Pensar a globalização

O Papa Francisco fala de “amizade social”, que ultrapassa as fronteiras do amor individual, que possibilita abertura para a prática de um amor universal e o reconhecimento da existência de espaços para a atuação de todas as pessoas. É globalizar o amor sem destruir as virtudes singulares de cada pessoa e de cada povo, reconhecendo a riqueza da unidade sem fazer que todos sejam iguais.


É importante olhar para a parábola do bom samaritano. Quem passava pelo caminho via um homem caído e ia adiante, não o considerava próximo. Talvez fosse um incômodo, ou um “ninguém”, totalmente sem identidade e estranho a todos. Mas um transeunte estrangeiro, samaritano, interrompe sua viagem, muda seus planos e se coloca a serviço de alguém que precisava de sua ajuda fraterna.


Hoje temos grupos que se organizam, se fecham em seus ambientes e impedem a presença de qualquer estranho. Existe medo da perda de privilégios, de confortos e de benefícios pessoais. Nesse contexto, só é próximo quem defende determinados interesses do grupo. Nesse tipo de grupo acontece a fraternidade, o diálogo e a descoberta da reciprocidade quando se ajudam no enriquecimento.


No espírito da globalização, todos os seres humanos são iguais e não podem viver numa atitude de mundo fechado. A soma de interesses individualistas não consegue melhorar o mundo e nem a humanidade. São práticas que impedem a construção do bem comum e o respeito com a pessoa humana. Os feridos e humildes não são reconhecidos naquilo que é fundamental, a dignidade pessoal.


Na mentalidade atual, não há interesse em investir nas pessoas frágeis, porque elas não são rentáveis para certos sistemas econômicos, políticos e ideológicos. Há o domínio da liberdade de mercado que dá primazia para o aspecto da eficiência. Isso significa não dar espaço para quem não consegue se destacar na capacidade de produção, esvaziando o sentido de fraternidade, liberdade etc.


Existe atualmente uma crescente reivindicação de direitos individuais, que precisam ser harmonizados e ordenados para um bem maior. Por outro lado, é necessário que haja limites para não se tornar fonte de conflitos e violência. Nesse âmbito, não pode ficar de fora o aspecto de cuidado com os valores morais, porque eles ajudam no amadurecimento integral da pessoa humana.


Dom Paulo Mendes Peixoto

Arcebispo de Uberaba

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