O Advento do Filho do Homem na fé, esperança e caridade


De origens históricas imprecisas, a festa do Advento seria inicialmente a comemoração da subida ao trono do imperador romano, com duração de seis semanas (cf. HILD, 1959, p. 10-24). Contudo, em nossa liturgia romana ocidental, sobretudo em seu caráter ascético, o advento se caracterizava como um período de preparação dos catecúmenos para o Batismo. Essa preparação se fundamentava na espiritualidade da segunda vinda do Senhor Jesus, como a própria citação bíblica, extraída da Vulgata (edição latina da Bíblia), indica, a saber: ‘‘Ita erit ADVENTUS Filii hominis’’ (Assim será a vinda do Filho do homem). Com isso, é importante saber que existem liturgicamente dois adventos: o advento escatológico e o advento natalino.

De tendência escatológica, o tempo do advento ‘‘procurava fechar o ano litúrgico com a lembrança da parusia [Παρουσία] final’’ (BERGAMINI, 1994, p. 178) (Advento escatológico). Não obstante, ao mesmo tempo que procurava perfazer a celebração do ano litúrgico, esse período abria as festividades da Encarnação do Verbo no Natal (advento natalino), de modo que contemplava ambas as vindas de Cristo, em íntima relação. Diante disso, esse período é costurado pela linha teológica da vinda do Senhor. E essa costura é moldada liturgicamente em três níveis distintos que se complementam: o do primeiro domingo, o do segundo e terceiro domingos e o do quarto domingo. Os dias feriais (segunda a sábado) são inseridos dentro da espiritualidade dominical correspondente.


O primeiro domingo do Advento celebra o fato da parusia ou juízo final, ou seja, encerrando o ano litúrgico do tempo comum (vida e ministério de Jesus e da Igreja depois do Pentecostes), todos os cristãos devem estar à espera de seu Salvador, a exemplo das comunidades primitivas. Todavia, essa espera não é uma letargia em que não devemos fazer nada a não ser esperar (1Ts), mas é antes uma atitude operativa (ação), ou seja, imbuídos pelos carismas do Espírito, os cristãos devem viver em conformidade com Cristo (ética/moral) até sua vinda e juízo definitivos. O segundo e terceiro domingos chamam nossa atenção para a vinda do Senhor no dia a dia de nossas ações, nos acontecimentos que surgem em nossa vida e que, na simplicidade existencial, não parecem muita coisa. Por fim, o quarto domingo do Advento prepara a Igreja para o nascimento do Messias, fazendo desse evento teologia e história, marco de uma nova vida (BERGAMINI, 1994, p. 180).

Os dias feriais são divididos em duas grandes partes que buscam, através de seus textos litúrgicos, enriquecer a reflexão eclesiológica dominical acerca da vinda do Senhor. A primeira parte, anterior ao dia 17 de dezembro, ‘‘apresenta os sinais e as características do reino messiânico e as condições para entrar nele’’, ao passo que na segunda grande parte, após o dia 17 até o dia 24, ‘‘há uma preparação direta ao Natal, com as passagens do Antigo Testamento e do evangelho, aos quais são narradas as diversas anunciações e a atuação em Cristo das promessas davídicas’’ (BERGAMINI, 1994, p. 180).

Diante desses dois adventos, destaco três figuras-modelo para nos espelharmos em nossas celebrações de espera: Isaías, João Batista e Nossa Senhora. Os textos do profeta Isaías foram colocados para contemplação nesse período em virtude do grande eco de esperança e libertação que possui quando se dirige aos exilados na Babilônia. Especificamente, o Dêutero-Isaías (ou a segunda parte desse livro: Is 40-55), no contexto do Exílio da Babilônia (por volta do século VI a.C.), evoca uma grande e alegre libertação por ocasião da criação de uma nova Jerusalém. Por causa disso, o povo deve cultivar sempre a esperança pelo futuro. Não muito distante de nossa realidade estão esses textos: nós, no exílio relacional desta pandemia, somos chamados, como Isaías, a olhar com alegria e esperança para um futuro ao qual o Deus do amor e da relação nos constrange com os efeitos de sua graça.


A figura profética de João Batista, aquele que pulou de alegria no ventre de Isabel (Lc 1,44), nos lembra a feliz intervenção divina na história, intervenção que ocasionou a vinda do precursor do Messias, aquele que prepara com sua vida a chegada gloriosa do Redentor. À medida que João Batista ia diminuindo, Jesus ia crescendo (Jo 1,19-28), de modo que, para viver a real espiritualidade da espera no Senhor, devemos livrar-nos de nosso ego (eu) em prol de um alter (outro), que é Cristo Jesus. A intervenção divina, no Natal e também nos dias finais, deve ser preparada em nós sempre com um ‘‘olhar batista’’, ou seja, um olhar para os outros e para Deus que é o divino Outro.

Por fim, a figura-modelo de Maria que encerra a cooperação com o divino. Pelo ‘‘sim’’ mariano, o Deus que é Espírito onipotente (Jo 4,24) se fez carne (et incarnatus est). Maria como a filha de Sião (Sf 3,14-18) é a imagem da Igreja convidada a dizer o ‘‘sim’’ para a encarnação do Cristo na humanidade. Mais do que isso, Maria é o símbolo da humanidade, de modo que me recordo das palavras densas de São Paulo de que Cristo ‘‘nasceu de mulher’’ (Gl 4,4). A mulher que é, desde o Antigo Testamento, símbolo do povo eleito para a salvação (Gn 3,15), chamado a derrotar o mal. No advento, a humanidade fiel, a exemplo de Maria, é convidada a esperar o Senhor, lutando diariamente contra as tentações e vícios, enriquecendo, assim, a fé. Fé esta simbolizada pela chama da Coroa do Advento nas quatro manifestações cristológicas (= 4 velas), a saber: Cristo encarnado, manifestado nos pobres, manifestado nos sacramentos e na glória escatológica.

Em síntese, somos chamados a ser Isaías, cultivando a esperança, João Batista, cultivando a caridade, e Nossa Senhora, cultivando a fé, na espera dos bens prometidos pela Divina Encarnação do Verbo. E quando assim chegar, na parusia celeste, cantar junto aos Anjos e Arcanjos a liturgia da Nova Jerusalém, entoando mais e mais vezes: ‘‘Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade’’ (Lc 2,14).

Pablo Borges

Seminarista / 4º ano de Teologia

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