Perspectivas para 2021


O ano de 2020 ficará marcado na história da humanidade com a declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciando ao mundo a pandemia para a Covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus, surgido em Wuhan, cidade chinesa com 11 milhões de habitantes. Pandemia é a disseminação mundial de uma nova doença. O termo é utilizado quando uma epidemia – grande surto que afeta uma região – se espalha por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa.

A última vez que lidamos com uma pandemia tão misteriosa, incontida e de longo alcance foi em 1918, quando o vírus influenza da gripe devastou populações em todo o mundo. Segundo dados da Fiocruz, a gripe de 1918 matou de 50 a 100 milhões de pessoas até 1919. Os números de óbitos são muito mais superlativos, mas existem paralelos assustadores entre a gripe de 1918 e a pandemia de Covid-19 de 2020: uma doença com uma gama surpreendente de sintomas para os quais há pouco tratamento, o comportamento humano como um obstáculo à saúde pública e surtos que se espalharam, para citar alguns.


Por 102 anos, estudiosos do vírus influenza e especialistas em doenças infecciosas tentaram educar as massas na esperança de prevenir futuras pandemias. E, no entanto, aqui estamos. O coronavírus responsável pela atual pandemia não é um vírus de gripe. Mesmo assim, as pandemias de 1918 e 2020 compartilham semelhanças em termos de sua base em um vírus novo que abalou o mundo e todos os aspectos da sociedade. 2020 foi um ano de grandes mudanças, sociais e econômicas que revolucionaram o mundo do trabalho, acentuando profundamente também a formação e as relações interpessoais. Pela primeira vez, o distanciamento “forçado” foi experimentado, a escola mudou sua cara, aprendendo, por sua vez, o ensino remoto, enquanto os funcionários começaram a trazer para casa não apenas o trabalho, mas todo o escritório, por meio do home-office. O início foi complicado, houve dificuldades de rede, equipamentos inadequados e a adaptação a uma nova vida que ninguém havia pensado, exceto em cenários de ficção científica.


Na catequese de 26 de agosto do ano corrente, o Papa Francisco, na praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, disse: “...A pandemia pôs em evidência e agravou os problemas sociais, especialmente a desigualdade. Alguns podem trabalhar de casa, enquanto para muitos outros isto é impossível. Algumas crianças, apesar das dificuldades, podem continuar a receber uma educação escolar, enquanto para muitas outras houve uma brusca interrupção. Algumas nações poderosas podem emitir moeda para enfrentar a emergência, enquanto que para outras isso significaria hipotecar o futuro...”. O papa continua dizendo: “perante a pandemia e suas consequências sociais, muitos correm o risco de perder a esperança. Neste tempo de incerteza e angústia, convido todos a aceitarem o dom da esperança que vem de Cristo. É Ele que nos ajuda a navegar nas águas tumultuosas da doença, da morte e da injustiça, que não têm a última palavra sobre nosso destino final”.

No documento conciliar Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (1962-1965) nos guia a um caminho de fé, amor e esperança para a transformação do mundo. Quando o papa nos motiva com a certeza do dom da esperança, Deus nos enche de perspectivas para 2021. O desejo de voltarmos a nossa normalidade, que tanto almejamos. Nossa expectativa é alimentada sobretudo pela comunidade internacional científica que busca uma vacina para combater o Covid-19. Embora existam algumas vacinas em estágio avançado, o horizonte para um programa de vacinação em massa parece distante. Por enquanto, nações ainda sofrem o cenário de repiques da contaminação desordenada com a chamada “segunda onda”, que evidencia a fragilidade e a falta de conhecimento preciso sobre o vírus, suas mutações e a incidência de novos casos.


De modo geral, o retorno ao cotidiano torna-se um readequar-se à dita “nova normalidade”. O ano de 2020 levou o mundo a uma crise profunda na saúde pública: nações ricas e pobres padecem com a pandemia, mas é inegável que países marcados pela desigualdade estrutural padecem de forma mais dolorosa as consequências da crise. Espera-se que a retomada da economia seja lenta, porém gradativa, o que dependerá em grande parte da capacidade em controlar a crise sanitária. A ilusão de um retorno linear e homogêneo obscurece a elaboração de iniciativas propositivas, que atenda com profetismo grupos que, neste momento, estão especialmente vulnerabilizados pela pandemia do Covid-19.

A “nova-novidade” estará se tornando a norma e nos próximos três anos poderá tornar-se a prática do dia a dia da população mundial. E, a partir dessa realidade, sabemos que a modalidade de viver terá uma nova face. Diante deste cenário complexo, é importante manter a consciência racional da gravidade sem perder a esperança, com “os olhos fixos no Senhor” (Hb 12,2).


Respeitar o isolamento social, as medidas de higiene, as normas sanitárias e o cuidado com o outro é sinal profundo de amor à humanidade, sem o qual não podemos amar o próprio Deus. Com o auxílio precioso das tecnologias, nos podemos manter em conexão com a realidade, mas também com as artes, a cultura, o diálogo fraterno e familiar para termos um equilíbrio mental durante estes tempos. A vida religiosa também precisa reavivar seu vigor, participando das celebrações eucarísticas, terços, novenas, cercos de Jericó etc., por meio da Internet. Entretanto, tudo isso deve ter como eixo principal a caridade e a solidariedade com os mais pobres e aqueles que nada possuem, a quem estes momentos são mais dolorosos e sofridos.

Por fim, que as perspectivas para 2021 tenham a espiritualidade a renovar nossa força e nosso compromisso com o bem de todos e a superação deste momento desafiador. A espiritualidade é o combustível que nos faz mover dentro desta crise de saúde social, econômica, ecológica e humanitária. Seja um ano novo de revermos nosso relacionamento com Deus, de crer nele, mesmo diante das muitas cruzes que a pandemia tem feito cada um de nós carregar sobre os ombros.


Padre José Rinaldo da S. Trajano

Mestre em História da Igreja, bacharel em Bens Culturais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma

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