Quaresma: sinais, palavras e gestos de um tempo de conversão


A Quaresma de 2021, Ano de São José, começa em 17 de fevereiro, quarta-feira de cinzas. É o “tempo forte” que prepara a Páscoa, o ponto culminante do ano litúrgico e da vida de cada cristão. Como diz São Paulo, é “o momento propício” para empreender “um caminho de verdadeira conversão”, para “enfrentar vitoriosamente com práticas penitenciais a luta contra o espírito do mal”: lemos na Oração da Coletiva do início da missa da quarta-feira de cinzas. Este itinerário de quarenta dias que conduz ao Tríduo Pascal, memória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, coração do mistério da Salvação, é um tempo de mudança interior e de arrependimento em que o cristão é chamado a voltar a Deus com tudo o coração “para não se contentar com uma vida medíocre” (Papa Francisco, na Mensagem para a Quaresma de 2017).

A liturgia fala da Quadragésima, ou seja, um tempo de quarenta dias. A Quaresma lembra os quarenta dias de jejum vividos por Jesus no deserto, antes de iniciar sua missão pública. No Evangelho de Mateus 4, 1-2, lemos: “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. Depois de jejuar por quarenta dias e quarenta noites, ele finalmente sentiu fome”.


Quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos marcantes da experiência de fé do Povo de Deus. É uma figura que expressa o tempo de espera, de purificação, de retorno ao Senhor, de consciência de que Deus é fiel a suas promessas. No Antigo Testamento, são quarenta dias do dilúvio universal (Gn 7,17), quarenta dias que Moisés passou no Monte Sinai (Ex 24,18), quarenta anos em que o povo de Israel vagou pelo deserto (Dt 29,4) antes de chegar à Terra Prometida, quarenta dias da jornada do profeta Elias para chegar ao Monte Horeb (1Rs 19,8), quarenta dias que Deus permite que Nínive se converta após a pregação de Jonas (3,4).

Nos Evangelhos, também há os quarenta dias durante os quais Jesus ressuscitado instrui os seus, antes de subir ao céu e enviar o Espírito Santo (At 1,3). Voltando à Quaresma, é um

acompanhar Jesus que sobe a Jerusalém, lugar do cumprimento de seu mistério de Paixão, Morte e Ressurreição e lembra que a vida cristã é um caminho a seguir, que consiste nem tanto numa lei a cumprir, mas na pessoa do próprio Cristo, para ser encontrado, para ser acolhido, para ser seguido (Bento XVI, 2011).



A quarta-feira de Cinzas é um dia de jejum e abstinência de carne (assim como é a sexta-feira Santa, enquanto nas sextas-feiras da Quaresma somos convidados a nos abstermos de carne). Como recorda um dos prefácios da Quaresma, com o jejum quaresmal é possível vencer nossas paixões e elevar o espírito. Durante a celebração da Quarta-feira de Cinzas, o sacerdote coloca um pouco de cinza benta na cabeça ou na testa das pessoas. Segundo o costume, as cinzas são obtidas queimando os ramos de oliveira abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. A cinza imposta na fronte é um sinal que nos recorda nossa condição de criaturas e exorta à penitência.

Ao receber as cinzas, o convite à conversão se expressa com uma fórmula dupla: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) ou “Tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19). O primeiro apelo é à conversão, o que significa mudar a direção no caminho da vida e ir contra a corrente (onde a corrente é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório). A segunda fórmula refere-se aos primórdios da história humana, quando o Senhor disse a Adão, depois da culpa das origens: “Com o suor de teu rosto comerás o pão, até voltares à terra, porque dela foste tirado: tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). A Palavra de Deus evoca a fragilidade, antes, a morte, que é sua forma extrema. Entretanto, se o homem é pó, é um pó precioso aos olhos do Senhor, porque Deus criou o homem, destinando-o à imortalidade.

O jejum, a esmola e a oração são os sinais pelos quais vivenciamos verdadeiramente o espírito quaresmal. O jejum significa a abstinência de comida, mas compreende outras formas de privação para uma vida mais sóbria. O jejum está ligado à esmola. São Leão Magno ensinava em um de seus discursos sobre a Quaresma:

Aquilo que cada cristão deve realizar em todos os tempos, agora deve praticá-lo com maiores solicitude e devoção, para que se cumpra a norma apostólica do jejum quaresmal, que consiste na abstinência não apenas dos alimentos, mas também e sobretudo dos pecados. Além disso, a estes jejuns obrigatórios e santos, nenhuma obra pode ser associada mais utilmente que a esmola que, sob o único nome de misericórdia, inclui muitas obras boas (Discurso 6 sobre a Quaresma, 2: PL 54, 286).


Assim, o jejum é santificado pelas virtudes que o acompanham, especialmente pela Caritas, por todo gesto de generosidade que dá a Quaresma aos pobres e necessitados o fruto de uma privação. Não é por acaso que a Campanha da Fraternidade é promovida pela Igreja no Brasil.

Além disso, a Quaresma é um tempo privilegiado para a oração. Santo Agostinho diz que o jejum e a esmola são as duas asas da oração, que lhe permitem tomar mais facilmente seu impulso de chegar até Deus (Cf. Sermão 206, 3 sobre a Quaresma: PL 38, 1042). E São João Crisóstomo exorta:

Adorna a tua casa de modéstia e humildade, mediante a prática da oração. Torna maravilhosa a tua habitação com a luz da justiça; ornamenta as suas paredes com as boas obras, como de um verniz de ouro puro, e no lugar dos muros e das pedras preciosas, coloca a fé e a magnanimidade sobrenatural, pondo acima de todas as coisas, no auge de tudo, a oração como decoração de todo o conjunto. Assim preparas uma moradia digna do Senhor, assim o recebes numa mansão maravilhosa. Ele conceder-te-á transformar a tua alma em templo da sua presença (Homilia 6 sobre a Oração: PG 64, 466).


Como no Advento, também na Quaresma a liturgia propõe alguns sinais que em sua simplicidade ajudam a compreender melhor o significado deste tempo. Como já aconteceu nas semanas anteriores ao Natal, na Quaresma as vestes litúrgicas do sacerdote mudam e tornam-se roxas, cor que sugere um caminho sincero de conversão. Além disso, durante as celebrações não encontramos mais flores adornando o altar, não recitamos o Glória e não cantamos o Aleluia.

Ainda vivenciamos uma situação de saúde pública gravíssima por causa da pandemia da Covid-19, que continua exigindo uma série de protocolos nos atos litúrgicos. A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou em seu site as disposições a serem seguidas no rito de imposição das Cinzas, em nossas igrejas, em 2021. As novas disposições são: após a oração de bênção das cinzas e aspersão com água benta, o sacerdote diz uma única vez, para todos, a fórmula que se encontra no Missal Romano: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho” ou “Lembra-te que és pó da terra e à terra voltarás”. Em seguida, lava as mãos, coloca a máscara protegendo o nariz e a boca, e impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele ou, se for mais conveniente, aproxima-se dos que estão de pé. O sacerdote pega as cinzas e deixa-as cair sobre a cabeça de cada um, sem dizer nada (cf. cultodivino.va). Depois, segue-se a Missa normalmente. O tempo da Quaresma se encerra na Quinta-feira Santa, celebração da Ceia do Senhor, quando começa o tríduo pascal.


Padre José Rinaldo da S. Trajano

Mestre em História da Igreja, pela Pontifícia Universidade Gregoriana

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