Um coração seduzido por Jesus – Madre Tereza Margarida do Coração de Maria, a “nossa mãe”

Atualizado: Jun 9


Um coração seduzido por Jesus! É o que descreve o coração de nossa querida Serva de Deus Irmã Tereza Margarida do Coração de Maria. Tal como Jeremias, que se sentia incapaz e pequeno para realizar as obras que Deus lhe pedia, ela pôde testemunhar com a vida: ‘Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar” (Jr. 20,7-9). O fogo do amor de Deus que impulsiona os discípulos a testemunharem que Jesus Cristo é o Senhor, assim irmã Tereza Margarida nada negou a Jesus, deu-Lhe tudo, deu-Lhe a vida.

Todos somos chamados à santidade. Os santos de Deus nascem e se fazem no seio de uma família, e não foi diferente com “Nossa Mãe”, como era carinhosamente chamada no Carmelo de Três Pontas (MG). A serva de Deus nasceu no dia 24 de dezembro de 1915, na cidade de Borda da Mata, quinta filha de Francisco Marques da Costa Júnior e Mariana Resende Costa, recebendo o nome de Maria Luiza. Seus pais viveram a vocação matrimonial com fidelidade e generosidade, formando um lar com laços de sincero amor. Foi nesse lar fecundo e cristão que Maria Luiza cresceu, junto com outros 11 irmãos. O segundo deles, João, também se sentiu chamado por Deus à vocação sacerdotal e entrou para aos salesianos. Anos depois foi nomeado arcebispo de Belo Horizonte (1967), nosso Dom João Resende Costa.


O nascimento da Serva de Deus foi envolvido de providências do Céu, pois veio ao mundo na noite de Natal, dia Daquele que, desde ali da simples manjedoura, reverberava sua luz radiosa, alcançando e seduzindo o coração dessa menina. Outra providência foi que a batizaram na Igreja dedicada a Nossa Senhora do Carmo, “a 10 de fevereiro de 1916, dia consagrado no calendário litúrgico a Santa Escolástica, monja beneditina, irmã de São Bento” (COTTA, p. 10). Anos depois, seus pais, desejando que seus filhos estudassem e seguissem um rumo melhor na vida, resolvem mudar-se de Borda da Mata para Cruzeiro -SP. A mudança, tal como uma faca de dois gumes a atingir o coração, foi desafiadora para Maria Luiza. Só de pensar que teria que deixar seus amigos, seus avós, seus cantos e encantos da cidade natal... Seu pai, no entanto, foi criativo, soube cativar e motivar seus filhos com ideias de que a nova casa estava envolvida de belezas primaveris, de um grande jardim.

Já na nova casa a meninada arteira não perdeu tempo; entre brincadeiras e descobertas, foram adaptando-se. Mesmo entre as brincadeiras, com seu jeito arteiro e sensível, Maria Luiza não deixava de sentir saudades e de pensar na antiga casa e vida. Não demorou até que esse saudosismo viesse a se manifestar até mesmo em seus estudos, precisando repetir a primeira série.

Mais adiante, numa nova etapa de sua vida, suas irmãs mais velhas convencem seus pais a enviá-la para o Colégio Bom Conselho, onde, mesmo às custas e choradeiras, aprendeu o valor e o amor ao estudo, dedicando-se cada vez mais, amadurecendo lentamente, auxiliada por uma ótima formação cristã e pedagógica da época. Neste ambiente estudantil tornou-se membro da Ação Católica em sua paróquia e tornou-se filha de Maria, amando ainda mais a Mãe de Deus e São José. Foi nessa época que Maria Luiza conheceu um exemplar da História de uma Alma, de Sta. Teresinha.



Jesus não perde tempo! Quando Ele quer todo o coração de uma pessoa, sempre arruma jeitos e trejeitos para conquistar aqueles e aquelas para viverem ainda mais próximos Dele, intimamente unidos numa amizade misteriosa. Assim foi com Maria Luiza. Aos pés do Santíssimo Sacramento, numa das peregrinações da família ao Santuário Nacional de Aparecida, sentiu ali, aos pés de Maria, seus primeiros apelos para a vida religiosa.

No entanto, como saber se isso vem de Deus? Numa Vigília Pascal em Cruzeiro, sente de maneira mais clara, como a voz que outrora chamava o jovem Samuel durante a noite. Mesmo assim, Maria Luiza teme deixar-se levar por ilusões e pede ainda uma confirmação. Num ato um tanto peculiar, pega numa estante um livro que lhe servisse de sinal. Então, no ato da procura, uma moça desconhecida lhe aparece e a convence pegar o livro “Memórias de Elisabeth da Trindade”.

Pronto! Ali estava a confirmação! Ali estava, como uma abelha atraída pela doçura do néctar divino. Maria Luiza revela a seu pai o desejo de consagrar-se a Deus para sempre no Carmelo. Inicialmente não recebe permissão, mas isso, longe de fazê-la desistir, vai firmá-la ainda mais nesse propósito, até que vê seu pai rendido a aceitar sua partida para a clausura.

Maria Luiza entra no Carmelo de Mogi das Cruzes (que depois foi transferido para uma nova sede, Carmelo de Santa Teresinha, em Aparecida -SP), com seus 22 anos, no dia 28 de maio de 1937. Poderíamos nos perguntar: O que faz com que uma moça, dotada de tantos dons, se esconda numa clausura? O amor! Só o amor justifica a vocação carmelita. Sim, só a consciência de ser profundamente amada por Deus e querer devotar a Ele a única vida que temos, imolando-se numa constante oração a Seus pés pelas necessidades da Igreja e de toda a humanidade para a glória da Santíssima Trindade. A carmelita, com sua oração, abraça o mundo e entrega-o para Deus. Abraça todas as realidades, para ela muitas vezes invisíveis, intocáveis. Entretanto, o espírito de fé a anima.

