Primeira Carta de Pedro

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Iniciamos um novo capítulo da busca de conhecimento sobre os textos bíblicos através de nosso Jornal Metropolitano. Nossa atenção, dentro das chamadas Cartas Católicas, é dirigida agora para as Cartas de Pedro. Elas são duas cartas outorgadas a nosso primeiro papa.


Chamada de Epístola Católica por não possuir um destinatário em específico, mas sim toda a Igreja, a 1ª Epístola de Pedro se enquadra na definição de Eusébio em sua História Eclesiástica e foi confirmada no Concílio de Laodiceia em 360, como escrito inspirado e pertencente ao grupo das “Cartas Católicas”.


A 1ª carta de Pedro é um dos escritos mais importantes e significativos do Novo Testamento. Para Lutero, a 1ª carta de Pedro, o Evangelho de João e as Cartas de Paulo eram o núcleo entre todos os livros sagrados. Lutero a chama de “Evangelho autêntico”. Desde o início da Igreja, essa epístola foi acolhida no cânon sem discussão. É vista mais como uma carta circular, uma encíclica ou ainda como uma homilia. Ela não possui as características próprias de uma epístola, mas se assemelha a uma catequese apostólica, muito ligada à liturgia batismal. Nas comunidades primitivas, seria um texto em preparação à celebração do batismo ou ainda como uma exortação pós-batismo, convidando ao empenho de uma vida coerente com a graça recebida de Cristo Jesus e à busca de se viver a vida nova nascida nas águas batismais.


A 1ª carta de Pedro tem o propósito de sustentar a fé de seus destinatários em meio às tribulações que os assolam. Uma das ideias mestras é a paciência ativa nas tribulações, tendo Cristo como modelo. Os cristãos, a exemplo de Jesus, devem sofrer com paciência ativa, felizes porque suas tribulações são provenientes da fé e de uma santa conduta de vida. Para o autor da epístola, diante das tribulações do mal, a resposta do cristão deve ser o bem, a caridade, a obediência (como conduta diante dos poderes públicos) e a docilidade com todos.

Sobre a autoria, o autor se apresenta como Pedro, apóstolo de Jesus Cristo (1,1), um “testemunho dos sofrimentos do Messias (5,1). Desde Eusébio até o século XIX, a epístola foi considerada obra do chefe dos Apóstolos. Baseando-se em 1Pd 1,1; 5,1.12-13, o autor seria Pedro, em idade muito avançada, provavelmente exilado (em Roma) com o discípulo João Marcos. Teria ainda a ajuda de Silvano (Silas), homem estimado pela comunidade judaico-cristã de Jerusalém e que devia ter uma boa relação com Pedro. Todavia, em tempos modernos, alguns argumentos se fizeram notar contra a autenticidade de um escrito petrino de próprio punho ou contemporâneo ao apóstolo:


a) O estilo literário e a linguagem adotada pela epístola são de grande valor para serem considerados provenientes de um pescador da Galileia, considerando a pouca instrução (ao contrário dos escribas) característica dessa profissão. Exemplo desse grego acurado é 1Pd 1,3-12, um verdadeiro hino artístico;

b) Papias, do século II, apresenta que Pedro precisou servir-se de Marcos como intérprete, o que sugere um grego rudimentar do chefe dos apóstolos, tradicionalmente vinculado à língua materna (hebraico e aramaico);

c) As citações do Antigo Testamento são tiradas dos LXX e mostram ser bem conhecidas do autor. Dificilmente um palestinense como Pedro deixaria de usar o texto original, com expressões aramaicas ou massoréticas, para optar pela tradução grega;

d) A fraseologia e as ideias oferecem surpreendentes ligações reminiscentes das cartas paulinas. Este é o argumento mais determinante para negar que o escrito seja escrito pelo próprio São Pedro. É muito difícil sustentar que um representante do judeu-cristianismo tenha uma teologia assim próxima a Paulo;

e) A insistência da epístola sobre a perseguição e os sofrimentos exigem uma datação posterior à década de 60, o que não concordaria com a data da morte de Pedro;

f) O primeiro escritor eclesiástico a citar a 1ª Pedro foi Policarpo de Esmirna (data muito posterior à vida do Apóstolo Pedro).

Estes e outros argumentos a eles ligados conduziram os exegetas a afirmarem que esta epístola é uma pseudoepigrafia, uma obra publicada sob o nome de um venerável personagem do passado, adquirindo um peso na tradição da força do testemunho desse personagem. Tal prática, muito comum na Sagrada Escritura, não é incompatível com a inspiração divina.

É verdade que estes argumentos não são 100% de provas conclusivas e a epístola continua alvo de novos estudos, especialmente considerando 1Pd 5,1-2: “Por Silvano... vos escrevi em poucas palavras ...”. Se essa afirmação significa que Pedro tenha utilizado os serviços de Silvano (ou Silas - tradicional companheiro de Paulo (Cf 1Ts 1,1; 2Ts 1,1; 2Cor 1,19; At 15,22.27.32.40), a exemplo dos colaboradores de Paulo, teria em Silvano um secretário e a substância central da epístola lhe teria sido ditada, recebendo de Silvano a fraseologia grega e a linguagem semelhante a Paulo. Pode-se comparar 1Pd 5,10-11 com 1Ts 5,23-28 e 2 Ts 2,13-17. Silas teria recolhido o ensinamento catequético e moral de Pedro, sendo que este acrescentaria uma saudação pessoal final (1Pd 5,12-14). Contudo, isto não é uma solução plena, pois a indicação de Silvano poderia ser não a do secretário, mas apenas a do portador dos escritos, além da permanência do problema da data, pois Silvano também era contemporâneo de Pedro e Paulo, período no qual não existiam ainda as grandes perseguições por parte dos romanos (tribulações).


Em nosso próximo artigo, conheceremos um pouco mais sobre data, destinatários, local de composição e a mensagem central da 1ª Carta de Pedro.

Padre Marcelo Lázaro

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