Festa de Nossa Senhora do Rosário: Fé e resistência (parte 1)


“Nossa Senhora do Rosário, dai a todos os cristãos a graça de compreender a grandiosidade da devoção do Santo Rosário, no qual a recitação da Ave Maria se junta à profunda meditação dos santos mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus, vosso filho e nosso Redentor. São Domingos, apóstolo do Rosário, acompanhai-nos com Maria na recitação do terço, para que, por meio dessa devoção, cheguemo-nos ao mistério amoroso de Jesus, e Nossa

Senhora do Rosário nos leve a vitória em todas as lutas da vida. Por seu filho, Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém”.

Oração a Nossa Senhora do Rosário


A história é construída por sujeitos sociais que fazem parte de um lugar, de um espaço social com práticas cotidianas carregadas de sentidos, significados e bens culturais. A cultura está em todo lugar, nos afazeres, nos ritos, na vida latente, em cada momento histórico com sua multiplicidade, seus valores, conflitos, belezas e contradições. Para o teórico jesuíta Michel de Certeau (1994), a cultura está intimamente ligada ao relato, à palavra, à prática que está presa num lugar e tempo, repleta de virtudes. Nesse contexto, uma característica marcante: ouvir o outro. Pela escuta, é possível buscar a alteridade, dar voz ao não dito, tornar-se o outro quando se manifesta como pessoa que fala, numa relação dialógica. Em suas contribuições, Certeau (1974) afirma que “para que haja verdadeiramente cultura, não bastam práticas sociais, é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza.” O pensamento de Certeau se faz presente nesse momento em que refletimos, no mês de outubro, sobre a memória e história da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. A Festa faz parte de um lugar social, de uma manifestação cultural tradicional cujas origens remontam ao processo de colonização da América Portuguesa. Uma tradição que atravessou séculos, manteve-se viva pela oralidade, pela palavra, pelos relatos das gerações afrodescendentes. A palavra contada assumiu um aspecto sagrado, ligando o hoje com o ontem, entrelaçando gerações, tecendo um lugar de memória que reinventa suas tradições a cada ano, nos festejos celebrativos de Nossa Senhora do Rosário, no dia 07 de outubro.

Compreendemos aqui o sentido de tradição a partir da definição de Gerd Bornheim (1985), “como o conjunto dos valores dentro dos quais estamos estabelecidos, valores estes que, pelo dito ou escrito, passam de geração em geração. Assim, ela adquire um ‘caráter de permanência’, fazendo-se ‘princípio de determinação’”. São elementos determinantes que nos ajudam a entender os significados construídos pelas Irmandades do Rosário junto a seus descendentes, em torno dos signos, cultos, celebrações e práticas sociais. Os festejos constituem e fundam uma das mais ricas e dinâmicas matrizes da memória banto. Os


Congados expressam muito esse saber banto, que concebe “o indivíduo como expressão de um cruzamento triádico: os ancestrais fundadores, divindades e ‘outras existências possíveis’, o grupo social e a série cultural” (MARTINS, 1997, p. 37). Prestigiando a arte, a religiosidade e o saber de seus antepassados, seus dançarinos, músicos, contadores de história jogam com a herança colonial de dominação. Em Uberaba e várias cidades mineiras, regiões de quilombolas, a Festa de Nossa Senhora do Rosário é marcante, principalmente por sua origem intimamente ligada à Ordem dos Dominicanos, frades pregadores, fundada por São Domingos de Gusmão (1170-1221). São Domingos nasceu em Caleruega, na Espanha, filho de nobres. Estudioso, vendeu todos seus livros raros e bens para socorrer os pobres. Teria dito: “Não quero estudar em peles mortas enquanto os homens morrem de fome”. Ele era “compassivo com os pobres e ardente defensor da verdade”. Realizou várias viagens à França e Itália para pregar a fé católica contra os hereges. Sua preocupação apostólica era combater a heresia cátara, uma doutrina que destruía o ser humano, afastando-o do Evangelho e comprometendo sua salvação. Em 1207, fundou em Prouille uma comunidade feminina que deu origem às monjas dominicanas. Em 1215, fundou a Ordem do Pregadores em Toulouse e, dois anos mais tarde, enviou os frades para Paris, Bolonha, Roma e Espanha para estudar e pregar. Um homem de compaixão, de diálogo, de espírito decidido, de caráter autêntico que inovou a forma de pregar numa época em que essa função era reservada somente aos bispos. Portanto, empenhou-se num estudo profundo da teologia e viveu de forma simples e despojada sua consagração religiosa. Sofreu muitas perseguições, porém venceu todas iluminado pelo ardor à oração, ao estudo e à vida fraterna: louvar, bendizer e pregar. Louvar e dar ao próximo o fruto de sua contemplação. Contemplação e ação, eis o binômio que fundamenta o carisma dominicano. Frei Mariano Foralosso, frade dominicano, nos esclarece:

O claustro dos Dominicanos está colocado no coração da cidade dos homens e tem a porta aberta, diria até ‘escancarada’ para o mundo, para as ruas da cidade e as estradas do mundo onde acontece a vida. Porta aberta para que a vida, os apelos da realidade, os sofrimentos e as alegrias dos irmãos venham alimentar e motivar a contemplação e o estudo dos pregadores; e para que os pregadores possam sair e se fazer próximos, companheiros de caminhada com os irmãos (FORALOSSO, 2017, p.49).

