Segunda Epístola de Pedro

Continuando nossa reflexão inicial sobre a II Carta de Pedro, somos convidados a conhecer os destinatários, o gênero da epístola e a situação da época vivida pela igreja quando a carta foi escrita.

A Epístola apresenta um destinatário não identificável com exatidão. Ela diz: “aos que receberam, pela justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, uma fé de valor igual à nossa” (2Pd 1,1). Os destinatários, apesar de não estarem explícitos, parecem ser pessoas que estão familiarizadas com a Escritura e com as tradições apocalípticas judaicas, às quais o autor faz numerosas alusões, sem nunca as citar explicitamente: os anjos culpados (2Pd 2,4), o dilúvio (2,5), Sodoma e Gomorra (2,6-7), estas três passagens do livro do Gênesis; também Balaão, filho de Bosor (2,15), no livro de Números, sempre se referindo ao Antigo Testamento e às tradições sobre a origem do mundo pela água e sua destruição pelo fogo. A única exceção se encontra em 2Pd 1,17, quando o autor se refere à voz de Deus na Transfiguração sobre a montanha, ou seja, sobre os evangelhos sinóticos, no Novo Testamento.


Embora a epístola mantenha o caráter “católico” em 1Pd 1,1, dirigindo-se aos cristãos de modo universal, ela dá ênfase a uma série de perigos concretos vividos pela comunidade. Isto geraria o pensamento de ser a epístola dirigida a um grupo específico ou reduzido de comunidades. Contudo, mesmo que se pudesse supor que esta epístola fosse para um grupo, outros acreditam que ela tenha sido destinada também a todas as pessoas que, vivenciando o cristianismo, esperavam o dia da parusia. A busca de fidelidade para não se cair nos castigos do passado formavam uma consciência geral, embora não se apresentem códigos ou normas de conduta ético-moral.

Sobre o gênero literário da 2Pd, nota-se o discurso em estilo de concessão ou de testamento, ou seja, como um testamento espiritual deixado por um grande líder religioso. O AT mostra exemplos deste gênero como o testamento dos Patriarcas, de Moisés, de Josué e também, no NT, vê-se Jesus no grande discurso de despedida de João 13-17. Diante da iminência ou certeza do fim, o pai/ líder deseja permanecer através de sua palavra e de seus conselhos na vida de seus filhos/discípulos. Ele recorda momentos importantes da sua vida partilhada com os que agora o rodeiam. Contemplando o futuro, apresenta exortações de conduta e de fé, fazendo recomendações para permanecerem fiéis e perseverantes na confiança e no amor recíproco.


A Epístola de 2Pd mostra conhecimento e familiaridade com termos provenientes do helenismo (ex.: “participantes da natureza divina” – 2Pd 2,4); uso das virtudes como relação com a vontade de Deus, no lugar da habitual prática da justiça, sempre presente nos textos bíblicos; uso de água na criação e fogo na destruição do mundo. Também a importância atribuída ao conhecimento é de influência mais greco-gnóstica do que judeu-cristã. Possui um estilo simples em quase todo o escrito, com exceção de 2,12-14 e 3,5-7, com uma estrutura mais confusa e complexa, como fruto de uma vivaz emoção no momento da escrita. Usa muito a repetição para enfatizar temas principais (1,3-7; 2,1-4; 3,10-12).

A 1Pd recorria muitas vezes ao AT. Já a 2Pd não faz nenhuma referência explícita aos textos veterotestamentários. Não significa que não faça uso, mas de forma indireta se refere a Provérbios, Salmos e Isaías. Faz alusão à criação, ao pecado dos anjos, ao dilúvio, à libertação de Ló e à história de Balaão. Mas não são referências textuais e sim de alusão. No lugar de citar tais passagens, a 2Pd parece usar outros escritos de tradição petrina, como o Apocalipse de Pedro, escrito apócrifo do ano 150 d.C., com o qual possui muito ligação lexical e concepções teológicas. Isto não significa que haja uma inclinação aos textos apócrifos, pois, ainda que use em demasia a Epístola de Judas, a 2Pd não emprega nada que seja apócrifo do AT, como faz o escrito de Judas.


Já o NT é mais recordado, embora também não seja muito citado. Recorda a 1Pd, mas parece não usar nenhum texto desta 1ª epístola. Menciona o conjunto das cartas paulinas (2Pd 3,15-16), mas não cita nenhum texto paulino, mesmo quando fala de temas semelhantes, como a filiação divina e a fé (2Pd 1,1-4). Conhece os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos (2Pd 3,2); entretanto, apresenta um único exemplo de todos os textos evangélicos: a transfiguração.

A 2Pd possui uma relação muito estreita com apenas um livro do NT: a epístola de Judas. Tal relação é tão intensa que se torna difícil determinar qual documento serviu de base para o outro. O consenso é que a epístola de Judas seja anterior à 2Pd.


Situação histórica da época da Epístola:

A 2Pd encontra-se em um período em que a Igreja está passando da época primitiva para a chamada era pós-apostólica. Até o fim do séc. I e início do séc. II, o cristianismo era vivido como novidade entusiasmante e espera ardente da volta gloriosa de Jesus Cristo. Contudo, após a morte dos apóstolos e da geração que havia convivido diretamente com eles, o tempo do Jesus terrestre começa a ficar no passado e a certeza de sua segunda vinda começa a distanciar-se num futuro incerto. A comunidade cristã começa a sofrer influências de pensamentos, religiões e mesmo ideias contrárias ao cristianismo (embora dentro das próprias comunidades = heresias) que ameaçam deturpar o mistério cristão e até mesmo a consciência moral das comunidades. É um período de incertezas e dúvidas que faz mais mal à fé cristã do que qualquer perseguição do império romano. A perseguição, o martírio, o sofrer e dar a vida pela fé em Jesus Cristo não causaram danos, mas alimentaram e fortaleceram a adesão ao Cristo. Todavia, o distanciar-se de Jesus histórico e dos apóstolos, as incertezas quanto ao futuro, entremeadas de ideias heréticas e cismáticas, estas sim foram as maiores dificuldades enfrentadas pela Igreja dos séculos posteriores à era apostólica.



O objetivo principal da 2Pd é fortalecer os leitores para que não percam sua prometida entrada no Reino eterno de Jesus Cristo (2Pd 1,11). Para isso, devem fortalecer-se na fé (2Pd 1,12s; 3,2) e opor-se aos falsos doutores na vivência e defesa do verdadeiro Evangelho.


Em nosso próximo artigo, continuaremos a reflexão sobre a estrutura textual e os temas teológicos da 2ª Pedro.


Padre Marcelo Lázaro

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