Primeira Carta de Pedro

Atualizado: Fev 16

Continuando nossa reflexão acerca da Primeira Carta de Pedro, tendo conhecimento das noções iniciais quanto autoria, destinatários, data e contexto, somos chamados a mergulhar na estrutura do próprio texto. Ele possui uma introdução e conclusão bem definidas: 1Pd 1,1-2 e 1Pd 5,12-14, que são tipicamente epistolares. As demais partes são caracterizadas por exortações aos cristãos de como conduzirem suas vidas mediante o Cristo Jesus. Entre as possíveis formas de estruturarem a 1 Pedro, em seus 5 capítulos, podemos ver:


Endereço e saudação (1,1-2)

Bênção pela revelação da salvação em Jesus Cristo (1,3-9)

Cumprimento da salvação prevista pelos profetas (1,10-12)


I - Primeira série de exortações: buscar viver na santidade para construir a casa de Deus (1,13-2,10)

a) Um êxodo para a santidade: ser santos pela graça (1,13-21)

b) A Palavra de Deus recria para a vida fraterna, através do amor sincero (1,22-2,3)

c) Cristo como pedra fundamental da Casa de Deus, do povo sacerdotal (2,4-10)


II – Segunda série de exortações: uma submissão responsável, a exemplo de Cristo Servo (2,11-3,12)

a) O testemunho da vida quotidiana (2,11-12)

b) Submissão responsável às autoridades (2,13-17)

c) Submissão dos servos, a exemplo de Cristo (2,18-25)

d) Relações entre esposa e esposo (3,1-7)

e) Bênção prometida aos misericordiosos (3,8-12)


III – Terceira série de exortações: diante das perseguições, manter a esperança por causa da vitória de Cristo (3,13-4,11)

a) Dar razões de sua esperança, a fidelidade na perseguição (3,13-17)

b) A paixão de Cristo e sua pregação aos espíritos: condição de sua vitória universal

Cristo morreu pelos injustos e pecadores (3,18-22)

c) Rompimento com o pecado; vida nova segundo o Espírito (4,1-6)

d) Servir uns aos outros; comportamento com caridade é a plenitude da Lei (4,7-11)


IV – Quarta série de exortações: vigilância na provação (4,12-5,11)

a) A felicidade prometida aos perseguidos; a alegria no sofrimento (4,12-19)

b) Os deveres pastorais dos presbíteros: assistir bem o rebanho (5,1-4)

c) A humildade e a firmeza na fé geram o testemunho cristão (5,5-11)


Conclusão e saudação (5,12-14)


Sobre estes textos, podemos identificar alguns elementos doutrinais que emergem da 1ª Pd, que são sobretudo ligados à pregação cristã sobre o batismo, em particular ao banho regenerador do cristão (1Pd 1,3.23; 2,2); ao valor redentor da paixão de Cristo (1Pd 1,2-3.19; 2,21-25) e à apresentação da Igreja como “povo sacerdotal” (1Pd 2,9-10). O autor desenvolve a teologia da pregação apostólica sobre Cristo, a “pedra de fundamento, a pedra angular” da nova construção eclesial (cf. Mt 21,42-43; At 4,11) e aplica esta imagem a cada cristão que, unido a Cristo, se torna ele mesmo uma pedra para a construção da Igreja, como edifício espiritual.

No antigo sacerdócio institucional de Israel é inaugurado um novo sacerdócio existencial pelo qual cada pessoa, unida a Jesus Cristo, é habilitada a oferecer a própria existência como um sacrifício agradável a Deus Pai. A comunidade cristã tornou-se herdeira das antigas prerrogativas de Israel e um povo sacerdotal, uma nação santa, um sacerdócio real (1Pd 2,9-10).

A 1Pd ressalta a figura de Jesus ao longo da epístola, dando muita importância à paixão de Cristo, ligada às repetidas ordens de submissão e aceitação da vontade de Deus, especialmente em caso de perseguições. Mas 1Pd não induz a uma teologia “da dor” ou da “aceitação como resignação”. A teologia petrina convoca ao kerygma centrado na paixão e ressurreição de Jesus, fazendo uma síntese da tradição sinótica sobre os ensinamentos de Jesus. Embora não existam citações das falas do Mestre, existem alusões ao sermão da montanha, como o exemplo do “bem-aventurados os perseguidos” (Cf. Mt 5, 10-12) que alude a 1Pd 2,20; 3,14-17; 4,14. A palavra de Jesus é viva e sempre atuante na comunidade.



Não há necessidade de Pedro repetir o discurso de Jesus, pois Cristo é sempre presente e atuante como Palavra viva na Igreja.

Ao falar da Paixão de Cristo, o autor cita Isaías 53, desenvolvendo também a tipologia do cordeiro pascal, apresentando a morte de Cristo como sacrifício oferecido pelos pecados da humanidade. Entretanto, como a paixão não pode ser desvinculada da ressurreição, a fórmula de profissão de fé na ressurreição se faz presente no texto: nós cremos em Deus que ressuscitou Cristo dentre os mortos (1,21).

Para 1Pd a ressurreição tem valor salvífico; é o sinal da nova criação (1,3) e constitui o templo habitado pelo Espírito Santo (2,4s). A ressurreição de Cristo abre a esperança para o futuro, mas inclui uma renovação já presente no mundo. A provação e a tribulação não são aceitas com uma resignação passiva, mas como um caminho no qual é necessário avançar, suportar e vencer para se unir a Jesus Cristo Ressuscitado. Os cristãos não devem vingar-se ou abandonar à própria sorte seus perseguidores ou caluniadores. Devem ter para eles uma resposta como a de Cristo: oferecer a seus perseguidores e inimigos a possibilidade de conversão (2,12).


Continuaremos em nosso próximo artigo a busca da compreensão da teologia da Primeira Carta de Pedro, voltada para a cristologia e a vida da Igreja.


Padre Marcelo Lázaro

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