Primeira Carta de Pedro

Atualizado: Abr 5

Continuando nossa reflexão sobre a Primeira Carta de Pedro, vemos que ela desenvolve a teologia da cristologia, a exemplo das cartas de Paulo (Colossenses e Efésios) ou como a epístola aos Hebreus (Sacerdócio único de Cristo). Mas a 1Pd desce ao nível prático da vida cristã, mostrando as consequências da fé em Jesus Cristo, vivenciadas de forma concreta. Crer e professar a fé em Jesus Cristo, o Servo Sofredor e Messias real assentado à direita de Deus (3,22) é se deixar guiar pelo modelo de Cristo na vida cristã. E isto deve ser vivido dentro da Igreja.


O termo Igreja não aparece no escrito, mas a temática é constante na epístola, chamando a Igreja de vinculada na “confraternidade” (1Pd 5,9). É vista como a comunidade dos fiéis dispersos, levando vida análoga aos patriarcas em caminho para a Terra Prometida, para a Pátria definitiva. Como o Povo de Deus no Antigo Testamento caminhou pelo deserto em busca da Terra Prometida, a Igreja caminha no deserto da vida terrena em busca do Paraíso, do Reino de Deus.


Os problemas de dispersão da comunidade ou as tribulações vividas por ela não podem diminuir a unidade e a santidade, que são as características da Igreja de Jesus Cristo. A 1Pd mostra que a maioria da Igreja vem do povo pagão (não seu povo – 2,10, ou seja, o povo judeu). Como Paulo afirma, a salvação vem para todos. Esta Igreja é como um corpo que louva a Deus, ou seja, os fiéis são convidados a desempenharem o múnus sacerdotal de louvar e testemunhar o Senhor Jesus Cristo. Toda a vida de um fiel, do batismo ao encontro na parusia, é chamada ao valor sacrificial. Todos os fiéis devem contribuir, cada um a seu modo, para a vitalidade da Igreja. Todos os fiéis são responsáveis pela Igreja, especialmente os presbíteros, encarregados de assegurar a unidade do rebanho de Cristo e de mostrar o exemplo de Jesus, seguindo eles mesmos o Cristo Bom Pastor.

A salvação é ofertada ao fiel no batismo. A epístola usa a imagem da arca de Noé, comparando o batismo como meio de salvação e acompanhado da fé, implicando uma completa ruptura com o pecado. Da fonte batismal, fecundada pelo Cristo Jesus, surge a nova realidade da Igreja, que é o templo de Deus, povo sacerdotal, nação santa que oferece a Deus sacrifícios espirituais agradáveis a Ele. A Igreja tem a missão de fazer conhecer aos homens todas as obras maravilhosas de Deus. A vida da Igreja é exercer os dons e carismas concedidos pelo Senhor, sendo o papel pastoral confiado aos presbíteros (5,1-4).


O cristão deve esperar a realização plena na parusia, precedida do juízo dos vivos e dos mortos (4,5). A vida cristã é uma passagem, uma peregrinação sobre a terra, na espera da salvação definitiva, da herança que consiste em codividir a glória eterna do Cristo Ressuscitado (1,3-9; 5,4.10). Os cristãos são como crianças que, tendo experimentado como é bom o Senhor, devem pedir o “puro leite espiritual” para “crescer” em direção à salvação final (2,2-3). Neste crescimento não faltarão sofrimentos e tribulações. Todavia, com paciência, eles se tornarão meios pelos quais os cristãos imitam Cristo Jesus (2,21), purificam a própria fé e caminham para a glória. O sofrimento não deve ser nunca um retrocesso na vida moral e da graça do cristão, mas um aproximar-se de Cristo na cruz.


Este viver segundo o modelo de Cristo passa pela vida moral, pessoal e comunitária (Igreja). Cada cristão deve ser exemplar na caridade, colocando-se generosamente a serviço uns dos outros. Todos devem ter conduta irrepreensível, submetendo-se às autoridades por amor do Senhor. Por submissão, não devemos entender renúncia da vontade ou liberdade, mas oferta livre para que reine a concórdia e respeito entre patrões e empregados, entre marido e mulher. Entre os irmãos devem reinar a concórdia e a solidariedade (2,11-3,12). Assim vivendo, o cristão recupera sua dimensão missionária, ordenada pelo Cristo Jesus. Como povo sacerdotal, os cristãos têm a missão de proclamar as obras maravilhosas de Deus, mas fazem isto através de sua boa conduta, da paciência diante dos sofrimentos e falando da própria esperança de vida eterna no céu (3,1.14-16).


Padre Marcelo Lázaro

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