Santa Teresinha como doutora: o reflorescimento da doutrina cristã em meio à heresia

‘‘Meus imensos desejos me eram um autêntico martírio. Fui, então, às cartas de São Paulo a ver se encontrava uma resposta’’ (Manuscritos Autobiográficos, 227)

No período histórico (Século XVII e XVIII) em que a França estava imersa na heresia jansenista, que apregoava um rigorismo moral, desvios abomináveis sobre a doutrina da graça e do pecado, floresceu no Carmelo da pacata cidade de Lisieux, uma ‘pequena via (doutrina)’ de espiritualidade genuína, que conduzira os cristãos de volta à verdade da fé. Uma pequena via evangélica que marcaria toda família carmelita francesa: Teresa Martin, que assumira o nome religioso (de consagração) de Teresinha do Menino Jesus.

O que uma simples freira de um carmelo francês teria a ver com a questão jansenista e os desvios de fé praticados naquela época? Respondo esta questão com o pensamento de um dos grandes teólogos do século XX, Yves Congar, de que ‘‘houveram dois ‘faróis atômicos’ que a Providência acendera na beira do século XIX: Charles de Foucauld (místico francês) e Teresa de Lisieux’’.

De fato, podemos pensar que não há nada a ver sobre a crise doutrinária/moral que a Igreja enfrentava naquela época com nossa santa das rosas, mas o farol atômico de que Yves Congar fala não é meramente espiritual, mas doutrinário. A chamada ‘pequena via’ de Santa Teresinha é um reequilíbrio entre a lei e a graça diante do abandono total a Deus e à sua infinita bondade e misericórdia (o Bom Deus). Lei e graça, o foco que estava em questão naquele período da história da Igreja. Os jansenistas, que, influenciados pela doutrina luterana de que a natureza decaída do homem não era capaz de fazer coisas boas, que nega o livre-arbítrio diante dos homens e de Deus, e que tudo é somente advindo da graça de Deus, sem considerar o papel da consciência do fiel, haviam contaminado grande parte da Igreja.

Desconsiderar o papel do homem é desconsiderar toda história da salvação que se faz mediante um ‘Sim’ particular, o ‘Sim’ de Maria, atitude que brotou do livre-arbítrio e que trouxe o Salvador ao mundo. Santa Teresinha de Lisieux é um ‘farol atômico’ no meio disso tudo; atômico, porque retorna à verdade da fé, ao átomo da crença no Deus verdadeiro e na retidão de seus ensinamentos: o ser criança mediante o amor.

Dentro dos escritos autobiográficos de Santa Teresinha (História de uma alma), a edição exegética (analítica dos textos de Teresinha) do Padre Conrad DeMeester (intelectual carmelita belga e exegeta teresiano) traz a nomenclatura do Manuscrito M, que é o último manuscrito, dentro do conjunto de três manuscritos (A, G e M), e que trata da doutrina propriamente dita de Santa Teresinha, e que é a base para compreender o reflorescimento espiritual e doutrinário proposto por nossa santa francesa naquele contexto de heresias.

Este Manuscrito M, que traz a doutrina da ‘pequena via’, expressa os sentimentos que todo cristão deveria ter para com o seu Deus. Expressa o seguimento de uma ordem dada pelo próprio Jesus. O Senhor diz que ‘‘se não mudardes e não vos tornardes como crianças, nunca entrareis no Reino dos Céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus’’ (Mt 18, 3-4).

Ser criança não é ser simplesmente pura, no sentido moral. O sentido bíblico é outro: ser criança é se abandonar aos cuidados do adulto. O adulto na Bíblia é o Pai (Deus), que olha por seus filhos e que não quer sacrifícios e holocaustos, mas um coração arrependido e disposto a amá-Lo. Ser criança é amar verdadeiramente, sem o declive das paixões, e se entregar por amor. Qual criança não confia nos pais que a educam e amam? Qual criança não obedece os pais quando se encontram no erro? Qual criança não segue o exemplo do pai, não escutando meramente o ensinamento paternal, mas o colocando em prática?

Mas por que Jesus fala em ‘‘se humilhar como esta criança’’? Porque as pessoas não estão acostumadas a confiar, a se abandonar aos cuidados de Deus. Pedimos em nossas orações, mas a insegurança, a incerteza cerca os nossos corações. Não confiamos verdadeiramente em ninguém, e o fato de fazê-lo nos coloca em nossa fragilidade, pois confiança é abertura a Deus e ao outro. O problema é que não confiamos verdadeiramente, nem em Deus, tampouco no outro, porque não queremos nos abrir.

Santa Teresinha é uma feixe de luz para o seguimento da doutrina do Senhor, pois ela se fez criança: ‘‘minha desculpa é que sou uma criança’’ (M 4r). E ela tem muito a nos ensinar quando diz que

‘‘Tudo o que Jesus reclama de nós é o nosso amor (…) Ele tinha sede, mas ao dizer ‘dá-me de beber’ era o amor da sua pobre criatura que o Criador do universo reclamava. Ele tinha sede de amor.

Ah, sinto-o mais do que nunca que Jesus está sedento, e ele só encontra ingratos e indiferentes entre os discípulos do mundo e entre seus próprios discípulos encontra poucos corações que se entregam a Ele sem reserva, que compreendem toda a ternura de seu Amor infinito…’’

(M 1v)  

Neste dia de Santa Teresinha e em todos os dias de nossa vida façamos a experiência de ser criança, façamos como nossa santa doutora, que reequilibra a lei e a graça; que nos fala sobre o abandono do cristão diante da graça de Deus, mas que não desresponsabiliza a consciência humana diante disso, mas exorta-nos a não sermos indiferentes e ingratos diante da sede de amor do Senhor. Façamos como Santa Teresinha do Menino Jesus: sejamos crianças do Menino Jesus!

‘Jesus se compraz em mostrar-me o único caminho que conduz a essa fornalha Divina, esse caminho é o abandono da criança pequena que adormece sem medo nos braços de seu Pai’’

(Santa Teresinha, M 1r)

Seminarista Pablo Henrique 2º ano de Teologia

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