Segundo o frade dominicano André Boccatto (2017), em São Domingos de Gusmão encontramos a docilidade, a determinação e a fidelidade ao Evangelho que não fecha, mas abre portas. Que não encerra, mas inicia novos processos que conduzem ao aprofundamento de nossa capacidade de buscar a verdade, respeitando os valores e a cultura dos povos. São 804 anos de fundação de presença dominicana no mundo! A Ordem que nos inspira a olhar para Deus com intimidade e fervor, que tem o Veritas (Verdade) como cajado, anunciadores da Palavra de Deus que dialoga com as pessoas sem nenhuma distinção ou exclusão. Qual a razão de Nossa Senhora do Rosário ter sido escolhida como protetora dos escravos? Quem idealizou o Rosário? De que forma a devoção perpetua há mais de 800 anos?

Um dos meios mais eficazes que São Domingos empregou para obter de Deus a conversão dos hereges e, ao mesmo tempo, instruir os fiéis, foi a prática e a instituição do Santo Rosário. Criou a segunda parte da Ave-Maria surgida no século XIII. Segundo a tradição, enquanto ele rezava, a Virgem Maria apareceu e ensinou-lhe um método de oração, dizendo que homens e mulheres invocariam sua ajuda com as contas que lhe entregava. Desde Pio V, os papas vêm descrevendo as origens do rosário em suas exortações ligadas a essa aparição e muito se tem representado a imagem de Domingos de Gusmão, aos pés da Virgem, recebendo o colar de contas (SOUZA, 2001). Nos acervos históricos, relata-se que Nossa Senhora mostrou o terço para São Domingos com as 50 Ave-Marias, conhecido como Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria. Ele difundiu esta devoção, encontrando aceitação entre os fiéis católicos que não sabiam ler e queriam de alguma maneira imitar os monges que recitavam os 150 Salmos da Bíblia. Nossa Senhora apareceu também ao beato Alano de Rupe (1428-1475) e reiterou as promessas feitas a São Domingos de Gusmão. Inspirado pela Mãe de Deus, Alano criou as agrupações de 50 Ave-Marias conhecidas como Mistérios Gozosos, Dolorosos e Gloriosos. Acrescentou também os Pai-nossos no início de cada dezena. Surgia, assim, o Rosário como nós conhecemos hoje, com a diferença da inclusão recente dos Mistérios Luminosos pelo Papa João Paulo II. Gregório XIII instituiu a festa do Rosário. A prova concreta da eficácia da recitação do Rosário aconteceu na batalha de Lepanto, no século XVI. A devoção ao Rosário foi difundida na Guatemala pelos missionários dominicanos que ali fundaram a primeira Confraria do Rosário, em 1559, a fim de divulgar os prodígios da recitação dessa oração. Segundo a pesquisadora Antônia Aparecida Quintão, há uma interpretação do interesse pela devoção a Nossa Senhora do Rosário pelos homens negros na América Portuguesa. Segundo a autora, a popularização da prática de recitação do terço no espaço da senzala também esteve associada a uma significação de libertação promovida pela memória dedicada aos “vinte mil escravos cristãos” libertados após a vitória de Lepanto, em 07 de outubro de 1571. Enquanto se travava a batalha contra os turcos em águas de Lepanto, a Cristandade rogava o auxílio da Rainha do Santíssimo Rosário. Após a vitória, o Papa dirigiu-se em procissão à Basílica de São Pedro, onde cantou o Te Deum Laudamus e introduziu a invocação Auxílio dos Cristãos na Ladainha de Nossa Senhora. E para perpetuar a memória da conquista da Cristandade, foi instituída a festa de Nossa Senhora da Vitória que, dois anos mais tarde, tomou a denominação de festa de Nossa Senhora do Rosário, comemorada pela Igreja no dia 7 de outubro de cada ano (Cf. SERVOS DA RAINHA, 2009).

Maria de Lourdes Leal dos Santos

(continua na próxima edição)

Contato

Praça Dom Eduardo, 56 - Bairro Mercês - Uberaba - MG

(34) 3312-9565

Redes Sociais

Facebook

Instagram

Twitter​

Youtube

Inscreva-se

INFORMAÇÕES

Praça Dom Eduardo, nº 56 - Mercês
Uberaba-MG - CEP: 38060-280
Tel: (34) 3312-9565

  • Secretaria / Chancelaria Ramal 1

  • Financeiro Ramal 2

  • Patrimônio Ramal 3

  • Tribunal Eclesiástico Ramal 4

  • Secretaria de Pastoral Ramal 5

curia.arquidiocesedeuberaba@gmail.com

ASSESSORIA DE IMPRENSA DA ARQUIDIOCESE DE UBERABA

HORÁRIOS DE ATENDIMENTO

  • Segunda a Sexta: 8h às 12h e 14h às 17h.

TVs Católicas

Produzido pela pascom arquidiocesana

© 2019 by Arquidiocese de Uberaba

Pública na Rede

Minas Gerais - Brasil

  • Facebook da Arquidiocese de Uberaba
  • Twitter da Arquidiocese de Uberaba
  • Instagram da Arquidiocese de Uberaba
  • Youtube da Arquidiocese de Uberaba