Fartura de alimento

A natureza é um dom de Deus, organizada dentro de uma perfeita harmonia e cada peça é fundamental para preservar o existir dos seres. Aí está o valor dos alimentos, porque são fontes de preservação da vida, tanto dos animais como dos seres humanos. Foi dentro das exigências desta dimensão que Jesus, diante da fome do povo que o acompanhava, fez a multiplicação de pães e de peixes.


Estima-se que a população mundial já chegou a sete bilhões e setecentos milhões. Há uma estimativa de que chegará a onze bilhões e duzentos milhões em 2100. É muita gente e não é pouco alimento que vai sustentar a todos. Mas a terra é generosa quando é bem trabalhada. Ainda há fartura de alimento no mundo. O que falta é o cuidado com a distribuição e o desperdício, que acontece.


O Brasil é privilegiado na produção de grãos e de inúmeros benefícios produzidos pela terra. Mesmo assim muita gente passa fome, porque não há uma equitativa destinação do que é produzido, principalmente pelo agronegócio. O que conta é o mercado externo, porque traz divisa, riqueza para os empresários bem sucedidos. Não existe uma visão humana privilegiando o consumo interno.


A atitude de Jesus foi de compaixão, de preocupação com o outro, com o humano e com quem não tinha condições para adquirir alimento. A responsabilidade de alimentar o povo é do próprio país, criando mecanismos para isto. Quando existe partilha, todos ficam saciados e os alimentos sobram. Na figura do maná, ninguém podia armazenar alimento para o dia seguinte, porque perdia (Ex 16,20).


Na imagem da multiplicação de poucos pães e de alguns peixes realizada por Jesus, com a finalidade de saciar a vida de muita gente, houve sobra porque foram capazes de praticar a partilha e de organizar o povo. Essa sobra foi recolhida para que fosse evitado o desperdiço e ser usada em outro momento. O mais importante é dar atenção ao problema da fome, causa de sofrimento e morte.


É Deus quem provê o alimento fazendo a terra produzir, contando para isto com o trabalho das pessoas. Isso significa que ninguém é privilegiado por ter o que comer e beber, mesmo conseguindo com seu trabalho, mas é sim um direito adquirido pelos indivíduos. Todas as pessoas nasceram para a vida e necessitam de alimento suficiente para sua sobrevivência e realização pessoal.


Dom Paulo Mendes Peixoto

Arcebispo de Uberaba

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