Segunda Epístola de Pedro

Atualizado: Set 8


Somos chamados a conhecer os elementos doutrinais vistos na 2Pd, que recordam a vocação cristã e as ameaças que esta vida cristã enfrenta, especialmente no interno da vida da comunidade, com os falsos profetas que desejam desanimar a comunidade diante da aparente demora do retorno de Jesus Cristo. Para conseguir seu intento, estes falsos profetas buscam iludir quanto a um outro tipo de interpretação da Sagrada Escritura, manipulando os textos sacros e unindo-os às tradições apocalípticas do AT.

O texto inicia dizendo que todos os cristãos são chamados a entrar no Reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Não como meros expectadores, mas como PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA (v.4). Esta é a única passagem do NT que fala explicitamente de natureza divina. Uma expressão grega que causa surpresa, especialmente porque é dita em um tom muito casual, como realidade conhecida por todos. Embora possa sugerir uma comunhão plena com a Trindade, o autor a emprega aqui para exprimir a vida nova de Cristo, vida esta que é plena, pois é comunicada por Deus Pai. A vida pertence somente a Deus e Ele a concede para a humanidade na Encarnação de Jesus, no seio da Virgem Maria e, de forma plenamente, na Ressurreição de Cristo. A humanidade é convidada a ser participante desta vida nova em Cristo Jesus. Os Padres gregos desenvolveram a teologia de “deificação”, a partir desta frase da 2Pd.


A epístola prossegue afirmando que as virtudes devem fazer parte da fé, num processo gradativo que passe pelas virtudes, conhecimento, autodomínio, perseverança, piedade, amor fraterno e caridade. Quem possuir as virtudes em abundância obterá todo o caminho consecutivo. Interessante notar que o texto parte da FÉ e termina com a CARIDADE. Ainda sugere que seja a perseverança (sustentada pela virtude da ESPERANÇA) a manter o cristão neste caminho de crescimento em Cristo Jesus. A mística, para 2Pd, está na prática do amor fraterno (v.7). A dedicação em seguir este Caminho, que é a fonte da Verdade, conduzirá à Vida, na “generosa entrada no Reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pd 1,11)

O texto continua falando da norma da verdade, não se deixando apenas em denunciar os falsos doutores, mas mostrando a importância da “tradição apostólica” na vida interpretativa das verdades do texto sacro da Escritura. O autor mostra a importância de recordar as verdades que os cristãos já possuem, especialmente estando ele perto de partir da vida terrena. Ele deseja que, como testamento final de sua vida, os cristãos se recordem sempre da verdade e nunca se deixem enganar por heresias e falsas interpretações bíblicas. Por isso, ele evoca a importância do ser testemunha ocular dos fatos e feitos da vida de Jesus Cristo (2Pd 1,12-21), exemplificando o momento da transfiguração (2Pd 1,16-18). Com isso, busca combater os ensinamentos dos falsos doutores (motivo principal do texto) e a confirmação de Deus quanto à pessoa e missão de Jesus Cristo (v.17). O autor conclui esta passagem mostrando claramente a importância da Lei e dos Profetas, onde o testemunho destes se une ao testemunho dos apóstolos e se reforçam mutuamente na centralidade do anúncio de Jesus Cristo. Esta passagem é basilar na 2Pd quanto à doutrina da Inspiração da Sagrada Escritura, sendo comparável à 2Tm 3,16 (ler 2Pd 1,19-21 e 2 Tm 3,16s).


O autor da 2Pd quer transmitir aqui que os profetas falaram da parte de Deus, sob a ação do Espírito Santo. Assim sendo, combatendo os falsos profetas que interpretavam segundo os próprios interesses a Sagrada Escritura, o autor conclui dizendo que a Escritura não deve ser interpretada de forma pessoal, mas sob a ação do Divino Espírito Santo, presente na comunidade apostólica.

O segundo capítulo se resume em combater os falsos profetas, embora o autor não indique de forma precisa as doutrinas heréticas que por ele são denunciadas. A falsa liberdade (2Pd 2,10-22) é vista pelo autor como sendo a problemática das paixões que levam ao pecado da “carne”. Este seria fruto das inclinações humanas, das paixões desordenadas e pode originar-se de uma falsa liberdade a partir do conhecimento daquilo que é certo ou errado. Uma vez que o cristão é detentor da Verdade, é chamado a viver segundo esta verdade. O conhecimento do bem e do mal não gera uma liberdade para optar pelo mal. Quem assim procede é como um falso doutor, imergindo no pecado mesmo depois de ter tomado o banho regenerador da verdade em Cristo. Quem assim procede é como o cão que retorna ao próprio vômito ou os porcos que retornam a se revolver na lama, depois de terem sido limpos. A gravidade de uma recaída depois da graça da conversão recorda o texto de Hebreus 6,4-8.

O texto vai além nos ataques contra os falsos doutores, dizendo que mesmo os anjos que pecaram foram retirados da presença do Senhor. Recorda o pecado do mundo antigo e o dilúvio como gesto de purificação da criação. Apenas Noé e sua família são resgatados. Também aos ímpios de Sodoma e Gomorra veio a destruição, sendo salvos apenas Ló e suas filhas. O texto conclui recordando que o Senhor sabe livrar os justos dos castigos reservados aos ímpios no dia do Julgamento final.



O pecado dos falsos doutores é ainda mais grave, pois eles blasfemam contra as Glórias, isto é, os Anjos de Deus. Eles se consideravam no direito de julgar os anjos, mas este é um direito que compete apenas a Deus (Rm 12,19; 1Pd 2,23). Além de se igualarem a Deus, os falsos doutores se julgavam superiores aos anjos. A condenação será severíssima a estes homens que se deleitam com os prazeres da injustiça, do adultério e da ambição. “São seres malditos!” (2Pd 2,14), a exemplo de Balaão, filho de Bosor. As comparações mostram a intensidade do mal e do pecado que estes homens portam: eles são fontes sem água, nuvens levadas pelo vento, sedutores que conduzem à concupiscência.


Em nosso próximo artigo, concluiremos a reflexão sobre a Carta de Pedro e sua ligação muito estreita com a Carta de Judas. Deus nos conduza sempre ao conhecimento de sua Palavra para bem vivermos seu amor e a vida nova que Cristo nos concede.


Padre Marcelo Lázaro

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