Festa de Nossa Senhora do Rosário: fé e resistência (parte 2)

Atualizado: Nov 11


De acordo com os pesquisadores Andréa Casa Nova Maia (UFRJ) e Vitor Leandro de Souza (PUC-Rio), a presença do Rosário na Congada é o fio condutor da prática social repleta de valores devocionais permanentes:

São vários os mistérios contidos na palavra festa e muitos deles perpassam pelas táticas de reelaboração de manifestações culturais como o Congado. Mistérios contidos não só no rosário dependurado nas mãos da imagem de Nossa Senhora do Rosário, preso na farda de um dançador ou nas mãos dos fiéis, em suas orações, ou como amuleto de proteção espiritual, símbolo da fé em Nossa Senhora. O rosário é o fio condutor que nos permite percorrer pelos diferentes momentos festivos, dialogando com os sujeitos e com a própria festa e levando-nos a compreender que esse momento festivo não parou. “Ô seu rei, dá licença pra rainha. Ela é a senhora do Rosário, ela é nossa rainha (Maia, A. C. N., & Souza, V. L. de. (2017).


A Congada, Congado ou Congos tornou-se uma festa de santos negros homenageando São Benedito e Santa Efigênia. Segundo Arthur Ramos, os escravos de procedência banto, principalmente os da Angola e os do Congo, foram mais receptivos porque já haviam tido contato com a devoção à Senhora do Rosário. Outra pesquisadora de referência, Julita Scarano (2001), diz que desde o século XIV eram numerosos os conventos da Ordem Dominicana em Portugal, e tanto eles como as associações por eles criadas contribuíram em muito para estimular a devoção ao Rosário no reino e no ultramar. Os negros, segundo MEGALE (1998), “usavam o rosário pendurado no pescoço e, ao final do dia, reuniam-se em torno de um ‘tirador de reza’ e ouvia-se nas senzalas o sussurrar das ave-marias e pai-nossos.” Padre Antônio Vieira, figura intelectual luso-americana do século XVII, escreveu trinta sermões sobre o Rosário. Dentre estes, Vieira relacionou a devoção ao rosário ao cativeiro dos negros pela escravidão. No sermão XVIII, elegeu como assunto a carta de alforria oferecida a eles pela Senhora do Rosário. O jesuíta dizia que, ao ver os negros tão devotos à Senhora, como filhos dela, concluiu ser sua carta de alforria não só promessa de liberdade eterna na outra vida, mas de os escravos se livrarem do maior cativeiro desta vida.


De acordo com o relato de Manoel dos Reis, a Irmandade do Rosário foi fundada em 1408 em Dusseldorf, na Alemanha; em 1420, foi para o reino de Portugal e, em 1493, chegou ao reino do Congo. No Brasil, ela chegou em 1552. "De Pernambuco, onde se instalou primeiro, desceu pela costa, chegou ao Rio de Janeiro em 1695 e, na capitania, se entranhou chegando ao povoamento de Cachoeira do Campo, em 1711. Daí espalhamos nossas tradições por São João del Rei, Sabará, Congonhas e, em 1715, nos instalamos no povoado do Ouro Preto" (LARA, 2002).

A dança dos congos foi trazida pelos escravos negros e usada pelos jesuítas para sublimar o instinto guerreiro do negro, criando uma luta irreal entre cristãos e pagãos. A festa congadeira, como é denominada, homenageia principalmente São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Elesbão. O festejo é enriquecido com rituais africanos, como a coroação de reis e rainhas, além do uso de instrumentos de percussão, acompanhados dos cantos e danças. Sabe-se que a coroação é apropriada pelo próprio negro que, por meio dela, recria, redimensiona formas ancestrais de organização social e ritual, invertendo os papéis sociais: o rei é negro. Nessas ocasiões, há cortejos pelas ruas da comunidade ou cidade, regadas de muita dança e música, levantamento de mastros, produção de estandartes, celebração de novenas, cortejos solenes, cumprimento de promessas e realização de leilões, bailes e confraternizações.

Em Uberaba, a devoção se manifesta com a Igreja do Rosário, erguida em meados do século XIX, em 1841 e benzida por Padre Zeferino Batista do Carmo, em1842. De acordo com os memorialistas, foi construída com a ajuda do trabalho escravo e, após sua edificação, a cidade ficou dividida em dois lados sociais e simbólicos: o Alto da Matriz e o Alto do Rosário, tendo o Córrego da Lage como referência (OLIVEIRA & DANTAS, 2012).

