Um vírus para nos fazer pensar

Atualizado: Abr 3

A pandemia deve nos provocar para a vivência da cidadania em seu sentido pleno, com respeito ao outro, ao seu espaço e ao seu bem estar


Em 1947, Albert Camus (1913-1960) escrevia um romance intitulado A Peste. O livro, utiliza a imagem da peste bubônica ocorrida em uma metafórica cidade da Argélia, Oran e o caos a que o lugar é submetido. Nesse cenário, o autor elenca alguns personagens significativos e, em cada um deles, uma função social e o seu modo de lidar com a realidade e suas diferentes atitudes e respostas.


Um médico, o Dr. Rieux que descobre o surto de doença se dedica todo o tempo, perdendo inclusive pessoas queridas; o prefeito Joseph Grand, um sujeito que acredita que a peste é um apenas um alarme falso; o Pe. Paneloux que tenta justificar doença a partir do castigo divino e da vontade de Deus; Raymond Rambert, um jornalista, que em princípio tenta fugir da cidade, mas depois se convence de que também é sua responsabilidade combatê-la; e Cottard, um homem que aproveita da crise para ganhar dinheiro.


Na trama ficam evidentes as idiossincrasias humanas, a solidariedade, o uso do discurso religioso como forma de manipulação, a irresponsabilidade política diante do problema, a exploração da fragilidade do outro em benefícios próprio e a falência das instituições diante da peste. Em 1977, Raul Seixas compôs uma música “O dia em que a terra parou”. A canção fala de um caos total, em que tudo para. Talvez essas duas peças literárias nos fazem pensar sobre o que vivemos atualmente, com o COVID-19 (coronavirus), uma pandemia, que de certo modo, está fazendo a terra parar.


COVID-19 se apresenta como um fenômeno pandêmico que atinge a todos, independente de classes sociais. Negá-lo é ser irresponsável diante daquilo que ocorre atualmente em todo o mundo, perante nossos olhos, em tempo real. Transformá-lo em terror inadvertidamente é prestar um mau serviço social e é contribuir para o caos. Atribuir castigo divino à humanidade é buscar uma justificativa, no mínimo fundamentalista, para uma realidade que, para além de discursos de pecado, culpa, fé em Deus, é fundamental alimentar a esperança e valores humano-cristãos, sobretudo para quem, lida e corre o risco cotidiano de infectar-se ou de morrer para salvar vidas. Jogar a responsabilidade a Satanásé eximir-se da responsabilidade de formar consciência crítica que pode ajudar a cuidar e a salvar a vida do próximo.


Vivendo aqui na Itália a serviço da Congregação e acompanhando as notícias que chegam pelos meios de comunicação, pelos confrades de diferentes partes do mundo, a realidade local, Europa, e o quanto fomos afetados por ela, penso que a realidade do COVID-19 faz-nos refletir além da pandemia em si, como fenômeno de saúde, mas como algo que põe em xeque instituições, saberes, pessoas e interesses. Nesse sentido, a obra de Camus e a canção de Raul nos parecem muito atuais para elucidar o cenário hodierno que vivemos.


O COVID-19, em pouco tempo, foi capaz de evidenciar a vulnerabilidade do sistema financeiro e das instituições público-privadas que deveriam apresentar determinadas respostas em favor do bem comum. Desde a fragilidade e incompetência dos governos, presos aos seus próprios interesses ou que minimizam o problema e dos sistemas de saúde incapazes de lidar com tamanha emergência. Além disso, expôs, claramente, que se trata de uma situação que afeta a todos, independente de posição social. Sem desconsiderá-lo, o COVID-19 é apenas uma faceta de outras crises, muito maiores, tais como a fome, as guerras, a migração. A diferença, é que estas, talvez, não nos tocam diretamente e isso faz com que governos, instituições, meios de comunicação e, nós mesmos, não nos interessemos, pois, o problema é sempre do ‘outro’. Este fenômeno viral não pode ser desconectado de tantas outras pestes…


Outro fenômeno que se sobressai é o do vírus fake news. De um lado, as instituições de saúde, tais como Organização Mundial da Saúde, Ministérios da Saúde e Governos buscam alertar e conscientizar a população com informações científicas, críveis, de outro a disseminação de fake news com informações distorcidas, sem fundamentação científica, com o objetivo de espalhar caos e o terror e se beneficiarem com o medo da população. O sujeito que espalha este tipo de informação está prestando desserviço social e, pode, em situações mais graves, comprometer a vida de outrem. Em outros termos, viola a ética e até mesmo a justiça.

Na obra de Camus há uma tensão entre o modo de agir do Dr. Rieux e do Pe. Paneloux. Enquanto o médico, a todo custo, tenta salvar vidas, o religioso, neste caso, uma metáfora, das instituições religiosas, está tentando justificar tal realidade a partir da vontade divina.


A grande pergunta de fundo de Camus: que Deus é este que permite a morte do inocente? Como cristãos, não podemos incorrer nessa mentalidade. Com as medidas tomadas pelas Igrejas, seguindo as recomendações governamentais e solidárias com o sofrimento humano, tais discursos vieram à tona. Nunca Satanás foi tão usado em uma pandemia. Teologicamente, independente de religiões, o contexto real que estamos vivendo não deve ser aquele de atribuir a pandemia a um ente (Deus, Satanás), mas de conscientizar a todos para a solidariedade e para o cuidado com o outro.


Pode ser que, enquanto religiões, estamos como os personagens do texto do Bom Samaritano (Lc 10,30-37). É hora de deixar de “passar pelo outro lado”, mas misericordiosamente, assumir a atitude samaritana de aproximar, limpar as feridas, cuidar, prestar assistência e animar os desesperançados e combater o medo e as falsas visões divinas. Certamente é um tempo de fazer de nossas instituições religiosas um “hospital de campanha”, conforme nos recorda o Papa Francisco.


Também é fundamental promover a consciência crítica e ajudar as pessoas a se livrarem e a combaterem os aproveitadores de tamanha crise. Albert Camus, através de Cottard, expõe este tipo social e institucional.

Como podemos evitar tal realidade, quem sabe, tão próxima de nós ou que está presente em nossa própria mentalidade?

Por fim, como população em geral, esta pandemia deve nos provocar para a vivência da cidadania em seu sentido pleno como respeito ao outro, ao seu espaço e ao seu bem estar. Além de ser algo profundamente ético, está alicerçado nos valores do Evangelho. E como cristãos somos promotores destas páginas sagradas não somente em tempos de alegria, mas sobretudo, em tempos de tribulação.


Por Pe. Rogério Gomes, via A12 


Fonte: Aleteia

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