Mês da Bíblia. 1 - Visão teológica da Sagrada Escritura como Palavra de Deus

Atualizado: Set 8


Cada vez mais somos convidados a melhor compreender o que chamamos de “coisas de Deus”. Afinal, amamos o que conhecemos. Estudar, buscar um aprofundamento das bases de nossa fé auxiliam para que sejamos melhores cristãos católicos no mundo de hoje. Pensando desse modo, podemos nos perguntar: de que modo podemos conceber a Bíblia como Palavra de Deus? Afinal, não foi ela escrita por homens?

Como bem sabemos, a Bíblia não é um conjunto de livros que simplesmente caiu pronto do céu. Ela foi sendo escrita e organizada por séculos até que chegasse a nossos dias. Para entendermos esse processo, devemos dar atenção, entre outras, a uma palavra muito importante: Revelação.

Por Revelação podemos entender o modo como o próprio Deus se fez presente na história da humanidade, dando-se a conhecer pelos homens, escolhendo alguns para serem seus ouvintes e depois transmissores de sua mensagem. Desse modo, Deus permitiu que a humanidade pudesse encontrá-lo e fazer a experiência de sua presença.

A Dei Verbum n.2 afirma que “Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), [...] Em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Col 1,15; 1 Tim 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15,1415) e convive com eles (cf. Bar 3,38), para os convidar e admitir a comunhão com Ele”.


Deus tomou a iniciativa de se revelar e se manifestar de modo que o homem pudesse percebê-lo. Sendo a revelação a autocomunicação de Deus, podemos compreendê-la como evento de salvação. Evento que se iniciou com a criação, desenvolveu-se na história religiosa do antigo povo de Israel e chegou a sua plenitude na encarnação de Jesus Cristo e todo seu mistério pascal, assim como na ação do Espírito Santo permeando a humanidade e fazendo brotar a Igreja. Por toda essa trajetória histórica, Deus se deu espontaneamente a conhecer.

Posteriormente, esses homens que fizeram suas experiências com Deus, mudaram dos relatos unicamente orais para os escritos, iniciando com os eventos do Primeiro Testamento, dando continuidade escrita aos acontecimentos do Segundo. O homem como instrumento divino passou a fazer parte de seu projeto de propagação da ação de Deus na história para que todos chegassem ao conhecimento da verdade. Essa constatação nos é apresentada na Dei Verbum n.11, onde vemos que “As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo”. A Bíblia como local de contato e aprendizado, proximidade e instrumento de Deus para a salvação do homem.

Portanto, podemos compreender que a finalidade da Sagrada Escritura como Palavra de Deus é comunicar quem Ele é e qual Sua vontade para cada um de nós. Assim, em um ato de fé assegurada pela Santa Igreja, seguimos adiante em nossas vidas com o amparo da Santa Palavra que, embora escrita por homens, é obra da ação do Espírito Santo.

Seminarista Rodrigo Teodoro – 3º Ano da Etapa de configuração (Teologia)


2 – Aplicação da Sagrada Escritura em nossa vida como Igreja

O mês de setembro é o mês dedicado à Bíblia. Uma vez que, em agosto, refletimos sobre a vocação como lugar do homem no mundo, a igreja nos abre as portas para a meditação da Sagrada Escritura como meio privilegiado de encontro pessoal com Deus e formação de discípulos missionários.

A Igreja venera as Sagradas Escrituras e sempre enfatiza seu papel primordial dentro de nosso contexto de fé, pois nela está contida a Palavra de Deus, que é “viva e eficaz” (cf. Hb 4,12). Esta Palavra de Deus atualizada em nossa vida pela ação do Espírito Santo tem o poder de nutrir salutarmente a alma de todos nós que nos deixamos tocar por ela e, como consequência, faz florescer a santidade em toda obra que nos propusermos a realizar.

A Sagrada Escritura é o centro de toda ação litúrgica que, como seiva de Deus, alcança a vida de quem a contempla por inteiro. Não atinge somente uma área isolada, mas abarca o ser humano em sua totalidade. Nessa perspectiva, o Documento de Aparecida (2007) afirma no parágrafo 247 que “Desconhecer a escritura é desconhecer Jesus Cristo e renunciar a anunciá-lo”.


A Constituição Dogmática Dei Verbum recomenda a prática assídua da leitura da Palavra de Deus como instrumento eficaz na evangelização e forma mais coerente de se fazer Jesus Cristo conhecido e amado entre os povos. Para os ministros sagrados, incentiva vivamente que, nutridos do alimento sólido contido nas Escrituras, “comuniquem aos fiéis a eles confiados, especialmente na Sagrada Liturgia, as vastíssimas riquezas da palavra divina” (Dei Verbum, §195).

Essa caminhada e o encontro pessoal com Jesus que se dão de forma viva em Sua Palavra só é possibilitada pela via da oração, pois nela se estabelece este perene colóquio entre Deus e o homem, pois, como diz Santo Ambrósio em sua obra De Officiis ministrorum, “se com Ele falamos quando rezamos, a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos”.

