Ora et labora

Olá!

Para quem já teve algum contato com a vida monástica, o título acima revela o assunto de nossa breve conversa.

Neste mês de julho, você certamente terá a oportunidade de apreciar bons artigos sobre a vida de São Bento, cuja memória toda a Igreja celebra no dia 11. Não tenho a pretensão de escrever sobre ele, seus ricos ensinamentos e toda a grande obra que ele fundou e legou especialmente aos monges e oblatos que servem a Deus, observando a Santa Regra.

Mesmo não incluído entre esses, tive a oportunidade de experiências memoráveis junto a comunidades beneditinas e quero compartilhar um pouco disso com você.



Uma dessas experiências aconteceu há muito tempo, em minha juventude. Foi no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, quando participei de um retiro de silêncio, durante o Carnaval – algo inimaginável para a maioria dos jovens cariocas, que só mesmo vivenciando para compreender e valorizar. Em meio aos ensinamentos que pude receber, aquele evento tornou-se marcante para mim por causa de uma música, Cântico de Núpcias, apresentada em um momento de recreio por Dom João Evangelista, monge e autor da melodia, composta sobre poema de Dom Marcos Barbosa, outro monge do mesmo mosteiro. Alguns anos depois, minha esposa e eu proclamamos esse poema na celebração de nosso matrimônio, expressando de forma poética o compromisso assumido.


E com o matrimônio, além das virtudes de minha esposa e de nossos filhos que abençoaram minha vida, tive o privilégio de receber uma monja beneditina como tia. Na verdade, o tempo revelou que ela se tornara não apenas minha tia, mas minha “mãe espiritual”. Irmã Mônica Castanheira – ou Tia Teresa para mim – era dotada de uma inteligência notável e de uma alegria radiante. E, apesar da distância para chegarmos ao Mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, onde ela vivia, eu perdi a conta das vezes em que fui visitá-la e pude experimentar um pouco da vida em uma comunidade monástica, um lugar onde reina a Paz, onde a beleza fez morada.

Refiro-me à beleza, no sentido amplo da palavra. Beleza que emana dos corações das monjas e ilumina seus rostos, tão diferentes entre si e tão semelhantes ao rosto misericordioso de Jesus. Também a beleza do templo, obra do artista plástico Cláudio Pastro – que tem expressão maior no Santuário Nacional de Aparecida. E ainda, para quem gosta, a beleza do canto gregoriano que permeia as celebrações da Liturgia das Horas.



Enquanto escrevia este texto, perguntei a mim mesmo: o que essas experiências têm a ver com liturgia? Posso estar enganado, mas creio que tem muito a ver. Afinal, liturgia não se resume aos cuidados com a celebração eucarística, embora isso seja a razão valorosa para sua existência. Prefiro pensar e viver a liturgia como uma experiência que pavimenta o caminho que nos leva ao Pai por vários meios: a oração, a música, a poesia, as artes plásticas e até mesmo o silêncio, sem esquecer o trabalho que nos propicia o justo sustento para caminhar.


“Ora et labora”, reze e trabalhe é a essência da Regra de São Bento, que vale para todos nós, mesmo fora da clausura. Aliás, muitos enxergam a vida monástica, a clausura como uma prisão. Minhas experiências indicam o contrário, que se trata de uma profunda libertação, alcançada por meio da oração e do trabalho, sempre com alegria e ardor.

Na mesma linha, Santo Inácio de Loyola, jesuíta, nos ensina: "Ore como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como se tudo dependesse de você".

Assim, você enxerga a verdadeira beleza, celebra a verdadeira liturgia, encontra o verdadeiro Amor.


Ora et labora!

Luiz Villela

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