Segunda Epístola de Pedro

Convido a todos para iniciarmos um novo itinerário bíblico, buscando conhecer a II Carta de Pedro, um dos escritos conhecidos como Cartas Católicas. A 2Pd é um dos escritos conturbados do NT, com dificuldades quanto a autoria, data e objetivo. Da mesma forma, as relações textuais com escritos do AT e NT, além das tradições apocalípticas do judaísmo, constituem desafios para um bom entendimento desta epístola. Um dos objetivos do texto era prevenir seus leitores (os cristãos em geral) contra a invasão de falsas doutrinas (2Pd 2), lembrando-lhes as verdades fundamentais da fé, como a participação na natureza divina pela graça (2Pd 1,4), o caráter inspirador das Escrituras (2Pd 1,20s) e a certeza da parusia futura (2Pd 3,3-13). Como nos outros artigos, iniciaremos com a contextualização do texto sobre autoria, datação, destinatários, composição textual para, enfim, adentrarmos o texto na busca da mensagem bíblica.


Autoria:

O autor da 2Pd foi motivo de discussão no início da tradição. Nos três primeiros séculos, os escritores cristãos hesitavam sobre a autoria petrina da Epístola. Somente no século IV firmou-se o consenso sobre o nome do Apóstolo Pedro para a atribuição epistolar. Como em todas as análises, existiram pontos favoráveis e contrários à autoria petrina.

A autoria petrina se basearia no nome com o qual o autor se apresenta em 2Pd 1,1: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo...”. Tal pensamento é reafirmado a partir do mencionar de uma epístola anterior, dirigida aos mesmos leitores, e que seria considerada como sendo a 1Pd (“Amados, esta já é a segunda carta que vos escrevo” – 2Pd 3,1) e, por fim, a designação de “nosso amado irmão” atribuída a Paulo, em 2Pd 3,15. Entretanto, o texto padrão seria de 2Pd 1,17, onde o autor se coloca como estando presente no alto do Monte Tabor, no momento da Transfiguração de Jesus Cristo, sendo ele um dos ouvintes da voz de Deus Pai: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo”.

Por outro lado, muitas exegetas apresentam dificuldades em se aceitar a autoria petrina para a 2Pd. Primeiramente, a linguagem e o estilo da 2Pd diferem muito dos vistos na 1Pd, onde a maioria das palavras são diferentes, mesmo ao indicar os mesmos acontecimentos (acerca do evento “Jesus Cristo”, por exemplo). Também, a 2Pd 3,16, logo após a citação do “nosso amado irmão Paulo”, apresenta algo que Paulo já teria referido em suas cartas, dando a impressão de que as cartas paulinas já se encontravam reunidas numa só coleção. Isto deveria supor um certo intervalo de anos após a morte de Paulo (entre 64 e 67 d.C.). Uma vez que a morte de Pedro é contemporânea à de Paulo, segundo a tradição apostólica, a data posterior da 2Pd implicaria necessariamente um outro autor, que teria vivido depois da morte do apóstolo Pedro.


Neste contexto, os exegetas se dividem: alguns admitem um redator para a 2Pd, a exemplo da 1Pd 5,12, que indicava Silvano como possível redator da epístola por ter convivido com Pedro nos últimos anos. Outros, porém, julgam que seja um discípulo de Pedro, posterior a ele, e ainda desconhecido. Ele poderia ter apresentado seu próprio escrito e atribuído a Pedro para gozar de mais autoridade, prática muito comum na época. Provavelmente este discípulo faria parte do grupo que dependia da pregação do Apóstolo Pedro. A 2Pd pertenceria, pois, aos escritos pseudo-epigráficos (atribuídos a um outro autor).

Uma última confirmação disto, além do teor linguístico e de estilo literário, são as diferenças gerais entre as epístolas. Enquanto a 1Pd se recomenda por seu caráter evangélico e contém um quadro da vida cristã, a 2Pd apresenta fórmulas complicadas (2Pd 1,19-21; 2, 4-16), não muito acessíveis ao leitor. Um outro exemplo desta dificuldade é o tema da parusia (bem presente na 1Pd), que se torna um problema teológico na 2Pd 3,3-10. Com isso, ainda que seja de um discípulo direto ou posterior de Pedro, o autor das duas epístolas petrinas não poderia ser a mesma pessoa.


Data:

Tudo indica que a epístola foi escrita num período posterior ao Apóstolo Pedro. Por isso, abandonando os defensores da autenticidade petrina (que, por força, deveriam situá-la antes de 64, pois Pedro fala da proximidade de sua morte (2Pd 1,13-15), os biblistas tendem a considerar a 2Pd como o documento mais tardio do Novo Testamento, escrito por volta do ano 140, o que explicaria sua ausência nas citações dos Padres Apostólicos (entre 90 e 140). Por Padres Apostólicos entendemos os padres da Igreja que conviveram com os Apóstolos de Jesus, ou seja, aqueles que viveram no fim do século I e início do século II do cristianismo, entre eles Santo Inácio de Antioquia, São Policarpo de Esmirna, o autor da Didaqué, Pápias, entre outros. Não há referência da 2 Pd nos escritos desses autores.



Uma data assim tardia quanto ao restante do cânon possui como justificativas:

- a alusão às Cartas de Paulo como “Escritura” – 2Pd 3,16, o que indicaria, por força, a coleta dos escritos paulinos e a organização segundo um cânon já aceito por todos;

- a dependência literária da 2Pd em relação à epístola de Judas;

- as alusões ao Evangelho de Mateus (embora escrito no fim dos anos 70, sua propagação acontece num período posterior).

Estas três referências, o Evangelho de Mateus, a epístola de Judas e as Cartas Paulinas, obrigariam a datar a 2Pd no fim do período neotestamentário, isto é, primeiras décadas do século II.

Quanto ao local da composição, isto se mostra ainda mais incerto, considerando as perseguições já sofridas pelos cristãos por parte do Império romano. Diante das perseguições romanas, os cristãos fugiram e propagaram o evangelho por toda parte onde foram se refugiar. Alguns exegetas apresentam que a 2 Pd teria sido escrita em Alexandria, cidade importante do Egito, para onde muitos cristãos se tinham retirado em diáspora.


Em nosso próximo artigo continuaremos conhecendo um pouco mais da Segunda Epístola de Pedro.


Padre Marcelo Lázaro

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