Luzes e trevas na história da Igreja


Questionado por Sancho sobre qual seria o caminho da verdade, responde o fidalgo de La Mancha: “[...] a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunho do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do que há de vir”. Chama atenção a afirmação de que a história é mãe da verdade. Para nós, isso significa uma intuição literária genuína sobre um caminho que se deve percorrer para se chegar à verdade – o caminho da história.

Assim, o mistério da encarnação do Verbo significa, para além do divino, assumir a natureza humana, que o divino se historiciza a ponto de tornar-se, no evento pascal, o centro próprio dessa história humana, quando adicionamos o elemento da fé. Se o evento de Pentecostes pode ser interpretado como o repouso permanente da ação divina – através do Espírito Santo – nessa mesma história que se insere no que os judeus já chamavam de ‘história da salvação’, a ação divina na história pode ser melhor percebida através da ação apostólica logo conformada em ação eclesial. A Igreja, sinal visível na história humana, torna-se assim sacramento de Cristo.


Surge como condição para todo aquele que flerta com a verdade que se volte para o passado em postura discipular: deve deixar, portanto, que o passado – a História – lhe fale por meio de suas fontes, de seus vestígios, de seus documentos escritos e orais etc. Esquivar-se de um ímpeto romântico em querer reconstruir a história do cristianismo apenas em suas glórias e com malabarismos argumentativos exaustivos para justificar suas falhas finda-se como condição nesse sentido. Cabe reconhecer com Pierrard (1982) que a Igreja é “esposa, é bem verdade, mas não esposa sem mancha, mil vezes violada pelos poderosos, a cujas carícias enganosas frequentemente se abandonou: ‘prostituta que Cristo redesposa todos os dias’ como dizem os Padres. Esposa adúltera, mas que Deus ‘envolve com o manto da justiça’, como diz a Escritura”.

Nenhum período da história da Igreja causa mais fascinação do que a modernidade, convencionalmente circunscrita entre os séculos XV e XVIII. Aí podemos encontrar as mesmas luzes e trevas que caracterizam a história do cristianismo e da própria história da salvação. Todavia, não acreditamos numa interpretação binária, que liste de um lado os eventos e fatos históricos considerados ruins e de outro aqueles considerados bons. Como é próprio nas leis da física óptica, o reflexo de luzes sobre determinado objeto provoca inevitavelmente algumas sombras. Em outras palavras, isso significa que acreditamos que num mesmo evento ou fato histórico é possível desvendar luzes e sombras, aspectos bons e ruins.


As grandes navegações, por exemplo, para além de serem uma ode à coragem humana, proporcionaram um extenso intercâmbio entre povos, culturas e mercadorias, uma espécie de antevisão do que viria a ser a globalização séculos depois. De outro lado, também decorrente das grandes navegações, se institucionalizou a escravidão negra, o etnocídio de populações indígenas, o colonialismo e a imposição da fé cristã acompanhada dos costumes europeus.

O maior evento histórico do ponto de vista religioso, durante o período moderno, foi a Reforma Protestante. O que pode ser interpretado como um processo histórico de longa duração que culmina nos fatos relacionados à figura de Lutero e impulsiona outros tantos eventos, também possui suas luzes e trevas. As críticas, controvérsias e oposições doutrinais levantadas por Huss, Lutero, Calvino, Zwinglio etc. empurraram a Igreja Católica para uma necessária autocrítica sintetizada no Concílio de Trento, que teve por consequência um revigoramento doutrinal e importantes reformas, como a instituição dos Seminários, da liturgia e o combate à corrupção moral generalizada no seio da Igreja. De outro lado, os embates advindos da Reforma aumentaram exponencialmente perseguições e guerras religiosas. Ilustrativo disso a Guerra dos Trinta Anos, a Noite de São Bartolomeu e, de modo permanente, a ação do Santo Ofício da Inquisição. De modo ainda mais doloroso e permanente até nossos dias está a divisão no interior do cristianismo: “esta divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo” (UR 1).


O período moderno também inaugurou diversas importantes descobertas científico-filosóficas, tais como a teoria heliocêntrica (Copérnico), a teoria da gravidade (Newton) e o racionalismo (Descartes). Apesar dos avanços alcançados concretamente por meio delas, a modernidade inauguraria paradigmaticamente um inexistente dualismo entre fé e razão que, em nossos tempos, se observa num ateísmo militante e num laicismo radical.

Como apresentamos em nossa tese temática, o rosto mais bonito da Igreja são seus santos e santas que, no chão da história, fazem reluzir por seu testemunho de vida o seguimento a Cristo e a seu Evangelho. Assim, apesar da generalizada imagem de decadência moral do clero no período moderno, farta na literatura do período, os santos e santas da modernidade são concretos sinais da ação da graça santificante na história. Inácio, João da Cruz, Tereza d’Ávila, João Eudes, Vicente de Paulo, Francisco de Sales e Francisco Xavier, Filipe Neri, Pedro Canísio e Carlos Borromeu – os luzeiros mais belos no prisma da história moderna.

O que essa discussão poderia nos acrescentar do ponto de vista pastoral? Ora, de que quaisquer tipos de tradicionalismo que pretendem reproduzir um ideal de igreja passado em nossos tempos não apenas vão na contramão do poderoso e incontornável espírito da história (zeitgeist) de que falava Hegel, mas que, invariavelmente, cria obstáculos – ainda que não os consideremos intransponíveis, sobretudo porque cremos na graça advinda do Espírito – para respostas concretas à vocação evangelizadora da Igreja. O caminho que sensibiliza o espírito e desfaz ilusões de um passado glorioso – de que tipo for – nos parece passar antes pelo caminho da história de que falava o Homem de La Mancha do que pelas vias da dogmática ou da moral.

Muito se recorda o adágio de Cícero de que a história é a mestra da vida (magistra vitae), mas se esquece que o mestre da retórica foi além, ao também descrever a história como luz da verdade (lux veritatis) e comprometida com a imortalidade(immortalitati commendatur). Partindo tanto do critério eclesiológico quanto antropológico, história e cristianismo se entrecruzam, se explicam e dão significados um ao outro.


Sem. Vitor Lacerda

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