Segundo a pesquisadora Marília Brasileiro Teixeira Vale (1998), “No Sertão da Farinha Podre, ocupado pelo colonizador branco, efetivamente, a partir do início do século 19, foi mantido o catolicismo de caráter essencialmente leigo, herdado do século 18, em que a população assumia as iniciativas e as responsabilidades pela construção e manutenção dos espaços religiosos”. Nessa perspectiva, os diferentes grupos envolvidos nas atividades da Igreja do Rosário eram a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, a Irmandade dos Homens de Cor, os fiéis e, posteriormente, a Arquidiocese. As Irmandades atuavam também no custeamento de enterro de escravos abandonados, auxiliavam famílias necessitadas, amparavam velhos e doentes. Algumas tinham uma espécie de poupança para comprar a liberdade dos escravizados. As festividades de Nossa Senhora do Rosário aconteciam em dois momentos: primeiro, com a celebração eucarística e segundo, com as manifestações das congadas feitas fora do espaço da igreja. Consta nos arquivos a figura de José Ferreira da Rocha, negro liberto que foi Presidente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário por quase duas décadas, no final do século XIX, com muita liderança e desempenho como administrador.


No folhetim Cartas ao Compadre Basílio, encontra-se a preocupação dele com a Igreja de N.S. do Rosário: “[...] Demais se ella está hoje bela deve-se não só aos liberais, mas sim á constancia, á dedicação inexcedivel, ao zelo do preto liberto José Ferreira da Rocha, que é digno de grandes elogios por isso” (Gazeta de Uberaba, 28-02-1882).

Em 31 de outubro de 1881, os três primeiros dominicanos chegaram a Uberaba: Frei Lazaro Melizán, Frei Raimundo Madré e Frei Gabriel Mole. Instalaram-se numa casa doada pelo capuchinho Frei Paulino e assumiram a Igreja Santa Rita, que passou a ser a igreja conventual. Uberaba é a casa mãe que acolheu os frades dominicanos em terras brasileiras, a convite do bispo de Goiás, Dom Cláudio Ponce de León. Aqui começa a história da Ordem Dominicana no Brasil. Com o carisma dominicano, promoveram e valorizaram a cultura regional com a devoção a Nossa Senhora do Rosário, as Irmandades, os Congados e as Folias de Reis. Próxima à Igreja do Rosário, os frades construíram a Igreja de São Domingos, em 1904, com outras edificações que faziam parte da vizinhança, como o grupo de beneficência, a Associação Portuguesa de Beneficência 1° de dezembro (1907) e a escola pública de referência, o Grupo Escolar Brasil (1909) (OLIVEIRA & DANTAS, 2012).

Segundo os registros do Arquivo Púbico de Uberaba, em 1896 Dom Eduardo Duarte Silva chegou à cidade. Em maio de 1897, baixou um novo regulamento para a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. A Igreja do Rosário tornou-se filial da Catedral e a Irmandade passou a ser cada vez mais controlada pelo bispado, como o artigo 7º do Regulamento que determinava que nas festividades da Igreja as pessoas deveriam comparecer calçadas e decentemente trajadas. Em 15 de abril de 1900, dia principal da festa de N. S. do Rosário, Dom Eduardo proibiu a entrada na Igreja do Rosário do “prestito, composto de rei e rainha, pessoas gradas e também dos moçambiqueiros e congados que os acompanhavam”. Cantos, batuques e danças contrastavam radicalmente com a solenidade exigida nas celebrações religiosas.


Diante deste fato, em outubro do mesmo ano, outra festa de Nossa Senhora do Rosário foi organizada na Igreja de Santa Rita, com novenas, missa cantada, pregações, procissão acompanhada de banda de música. Foi conduzida pelo vigário geral do Bispado, Monsenhor Ignácio Xavier da Silva, no entanto, sem a presença de congadas e moçambiques. Em outubro de 1901, a festa aconteceu na Igreja do Rosário. “Na capela, os sermões produziram grande silêncio. Na procissão, a banda União Uberabense tocou desafinadamente seus instrumentos e os anjinhos e as virgens não conseguiram alegrar a procissão. A Santa chorou de saudade das danças e batuques dos pretos”. A partir desse ano, os frades dominicanos passaram a coordenar a festa. Em 1924, o prefeito de Uberaba, Leopoldino de Oliveira, solicitou a derrubada da Igreja do Rosário sem dar explicações da real necessidade. Nos anos seguintes até 1930, a festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário aconteceu nas Igrejas de Santa Rita e São Domingos. No local da Igreja do Rosário, foi construída uma avenida que, décadas depois, ganhou em seu centro um monumento a Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência à escravidão negra. Nesse contexto de fé, resistência e testemunho cristão junto à comunidade afrodescendente em Uberaba, ressaltamos a presença marcante de Frei Henrique Marques da Silva (1916- 1997), dominicano que sempre abriu as portas da Igreja São Domingos para as Congadas, Moçambiques e Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Aberto ao diálogo inter-religioso, anunciava o evangelho, denunciava as injustiças, atento aos apelos da realidade. Em tempos de distanciamento social, reinvenção das práticas sociais com novos olhares para o próximo, sejamos construtores de esperança em nossa sociedade, sob as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário!

Maria de Lourdes Leal dos Santos

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