Os Padres espirituais, parafraseando Mt 7,7, resumem assim as disposições de um coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: “Buscai lendo e encontrareis meditando; chamai orando e se vos abrirá pela contemplação.”

Peçamos ao Senhor que, correspondendo a Seu chamado, voltemos nosso olhar para descobrir suas maravilhas e riquezas através da leitura orante e aprofundada das Sagradas Escrituras.

Seminarista Paulo Vitor – 4º Ano da Etapa de configuração (Teologia)


3 – Opinativo: O desafio da Palavra na vida do Cristão

“Escuta Israel, o Senhor é nosso Deus, um é o Senhor” (Dt 6,4-9). Esta é a profissão central da fé judaica que nós, cristãos, herdamos ao professar, nesse mesmo sentido, que um só é o Senhor. Entretanto, também recebemos como herança do povo de Abrãao, Isaac e Jacó – nossos pais na fé – o imperativo que abre aquela sentença: escuta (shemá) Israel!

Quem é chamado a escutar? Se no passado tal ordem se dirigia a Israel, povo da aliança, em nossos dias somos nós, a Igreja de Cristo, povo da nova aliança, que somos chamados a escutar. E a quem se deve escutar? Ao próprio Deus, que se comunica e se revela a nós, primeiro através dos patriarcas e profetas e, de modo completo e perfeito, através de seu Filho Jesus, conforme nos narram os Evangelhos; assim, o conjunto do que se deve escutar da parte do próprio Deus se chama de Palavra.


Em que consiste essa escuta? Em primeiro lugar, ela consiste no silêncio. Para que a escuta aconteça, precisamos aprender a silenciarmos a nós mesmos, num sinal reverente e humilde de que nos reconhecemos como criaturas incompletas e necessitadas da Palavra criadora do Criador. E silenciarmos também o mundo que nos cerca e nos inunda de informações, cores, sons, atividades etc. O silêncio torna-se, portanto, primeira condição necessária para a escuta.

Em seguida, é preciso que repouse em nossa consciência a certeza de que o eixo pelo qual tal escuta se torna eficiente é a . Como um surdo que precisa de um aparelho auditivo para ouvir os sons a sua volta, todo cristão precisa de um aparelho auditivo chamado fé para ouvir com clareza a Palavra de Deus. E quando dizemos , nos referimos a este presente ou dom que nos dá o próprio Deus para que possamos conhecê-lo e nos relacionarmos com Ele – torna-se, portanto, como que “o encontro de dois que se amam”.

O zelo e a piedade que a Sagrada Eucaristia inspira em todos nós, cristãos que somos, é admirável e dá testemunho de que, para nós, o pão sacramental é presença real de Deus entre nós e em nós. Se um pedaço minúsculo do pão sagrado cai no chão, uma comoção se organiza para resgatá-lo. Às espécies eucarísticas oferecemos nobres cálices e cálidas preces. Que bonito seria, entretanto, se tivéssemos semelhante apreço, como cristãos, à Palavra de Deus! Se reconhecêssemos que Deus se faz presente também na Palavra e que também ela merece toda dignidade e que também ela é capaz de despertar em nós sinceras orações! Qual seria o testemunho se quando se colocasse reparo nos cristãos à escuta da Palavra, se percebesse que seus ouvidos fossem como patenas douradas atentas e zelosas para que nenhuma palavra ou vírgula se perdesse?


Ainda: tal escuta é interpelativa, provocativa, transformadora – e por tudo isso nos leva à conversão e nos impulsiona à missão. O grande Padre Antônio Vieira, chamado “imperador da língua portuguesa” por Pessoa, quando medita a respeito dessa força intrínseca à Palavra de Deus, lembrando os elementos da Parábola do Semeador (Lc 8,4-15), proclama que mesmo as pedras lhe fazem exclamações (Lc 19,40) e mesmo os espinhos lhe fizeram coroa (Jo 19,2). Em outras palavras: ainda que nossos corações criem obstáculos e sejam duros como as pedras ou danosos como os espinhos, a Palavra de Deus há sempre de criar efeito. Como diria a canção de Padre Zezinho, “é como chuva que lava, é como fogo que arrasa; tua Palavra é assim, não passa por mim sem deixar um sinal”!

Terminamos evocando a figura de Santo Efrém (séc. IV) que, ao lado de São Jerônimo, está entre os maiores ouvintes da Palavra e nos lega um conselho: “Que inteligência poderá penetrar uma só de vossas palavras, Senhor? Como sedentos a beber de uma fonte, ali deixamos sempre mais do que aproveitamos. A Palavra de Deus, diante das diversas percepções dos discípulos, oferece múltiplas facetas. O Senhor coloriu com muitos tons sua palavra. Assim, quem quiser conhecê-la, pode nela contemplar aquilo que lhe agrada. Nela escondeu inúmeros tesouros, para que neles se enriqueçam todos os que a eles se aplicarem” (Comentário sobre o Diatéssaron).


Seminarista Vitor Lacerda – 3º da Etapa da configuração (Teologia)

23 visualizações