Segunda Epístola de Pedro


A parte final da 2ª Epístola de Pedro volta-se para o Dia do Senhor. Os hereges pareciam professar a eternidade do mundo e punham em dúvida o retorno do Senhor Jesus Cristo, afirmando que tudo continua a mesma realidade desde a criação e assim continuará, e que a vida deve ser desfrutada em intensidade. Não negam o Cristo, mas banalizam sua promessa de 2ª vinda. O texto inicia recordando que existe uma harmonia entre as profecias do AT e a mensagem dos Evangelhos e que, assim como Jesus Cristo realizou e cumpriu essas promessas antigas, todas as promessas proferidas por Ele serão cumpridas no tempo devido. Não há disparidade entre o anunciado pelos profetas e o que foi transmitido pelos Evangelhos. Assim como antes da vida humana o mundo era coberto pela água e esta mesma água foi causa de destruição (dilúvio), a partir da Palavra de Deus, “agora os céus e a terra estão reservados pela mesma Palavra ao fogo, aguardando o dia do Julgamento e da destruição dos homens ímpios” (2Pd 3,7). O texto reafirma a fé na palavra de Jesus.


As dúvidas impostas sobre a parusia devido ao tempo prolongado do retorno do Senhor devem transformar-se em sinal de gratidão e reconhecimento ao amor de Deus, que “está usando de paciência convosco, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se” (2Pd 9b). O autor usa o Salmo 90, 4 para explicar que o tempo de Deus não é igual ao tempo dos homens (“Para o Senhor, um dia é como mil anos”). Entretanto, o Dia do Senhor é uma certeza plena e o caráter perecível do mundo será visto em plenitude. Para os gregos, a matéria era eterna, apenas mudava a aparência, mas sempre se transformando. Muitos não acreditavam no fim dos tempos, no dia do Julgamento Final. A Palavra de Deus revela que o dia do Juízo será a consumação no “fogo” de toda a matéria carnal. Apenas o mundo irá perecer, mas não a vida de santidade dos justos. Somente o mal perecerá.

Viver na santidade será o caminho para habitar o mundo novo, criado por Jesus Cristo. A vinda do Senhor é algo que deve estar no centro da atenção do cristão. Não viver preocupado com a demora ou com quando será o dia do Julgamento, mas com a preocupação constante de estar na Graça de Deus (2Pd 3,11-13). E, quando este dia chegar, estarmos preparados para o encontro definitivo com o Senhor. Nesta dimensão, o autor recorda toda a mensagem das Cartas Paulinas, revelada como ensinamento autêntico, isto é, pertencente à Sagrada Escritura (2Pd 3, 14-16). O tema-chave da teologia de Paulo é a misericórdia de Deus. A 2Pd associa Pedro a Paulo, provavelmente em razão da tradição de seu martírio em Roma (“nosso amado irmão Paulo”), dando testemunho do caráter colegial da tradição apostólica. O texto encerra, exortando a todos os cristãos de se precaverem do mal e da enganação dos homens ímpios. Que cada cristão possa crescer na graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.


A exortação final não se dirige aos destinatários, na estrutura tradicional epistolar de saudação, paz e bênção finais, mas faz algo muito raro no NT, encerrando com uma doxologia, após ter proclamado a divindade de Cristo Salvador: “A Ele seja a glória agora e até o dia da eternidade! Amém.” (2Pd 3, 18b).

Encerrando esta reflexão sobre a 2ª Pedro, a título de comparação literária, partilhamos uma relação entre a 2Pd e a epístola de Judas, que se faz necessária:


Jd 4 // 2Pd 2,1-2 – os falsos mestres (intrusos na comunidade)

Jd 6 // 2Pd 2,4 – o castigo dos anjos pecadores

Jd 7 // 2Pd 2,6-7 – a condenação de Sodoma e Gomorra

Jd 8 // 2Pd 2,10 – a concupiscência carnal dos intrusos

Jd 9 // 2Pd 2,11 – nem mesmo os anjos pecadores pensaram em agir como eles

Jd 10 // 2Pd 2,12 – se comportam como animais sem razão

Jd 11 // 2Pd 2,15 – caem na traição de Balaão

Jd 12 // 2Pd 2,13.17 – pecam nos banquetes comunitários

Jd 17 // 2Pd 3,1-2 – são como fontes sem água... recordação dos profetas e dos apóstolos

Jd 18 // 2Pd 3,3 – sua presença e ação previstas na Escritura


As relações entre estas duas epístolas são muito estreitas, quase sugerindo que a epístola de Judas tenha fornecido à 2ª Pedro o esboço da estrutura e grande parte do vocabulário e dos temas de sua parte central (2Pd 2,1-3,3). Como visto acima, o paralelismo de vocabulário e de temática já se inicia em 2Pd 1,12ss, quando o autor explica o propósito do texto. E, a partir de 2Pd 2,1, os paralelismos são notados com grande atenção pelos exegetas. Em nosso próximo artigo, começaremos a refletir sobre outro conjuntos das Cartas Católicas, dentro da literatura joanina: as 3 Cartas de João.


Padre Marcelo Lázaro

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