Padre Pietro Quattrini


Padre Pedro ou Padre Pedrinho, assim chamado por todos quantos o conheceram e amaram nas várias cidades onde esteve, conviveu na Comunidade Somasca e trabalhou, tanto no meio e em favor das crianças, como à frente de uma Paróquia. Nossas Comunidades somascas no Brasil são poucas, hoje cinco ao todo. Uberaba e Presidente Epitácio foram os dois lugares onde ele “gastou” – literalmente – sua vida: “oblação pura e pacífica” para que aqueles e aquelas que lhe estavam perto pudessem ter vida e apreciá-la.

No longínquo 1970, no mês de julho, no Aeroporto do Galeão (RJ) desembarcava Padre Pedro, sem que ninguém estivesse aí para recebê-lo. Tocou a campainha da Casa somasca do Rio, na Av. Brasil, à altura da Fiocruz, Manguinhos, para... dizer (em italiano, porque não sabia nada de português) que tinha um táxi lá fora para pagar!

Pouco tempo depois, foi enviado a Uberaba como “Diretor” do Abrigo de Menores Leopoldino de Oliveira, onde uma comunidade Somasca se havia formado desde 1963, assumindo exatamente este Abrigo e uma parte do território da Paróquia de S. Domingos, que em 1964 se tornaria Paróquia Nossa Senhora das Graças.



Ficou como Responsável do Abrigo de 1970 até 1976. Achara as crianças, umas quarenta, literalmente “abrigadas”, quase impessoais, invisíveis, lá vivendo, mas não existindo. Lembro que passavam muito tempo do dia “caçando” com estilingues “lá nas... microondas”. Depois do banho, na maioria das vezes na “represa” existente perto da sede, quando deviam trocar de roupa, se apresentavam em fila; alguém mostrava um calção e uma camiseta e aquele que podia caber dentro se apresentava e saía de roupa “nova”. Muitos não frequentavam escola.

Quando o Padre Pedro deixou o Abrigo, os meninos frequentavam a Escola Santa Terezinha, como todos os outros alunos, apresentavam-se e frequentavam famílias da cidade e prestavam pequenos serviços à casa, assumindo compromissos como filhos de uma grande família.

Todo amor de pai que existia nele como homem, e por escolha, como somasco, derramado no coração dessas crianças em sete anos de dedicação, transformou aqueles “meninos” em pequenos cidadãos: transformados pelo amor! Transformação, aliás, que sempre e só o amor consegue e sabe realizar.

Tendo os Somascos entregue em 1976 o Abrigo aos Padres Terciários Capuchinhos, Padre Pedro tornou-se pároco de Nossa Senhora das Graças. E aqui começa outro capítulo, outra compreensão de vida, outra paternidade que ele podia exercer e exerceu, mesmo não estando diretamente no meio das crianças.



Padre Pedro, Padre Zebrão, Zebrinha ou Pedrinho, - os apelidos sempre aumentam conforme aumenta o amor recíproco – foi se tornando o Pai/Pastor do Bairro Boa Vista.

Duro, preciso, briguento às vezes, nunca excludente ou alimentando rancor. Muitas vezes se tornava o maior amigo de quem com ele tinha “brigado” ou se desentendido. Organização, celebrações, procissões ordenadas e às vezes até longas demais, catequese marcaram sua presença na Paróquia.

Fora dela, preocupado com o estado de pobreza de famílias e crianças. Estabeleceu um “apadrinhamento” a distância com famílias da Itália. Através da ajuda de paroquianos voluntários, os recursos, vindos do exterior, se transformavam em cestas, remédios, escolaridade em prol de crianças e famílias mais precisadas. Iniciativa que, embora modificada sobretudo em seu método, continua até hoje.


Interpelava, cativava pessoas inseridas no poder público para relembrar deveres e exigir direitos em favor dos mais pobres. O próprio bairro Boa Vista como um todo, com suas lideranças locais, deve muito ao Padre Pedro, inserido sempre na Comunidade Somasca.

Ele foi embora e voltou umas três vezes à Paróquia Nossa Senhora das Graças, influenciando gerações e colaborando pastoralmente sobretudo com os Arcebispos Dom Benedito e Dom Roque.

Em sua última estadia em Uberaba, o poder público municipal, revisitando sua longa presença e atuação, com reflexos tão evidentes também no campo social, lhe conferiu o Título de Cidadão Uberabense.

Um dia, partiu definitivamente de Uberaba, e recentemente deste mundo, mas sua presença está gravada ainda em milhares de corações, sobretudo no Bairro Boa Vista.

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