Sobre a fraternidade e a amizade social

Fratelli tutti (FT) é o título da terceira encíclica do Papa Francisco, inspirada nas palavras de São Francisco de Assis e dedicada a todos os irmãos e irmãs, com o intuito de propor a todos uma forma de vida com o sabor do Evangelho. De fato, São Francisco chamava a todos de irmãos e irmãs: irmão sol, irmã lua, irmão vento, irmã água, irmão céu, irmã morte... Era assim que o Santo de Assis nutria dentro de si a verdadeira paz e se libertou de todo desejo de domínio sobre os outros. O Papa deseja, com essa encíclica, que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade: cristãos católicos, irmãos separados, muçulmanos, judeus, ateus... A todas as pessoas, Francisco dirige seu apelo a construir um mundo novo, capaz de superar todas as diferenças e indiferenças. É o chamado que o Papa faz para que renasça entre todos os povos uma aspiração mundial à fraternidade e à amizade.

Fratelli tutti é uma encíclica social, inserida numa realidade desafiante: a pandemia do Covid-19, que trouxe à luz nossas falsas seguranças. Francisco convida a todos a superarem os desafios e a se encher de esperança: “Sonhamos como uma única humanidade, como viajantes feitos dessa mesma carne humana, como filhos dessa mesma terra que hospeda a todos nós, cada um com a riqueza de sua fé ou de suas convicções, cada um com a própria voz, todos irmãos!” (FT,8).


O documento contém oito capítulos. O primeiro aborda os principais desafios do tempo presente: “as sombras de um mundo fechado”. A modo de uma análise de conjuntura, o Papa nos apresenta a triste realidade. O objetivo de Francisco aqui é “colocar em evidência algumas tendências do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal” (FT,9). Adverte o leitor para um certo retrocesso na vida política e social: conflitos anacrônicos, nacionalismos fechados, diversas ideologias que criam novas formas de egoísmo... Ainda que a globalização se tenha acentuado, a fraternidade ainda está distante. O mundo se encontra massificado, privilegiando interesses individuais, e faz aumentar o poder do mercado, reduzindo as pessoas a meros consumidores e expectadores. Percebe-se uma perda do sentido da história, numa espécie de “desconstrucionismo”. É notório o acentuar-se de muitas formas de individualismo e novas formas de colonização cultural. Tudo isso é agravado pelos desafios da pandemia da Covid-19. Estas e outras dificuldades lançam o desafio à superação.

No segundo capítulo, Francisco lança a luz do Evangelho sobre a triste realidade analisada, aprofundando o sentido da parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A partir dessa parábola, o Papa visita toda a Palavra de Deus, em busca de encorajamento para superar os desafios. Faz um apelo para que se inclua, seja na catequese, seja na pregação, “o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a inalienável dignidade de cada pessoa humana e as motivações para amar e acolher a todos” (FT,86).


O terceiro capítulo trata da relação como abertura ao amor para pensar e gerar um mundo aberto. O Papa faz um chamado a sair da “autorreferencialidade”, citando Santo Tomás de Aquino: “sair de si mesmo para encontrar nos outros um acréscimo de ser”. E nos adverte: “é impossível entender a mim mesmo sem um tecido mais amplo de relações” (FT,89). Continua o Papa: “em primeiro lugar deve estar o amor, aquilo que nunca deve ser colocado em rico é o amor, o perigo maior é não amar (cf. 1Cor 13,1-13)” (FT,92). É o amor que nos lança para a comunhão universal. “A fraternidade tem alguma coisa de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade” (FT,103). Destaca ainda o valor da solidariedade, que se exprime concretamente no serviço, que deixa de ser ideológico desde o momento que não serve ideias, mas pessoas (cf. FT,115). Por fim, o Papa trata dos direitos dos povos, que são inalienáveis.

No quarto capítulo, Papa Francisco faz um apelo à abertura do coração ao mundo inteiro, de forma concreta. Aqui é abordado especialmente o direito de migração. No capítulo seguinte, trata da ação política, entendida como “a melhor caridade”, e analisa o liberalismo como sistema predominante. Por fim, propõe a atividade do amor político (cf. FT,186-192). O sexto capítulo é dedicado ao diálogo e à amizade social, onde é abordado o fundamento dos consensos. Ao apresentar os pilares para uma nova cultura, cita Vinícius de Morais: “A vida é a arte do encontro, mesmo que tantos desencontros existam na vida” (FT,215).



O penúltimo capítulo trata dos percursos de um novo encontro, em que o Papa propõe recomeçar a partir da verdade. A construção da paz passa pela memória, pelo perdão e pela superação da guerra. Francisco pede, também, a abolição da pena de morte. O último capítulo aborda as religiões a serviço da fraternidade no mundo e apresenta a necessidade de firmar a identidade cristã. Referindo-se a Maria que recebeu aos pés da cruz a maternidade universal, dizj: “Com a potência do ressuscitado, deseja dar à luz um mundo novo, onde todos somos irmãos, onde haja lugar para todos os descartados de nossa sociedade, onde resplandecem a justiça e a paz” (FT,278). O documento termina com duas inspiradas orações dirigidas ao Criador, uma de caráter inter-religioso, outra de caráter cristão-ecumênico.


Padre Geraldo Maia

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