Na nova vida de carmelita descalça não lhe faltaram sacrifícios, superações. Ela acolheu e aceitou tudo que isso implicava num profundo espírito de fé e paciência. Acostumada com as atividades da Ação Católica, de seus dotes para o piano, a nova vida exigiu-lhe humildade. Maria Luiza, agora Ir. Tereza Margarida do Coração de Maria, deveria empenhar-se em serviços simples, como o de “desfiar sacos de estopa e enovelar fios para fazer as solas” das alpargatas de suas coirmãs. O nome novo que lhe deram expressava a vida e missão que Maria Luíza assume no Carmelo Teresiano e na Igreja. Ir. Tereza Margarida do Coração de Maria tem como sua padroeira a monja carmelita filha de Arezzo-Itália, Santa Teresa Margarida, que viveu uma vida simples, silenciosa, voltada à contemplação do amor do Coração de Jesus.

Passados os anos de formação monástica, chega a tão esperada profissão solene (votos perpétuos). Ela os emite no dia 02 de fevereiro de 1942. Mais tarde, assume na comunidade lugares de serviço como auxiliar de mestra de noviças e, ainda aos 30 anos, é eleita subpriora, precisando receber de Roma autorização especial. Quando tudo parecia sossegado e tranquilo em seu Carmelo, mais uma vez o Senhor a surpreende com um novo pedido. Chega à comunidade o pedido de fundação de um novo Carmelo, o Carmelo de São José, na cidade de Três Pontas – MG.



Como mulher de fé e confiança em Deus, verdadeira filha de santa Teresa, uma vez decidida a empreitada, disse: “Para São José, eu nada posso negar, porque Ele nunca me recusou nada”. Para lá foi e ali ficou com suas irmãs fundadoras, semeando, na terra fértil, a semente do carisma carmelita nessa nova casa em que não lhe pouparam esforços para fincar raízes profundas. Bendito seja Deus! No dia 22 de janeiro de 1969, a nova casa estava nos moldes para a vida conventual carmelita.

De todo esse percurso, o que podemos aprender com essa mulher de corpo frágil, mas de espírito forte? Que importância para o Carmelo e para a Igreja a vida e modelo da Serva de Deus Tereza Margarida, “Nossa Mãe”, nos deixou? É perceptível que na vida de Nossa Mãe se cumpriram aquelas palavras da Virgem Maria em seu Magnificat: “exaltou os humildes”. Sim, como um amigo que não nega nada ao amigo, entregou-se livremente a Deus, sem esperar recompensas. A vida de Nossa Mãe é testemunha da beleza da humildade, daqueles que vendem tudo e seguem a Jesus. Da beleza do testemunho de quem encontrou aquela pedra preciosa no terreno da vida e não a guardou só para si. Multiplicou, triplicou, centuplicou.

“Nossa Mãe” transbordou vida por onde passou. E para o Carmelo? Ah! Resgatou mais uma vez aquela profundidade, aquele encanto da maternidade espiritual que, independentemente de quem fosse, ela estava ali, como a virgem prudente, com sua lâmpada da oração acesa, iluminando os passos de seus filhos nas sendas da vida, com um sorriso, com uma palavra, com seu silêncio, com seu jeito carinhoso e firme de ser.

Por fim, que testemunho deixa para a Igreja e para o mundo? Nos corações onde reinam muitas vezes aquelas sequidões e vozes áridas, desnorteamentos e desuniões, o testemunho de vida da serva de Deus Tereza Margarida, Nossa Mãe, como boa monja carmelita e cristã que foi, vem trazer à tona aquele convite de Jesus – “Já não vos chamo servos, mas amigos”! Sim, é a partir daí, dessa amizade sincera com Jesus através da oração, do trato amoroso, do trato amigável com Jesus que as trevas darão lugar à luz que os embates sem fim darão lugar à comunhão, que os olhos ferozes darão lugar a novos olhares cheios de bondade e compaixão, mirando o irmão que sofre no meio do caminho, sensibilizando-se com ele, passando da dimensão do apenas ver, mas nutrindo dentro dessa amizade com Jesus, olha, para, cura-lhe as feridas, toma-o em suas mãos e o leva para dentro, para dentro do coração, para um cuidado interior, para dentro de um ambiente de diálogo, de partilha, de cura.



Nossa Mãe sempre viveu no Carmelo aquela dimensão da vocação samaritana da Igreja, a que hoje o Papa Francisco nos convoca. Por sua constante oração, abnegação evangélica e conselhos prudentes, nossa Mãe se fazia, na capela, no claustro, na sala de comunidade ou no locutório do Carmelo de Três Pontas uma grande e autêntica samaritana de sua comunidade religiosa, mas também de toda a humanidade.

É o testemunho de quem se deixou amar por Deus, se deixou transformar por Deus e numa explosão de amor não suportou, abraçou o “Ide” e foi para dentro, para o alto, para as águas profundas da misericórdia divina e por isso alcançou tantos corações que até hoje rezam: Nossa Mãe, Tereza Margarida, cuida de nós! Este é o testemunho que a Serva de Deus, Ir. Tereza Margarida, deixa até seu último suspiro, como uma vela que lentamente se apaga: “No momento solene do abraço do Pai, estavam presentes sacerdotes amigos e a comunidade, aguardando a consumação do sacrifício. Assistida por toda a comunidade, ao redor daquele leito que se transformou num Santuário sagrado, finalmente adormeceu no Senhor, no dia 14 de novembro de 2005”.


Com orações,

Fr. Luiz Maria de Santa Teresa de Jesus, OCD,

para o Jornal Metropolitano da Arquidiocese de Uberaba

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