Primeira Carta de Pedro

Atualizado: 14 de Dez de 2020

Continuando nossa caminhada de conhecimento sobre a primeira Carta de Pedro, tudo indica que a epístola foi escrita num período posterior às primeiras perseguições em grande escala, por parte do Império Romano. A primeira perseguição universal foi no reinado do imperador Domiciano (81-96), período bem posterior à morte de Pedro e da primeira geração de cristãos (que conviveram diretamente com os apóstolos). A 1Pd deve ter sido escrita no último decênio do primeiro século. Alguns exegetas a situam no início do século II, diante da perseguição de Trajano, quando o nome de Cristo era motivo de perseguição e sofrimento por parte dos romanos (1Pd 4,14).


O local do escrito foi provavelmente Roma, sede do império e centro das perseguições. A referência de 1Pd 5,13 sobre Babilônia coloca esta cidade como pseudônimo de Roma. A referência a Marcos (1Pd 5,13) concorda com Roma como lugar, a partir de 2Tim 4,11. A referência a Roma em paralelo com Babilônia ecoa a destruição de Jerusalém (pelas mãos da Babilônia antiga (587 a.C.) e pelas mãos da nova Babilônia (70 d.C.). Mais uma prova de datação posterior à morte de Pedro (que ocorreu aproximadamente em 64 d.C.).

As comunidades cristãs estavam sofrendo fortes pressões: eram caluniados, humilhados, sofrendo suspeitas, oposição e acusados de subversão. Havia um grande desprezo e marginalização dos cristãos pela sociedade dominante. Eles sofriam por serem cristãos. As comunidades eram chamadas a continuar testemunhando o cristianismo, mesmo diante das perseguições.

Para os partidários da autoria petrina, a epístola teria que ser anterior ao ano de 64, data tradicional da morte de Pedro, em Roma. Se a autoria é de Silvano (Silas), poderia ser em um período posterior, motivada pelo desejo de se recolherem as homilias, os ensinamentos e pregações de Pedro.


Quanto aos destinatários, a Epístola é dirigida aos cristãos da Ásia Menor para confortá-los, consolá-los e reanimá-los (5,2) na vida cristã, vida esta na qual foram inseridos pelo batismo. A epístola tem como destinatários os “eleitos que moram na diáspora do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1,1), ou seja, os judeus-cristãos e cristãos vindos dos gentios que vivem na zona norte e leste da Ásia Menor (1Pd 1, 14-18; 2,9-10; 4,3-4). Todos os nomes são de províncias romanas. A falta de lógica sequencial das províncias mostra que o autor não habita nelas, nem as conhece profundamente.

A diáspora não designa a dispersão dos judeus, mas sim, de forma figurada, dos cristãos que, como novo povo de Deus (2,10), se encontram espalhados como estrangeiros no mundo, não tendo uma verdadeira pátria. O texto indica que a Epístola foi escrita a uma comunidade composta por membros provenientes de diversos lugares. São cristãos que, antes de se converterem, devem ter tido contato com os cultos de mistério (1Pd 1,3; 2,2.12). A estes cristãos o autor convida a crescer na fé, a viver a autenticidade desta, mas principalmente a resistir como o novo Povo de Deus.


Quanto ao gênero e estilo, a Epístola é escrita em bom grego, simples, mas muito correto e harmonioso. O vocabulário é rico e notavelmente original. O estilo literário da epístola denota uma classe retórica. Ainda: notórias são as afinidades doutrinárias e literárias com outras obras, sejam do Antigo Testamento, sejam da tradição apostólica. A caracterização como epístola se dá apenas na introdução e conclusão do texto.

Quanto à estrutura, não é evidente quanto à ligação entre as passagens textuais. A impressão transmitida é de pequenos trechos que foram unidos posteriormente pelo redator final, como uma coleta de pequenas homilias. Isto colabora com a ideia de que os textos que compõem a epístola tenham sido originariamente textos a serviço da liturgia.


Concluímos essa introdução apresentando uma visão geral sobre os temas da Epístola. Existem temas específicos para cada unidade literária da epístola. O primeiro tema é o argumento doutrinal da regeneração no batismo. O segundo tema parte da situação dos batizados como já concreta, à qual se oferecem muitos conselhos de comportamento, de acordo com as várias categorias de pessoas. O terceiro sublinha a tensão da plenitude dos tempos e, diante desse futuro, convida à vigilância contra o poder das trevas. A epístola exorta à espera da salvação definitiva.

Outra característica temática é a dimensão de exílio, a condição de estrangeiro do cristão, como sinal da precariedade de se estar longe de casa. O autor procura dirigir-se aos cristãos que se sentem peregrinos neste mundo, estrangeiros nesta terra marcada pelo mal, no longo caminho em direção à verdadeira pátria, o Céu. Dentro deste tema surge outro: o estado de perseguição caracteriza toda a obra e oferece uma ideia da real situação vivida pelas primeiras comunidades (1Pd 1,6; 2,12-15; 3, 13-17; 4, 12-16). Hostilidade, calúnia e desprezo sofridos pela comunidade parecem contrastar com o pedido de respeito e estima para com a autoridade romana (1Pd 2,13-14). O autor desenvolve o tema de “pagar o mal com o bem”, como característica cristã. Em toda a epístola percorre o tema da finalidade do escrito: sustentar a fé dos cristãos diante da incompreensão do mundo e das provações sofridas pela Igreja nascente.


Em nosso próximo artigo, iremos adentrar o texto propriamente dito da Primeira Carta de Pedro.


Padre Marcelo Lázaro

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