Você leu o que eu postei?

Você leu o que eu postei?

Hoje temos muitas telas e pouca preocupação com a verdade. Que tipo de conteúdo eu sou?

Quem nunca ouviu a expressão: quem conta um conto, aumenta um ponto? Essa inclinação à criatividade, à fantasia ou à sabedoria popular causa grandes problemas à comunicação. É claro que cada texto ou conversa traz em si recortes de outros temas ou prosas lembradas à beira do caminho, mas tratando de informação, notícias ou fatos, essa crença popular não pode ser levada a sério. Não pode ser uma verdade.

É certo que todos têm direito a opinião. Hoje um celular nas mãos nos “empodera”, transformando-nos em mídia e conteúdo, e assim divulgadores e leitores de muitas notícias e a percepção ou feeling como muitos dizem por aí, muitas vezes têm sobreposto a necessidade da apuração, o que é um erro grotesco dentro do jornalismo.

Tudo deve ser checado, uma, duas ou três vezes se possível. Desconfie se a informação vier fácil. Há um preço e, na mídia, isso pode custar milhões, além de seu emprego ou carreira.

A notícia que cada um quer passar é revelada numa corrida muitas vezes ensandecida. A urgência em revelar o fato supera até mesmo a verdade. Para muitos não importa se a vítima ou o infrator têm uma opinião ou pensam algo; eles a partir daquele instante são postos na tela. O que vale hoje é uma timeline cheia de likes, uma audiência elevada, um grande número de impressos vendidos.

Tempos em que a confiança no jornalismo é essencial, precisamos muitas vezes questionar a veracidade da informação de muitos veículos. “Retuitamos, clicamos, compartilhamos sem checar”, escreve o jornalista Matthew d’Ancona.  “Isso tem consequência. Conspiramos, sabendo ou não, para desvalorizar a verdade, ao hibernar no buraco de Hobbit do lugar-comum, os rostos piscando à luz dos incontáveis sinais eletrônicos que reforçam o que já pensamos saber”. Construímos uma verdade pessoal e espalhamos nossa percepção aos quatro ventos. Queremoslikes ainda que seja com a exposição alheia. E assim a fake news (notícia falsa) corre nas telas tão comuns de hoje.

Muito mais que as cinco perguntas básicas que todo jornalista precisa responder antes de fazer uma matéria (Quem? O que? Como? Onde? Por quê?), é preciso checar a informação, ouvir os envolvidos, dar voz a todos os personagens da história, tudo em respeito à pessoa e a comunidade, que hoje não se resume ao bairro em que moramos. Nossos muros foram desfeitos e graças às novas tecnologias tudo está acessível em qualquer parte do planeta.

A imparcialidade é algo muito discutível. O guardião das notícias, o gatekeeper ou editor, naturalmente faz escolhas baseadas muitas vezes nos princípios do veículo ou de sua crença e postura política e social. O jornalista escolhe um viés da notícia e parte daí para a apuração dos fatos. Escolhe o ângulo da foto e a escrita da matéria etc . Tudo é capaz de favorecer a formação da opinião pública. Não existe escolha sem exclusão. “Fulano disse, sicrano falou” não é justificativa para uma publicação.

Felizmente há veículos sérios, que enviam seus correspondentes às ruas, coletam depoimentos, checam as informações, ouvem todos os lados envolvidos, voltam às redações e passam a madrugada revisando, diagramando. Tudo isso, para que na manhã seguinte esteja a informação bem construída e pautada em nossas mãos.

E você, já checou a informação que passou adiante hoje?

Alex Gonçalves – jornalista e agente da Pastoral da Comunicação da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Uberaba 

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