Esplendor da Luz Eterna (II)

Continuamos a apresentar a Carta Apostólica do Papa Francisco, “Candor Lucis Aeternae”, o Esplendor da Luz Eterna. No artigo anterior, vimos como Francisco se insere numa longa tradição de abordagens do autor da Divina Comédia, feitas por seus antecessores. A seguir, o Papa aborda sete aspectos da vida e da obra principal do poeta florentino, finalizando com um apelo a se acolher o testemunho do poeta.

Francisco apresenta a vida de Dante Alighieri como paradigma da condição humana. Marcado pelas vicissitudes de seu tempo, ele vive entre exílios, partidas e acolhidas. “Dante, refletindo profundamente sobre a sua situação pessoal de exílio, incerteza radical, fragilidade, mobilidade contínua, transforma-a, sublimando-a, num paradigma da condição humana, que se apresenta como um caminho – mais interior que exterior – sem paragem alguma enquanto não atingir a meta. Deparamo-nos, assim, com dois temas fundamentais de toda a obra de Dante: o ponto de partida de todo o itinerário existencial, o desejo, presente no ânimo humano, e o ponto de chegada, a felicidade, dada pela visão do Amor que é Deus”.


O Papa fala de uma vocação e missão de Dante: “de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta de esperança”. O poeta faz desencadear “um caminho de libertação de todas as formas de miséria e degradação humanas (a ‘selva escura’) e simultaneamente aponta para a meta derradeira: a felicidade, entendida quer como plenitude de vida na história quer como bem-aventurança eterna em Deus”. Assim, Dante se torna mensageiro, profeta e testemunha. Mensageiro de Deus, profeta que denuncia os desvios dos filhos da Igreja e testemunha que anuncia a esperança. Dante se faz portador “duma nova existência, o profeta duma nova humanidade que anseia pela paz e a felicidade”.

A partir de uma análise antropológica de sua obra, Francisco afirma que “o Poeta faz-se intérprete do desejo que todo o ser humano tem de continuar o caminho enquanto não chegar ao destino final, não encontrar a verdade, a resposta aos porquês da existência, enquanto o coração – como já afirmava Santo Agostinho – não encontrar repouso e paz em Deus”. O itinerário de Dante é compreendido pelo Papa verdadeiramente como “o caminho do desejo, da necessidade profunda e interior de mudar a sua própria vida para poder alcançar a felicidade e, assim, mostrar a estrada a quem se encontra, como ele, numa ‘selva escura’ e perdeu ‘a direita via’”.

Francisco apresenta Alighieri como “o poeta da misericórdia de Deus e da liberdade humana”. Nesse sentido, Dante considera “a dignidade de todo o ser humano e a liberdade como condição fundamental tanto das opções de vida como da própria fé”. Tal “liberdade de quem acredita em Deus como Pai misericordioso não pode senão confiar-se a Ele na oração, não sendo por isso minimamente lesada, mas antes reforçada”. A partir dessa perspectiva, o Papa passa a abordar a imagem do homem na visão de Deus: “só na visão de Deus se aplaca o desejo do homem, e termina todo o seu fatigoso caminho”. As feições dos corpos no Paraíso, conforme descrição da Divina Comédia, resplandecem desejos e afetos. Daí se aprofunda uma belíssima antropologia teológica, baseada no mistério da Encarnação, aos moldes daquilo que os Padres da Igreja chamavam “divinização”, formulado com maestria teológica: “ao mesmo tempo que Deus entra na nossa história fazendo-Se carne, o ser humano, com a sua carne, pode entrar na realidade divina”.


Ao cantar o mistério da encarnação, o Papa nos lembra que Dante não pode se esquecer da figura de Maria: “com a sua aceitação plena e total do projeto de Deus, torna possível que o Verbo Se faça carne”. Nos lábios de São Bernardo, Alighieri dispõe um dos mais lindos poemas dedicados à “Virgem e mãe, que és filha de teu Filho”, verdadeiro tratado de Mariologia. Junto a Maria, a Mãe de Deus, figura da caridade, Francisco recorda outras duas figuras femininas que guiam Dante na sua Divina Comédia: Beatriz, símbolo de esperança e Santa Luzia, imagem da fé. Dentre as variadas figuras de santos e santas que permeiam o Paraíso, na “rosa dos bem-aventurados”, Francisco não pode deixar de destacar o “Pobrezinho de Assis”. Ressalta o Papa: “No canto de São Francisco, recordam-se os momentos salientes da sua vida, as suas provações e por fim o acontecimento no qual a sua configuração a Cristo, pobre e crucificado, encontra a sua extrema, divina confirmação na marca dos estigmas”.

No último tópico de sua Carta Apostólica Candor Luce Aeternae, o Papa nos faz um apelo a que possamos acolher o testemunho de Dante Alighieri. Hoje, o Poeta nos pede “sobretudo para ser escutado, ser de certo modo imitado, fazer-nos seus companheiros de viagem, porque quer-nos mostrar também hoje qual é o itinerário para a felicidade, a direita via para viver plenamente a nossa humanidade, superando as selvas escuras onde perdemos a orientação e a dignidade”. Francisco nos adverte que o humanismo de Dante “é ainda válido e atual e pode certamente constituir um ponto de referência para aquilo que queremos construir no nosso tempo”.



Com palavras marcantes, o Papa encerra a sua carta: “Neste momento histórico particular, marcado por muitas sombras, por situações que degradam a humanidade, por falta de confiança e de perspectivas para o futuro, a figura de Dante, profeta de esperança e testemunha do desejo humano de felicidade, pode ainda dar-nos palavras e exemplos que estimulam o nosso caminho. Pode ajudar-nos a avançar, com serenidade e coragem, na peregrinação da vida e da fé que todos somos chamados a realizar até o nosso coração encontrar a verdadeira paz e a verdadeira alegria, até chegarmos à meta última de toda a humanidade, ‘o amor que move o sol e as mais estrelas’ (Par. XXXIII, 145)”.


Pe. Gerado Maia

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