a assumir um rosto humano; mais, a assumir carne e sangue, o ser humano inteiro”.


Francisco recorda que, em sua primeira Encíclica (Lumen Fidei – 29.06.2013), em parceria com Bento XVI, fez referência a Dante para expressar a luz da fé, citando um verso do Paraíso onde é descrita como “a cintila / que se dilata em chama então vivaz, / e qual astro no céu, em mim rutila” (Par. XXIV, 145-147). Pelos 750 anos do nascimento do Poeta, Francisco quis honrar sua memória com uma mensagem, almejando que “a figura de Alighieri e sua obra sejam novamente compreendidas e valorizadas”; e propôs que se lesse a Divina Comédia como “um grande itinerário, aliás como uma verdadeira peregrinação, tanto pessoal e interior, como comunitária, eclesial, social e histórica”; com efeito, “ela representa o paradigma de cada viagem autêntica para a qual a humanidade está chamada a abandonar a terra que Dante define ‘a jeira que nos torna tão ferozes’ (Par. XXII, 151), para chegar a uma nova condição, marcada pela harmonia, a paz, a felicidade”. Francisco apresentou a figura do insigne Poeta a nossos contemporâneos, propondo-o como “profeta de esperança, anunciador da possibilidade de resgate, da libertação, da mudança profunda de cada homem e mulher, de toda a humanidade”.


Por fim, no dia 10 de outubro de 2020, ao receber a Delegação da Arquidiocese de Ravena-Cervia, por ocasião da abertura do Ano de Dante e anunciar este documento, Francisco sublinhou como a obra de Dante pode ainda hoje enriquecer a mente e o coração de muitos, sobretudo jovens, que, abeirando-se de sua poesia “numa forma acessível a eles, constatam, por um lado, inevitavelmente toda a distância do autor e e seu mundo; mas, por outro, captam uma ressonância surpreendente”.


Padre Geraldo Maia

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