O fim do mundo – hipóteses e revelação

O fim do mundo é descrito de diversas formas, com múltiplas possibilidades. Daqui a bilhões de anos, o Sol se apagará, nos dizem os cientistas. O universo poderá entrar em colapso, relatam outras teorias. Enquanto isso não acontece, poderá ocorrer choque de cometas com o planeta Terra, como já houve no passado. Também o ser humano poderia ser o causador de uma devastação suficiente para exterminar a vida da Terra, como uma terrível guerra atômica ou o descuido irreversível causado pela crescente poluição ambiental. Outra possibilidade, como já preconizou a ficção científica, seria o surgimento de uma enfermidade incurável, causada por um vírus desconhecido ou por efeitos colaterais de novas vacinas para combater tais vírus.


Quantas mortes causadas pela pandemia do Coronavírus! Tantas outras mortes decorrentes de suas consequências: fome, aumento da criminalidade e da violência, desavenças familiares... Seria o início do fim do mundo? Causa-me angústia só em pensar o que poderia ser este mundo que aí está sem vida inteligente para desfrutar de tanto avanço que a mente humana alcançou. Pensemos na cultura. Tantas obras de arte expostas a nenhuma contemplação: esculturas, pinturas, arquitetura... Tantas músicas clássicas e populares, óperas, balés, sinfonias sem ninguém que as escute ou as assista... Pensemos nos avanços tecnológicos. Pensemos ainda no avanço do pensamento humano, através da literatura, das ciências, das filosofias, das teologias. O que seriam dos museus e bibliotecas a cultivar mato? Faz dó só em pensar!


O fim do mundo pode ser compreendido como fim de um percurso pessoal. Para a pessoa que termina seus dias, é chegado o fim do mundo. Para as pessoas que vivenciam uma catástrofe, uma fase aguda da história ou provações específicas, é chegado o fim de um mundo. Algumas correntes falam do fim da história. Para muitos, a história teria chegado a seu fim com a Revolução Francesa. Para outros, com a Revolução Comunista. Para outros, ainda, com o fim da Era Moderna. De fato, um determinado mundo teve seu fim com a queda da cidade de Jerusalém. Outro, teve seu fim com a queda do Império Romano ou de Constantinopla ou ainda a tomada da Bastilha ou a Segunda Guerra Mundial. No entanto, de suas cinzas outro mundo surgiu. Continuam válidas as proféticas palavras de nosso irmão Juvenal Arduini: “Ainda há esperança, pois a história não acabou”.


A revelação bíblica nos apresenta outra perspectiva. O Capítulo 13 de Marcos nos relata, em linguagem apocalíptica, uma série de fenômenos e tribulações das coisas que estão por acontecer: rumores de guerras, terremotos, fome (Mc 13,7-8); perseguição (Mc 13,9-12); abominação da desolação (Mc 13,14); tribulação (Mc 13,19-20); falsos Messias e falsos profetas (Mc 13,21,22); sinais no sol, na lua e nas estrelas, de tal forma que os poderes dos céus serão abalados (Mc 13,21-25). Todos esses fenômenos preanunciam a vinda do Filho do Homem (Mc 13,26-27). Nesse contexto, o Senhor nos faz duas advertências: “Aquele, porém, que perseverar até o fim será salvo” (Mc 13,13b); “Passará o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mc 13,31). Os discursos escatológicos de Mateus e de Lucas não destoam tanto disso (cf. Mt 24 e Lc 21).


A linguagem dessas narrativas, em estilo profético-apocalíptico, apontam para realidades históricas, como a destruição da cidade de Jerusalém, ocorrida no ano 70 (Mc 13,1-2; Mt 24,1-2; Lc 21,5-6) e difusão do Evangelho no mundo grego e romano (Mc 13,10; Mt 24,14). De acordo com alguns comentadores bíblicos, esses textos anunciam a crise messiânica iminente e a esperada libertação do povo eleito que, de fato, se produziu pela ruína de Jerusalém, a ressurreição de Jesus Cristo e sua realização na Igreja. Os prodígios cósmicos acenam para as intervenções de Deus na história. Lucas apresenta uma linda palavra de esperança: “Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima vossa libertação” (Lc 21,28). Ainda que haja um endereço para um dado momento histórico, essas profecias têm um alcance escatológico.



O Apóstolo Paulo nos adverte que “a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31) e que “a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8,22). De acordo com ele, o ser humano vai se encaminhando rumo “ao estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13b). Já o Apóstolo Pedro nos assegura, seguindo as promessas do Senhor, de acordo com o profeta Isaías: “O que nós esperamos, conforme sua promessa, são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13; cf. Is 65,17; 66,22). O vidente do Apocalipse já contempla, com olhos de esperança, essa realidade anunciada pela Palavra de Deus: “Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não existe” (Ap 21,1). Eis aí onde se assenta nossa esperança cristã: não à destruição, sim à vida em plenitude; sim a uma nova realidade; sim à realização do sonho de Deus para sua criação.


Padre Geraldo Maia

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